Protesto contra descaso do governo marca simulação no Walfredo Gurgel

Servidores em greve realizaram mobilização em frente ao hospital e criticam "maquiagem" feita pelo Governo

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Roberto Campello

Roberto_campello1@yahoo.com.br

A manhã desta sexta-feira (28) foi agitada em frente ao Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel. Durante pouco mais de uma hora, cerca de 30 pacientes deram entrada na maior unidade hospitalar do Rio Grande do Norte. O trânsito de ambulâncias e carros particulares com esses pacientes foi intenso. A cada ambulância ou carro que chegava em frente ao Hospital a situação se repetia. Servidores estaduais da saúde em greve protestavam por melhores condições de trabalho e atrapalharam a entrada dos pacientes no Pronto Socorro Clóvis Sarinho. Toda a cena descrita fez parte de um exercício simulado com múltiplas vítimas, com base para os atendimentos de urgência em eventos de grande concentração de massa, a exemplo da Copa do Mundo, com exceção dos protestos dos servidores, que não estava no script dos organizadores da simulação.

A cada ambulância que chegava os gritos dos manifestantes se intensificavam e boa parte deles se aproximava dos carros e dificultavam o acesso dos maqueiros às dependências do hospital. Dois pacientes que chegaram em situação real de atendimento foram confundidos pelos manifestantes com atores da simulação e, momentaneamente, foram impedidos de entrar no hospital.

O vice-coordenador geral do Sindicato dos Servidores Estaduais da Saúde (Sindsaúde-RN), Manoel Egídio Júnior, que trabalha como enfermeiro na unidade, disse que a intenção dos servidores em greve durante o protesto não foi atrapalhar o exercício de simulação e sim demonstrar a realidade do Hospital.

“O Walfredo Gurgel hoje já vive em uma situação de catástrofe, pois não tem a menor condição de trabalho. Como é que querem atender vários pacientes se não conseguem resolver os problemas do dia a dia? Essa assistência mostrada aí era para ser realizada todos os dias e não apenas na simulação. Precisamos desse padrão todos os dias e não apenas para a Copa. Queremos denunciar que a situação não é esta que está sendo mostrada. Na simulação tem-se tudo, mas no dia a dia, falta tudo nesse hospital”, denunciou o sindicalista.

Os funcionários que estavam no plantão da manhã de hoje atuaram de forma a prestar a melhor assistência em uma situação de catástrofe, com um elevado número de pessoas feridas chegando ao Pronto Socorro, simultaneamente ou em pequenos intervalos de tempo. As vítimas foram trazidas pelo Samu, por carros populares e alguns a pé. Participaram do exercício o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) Natal e Metropolitano, com oito ambulâncias. A encenação é parte do treinamento que estava sendo realizado desde a última terça-feira (25), no SERHS Natal Grand Hotel, para 100 profissionais da saúde do Rio Grande do Norte, tanto da rede pública quanto da privada.

Três especialistas do Host City Program (HCP) da Alemanha, referência mundial no assunto, estiveram em Natal ministrando o curso e acompanharam de perto a simulação de hoje. O secretário de Saúde do Estado de Berlim, Detlef Cwojdzinski, o vice-comandante dos Bombeiros da Cidade de Stutigart, Karsten Homrighausen, e o secretário municipal de saúde da cidade de Frankfurt, Hans Georg-Jung, mas nenhum deles deu nenhuma declaração a imprensa.

Para o secretário Estadual de Saúde Pública (Sesap), Luiz Roberto Fonseca, a presença dos manifestantes durante a simulação não prejudicou o trabalho, pelo contrário, o clima de tensão do lado de fora do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel tornou o treinamento mais próximo do real. Natal foi a sexta capital a receber o treinamento e a única que conseguiu reunir profissionais da rede pública e privada de saúde.

“Simulado só faz sentido se for o mais próximo do real possível e hoje conseguimos nos aproximar bastante da realidade, pois durante a Copa do Mundo teremos a presença de manifestantes. Mas é bom destacar que esse treinamento não é para a Copa e sim para o Hospital, pois o legado ficará para o hospital, para qualquer situação de catástrofe que envolver múltiplas vítimas”, destacou o secretário Luiz Roberto Fonseca.

O secretário avaliou o simulado como “exitoso” e mostrou, na opinião de Luiz Roberto Fonseca, que o maior hospital de urgência e emergência do Rio Grande do Norte está preparado para atender pacientes, se vier a acontecer, oriundos de grandes catástrofes envolvendo múltiplas vítimas. No entanto, se chegar, por exemplo, dez pacientes com traumatismo craniano grave (TCE), o Hospital tem capacidade de atender apenas cinco pacientes de uma vez, e nesse caso, segundo o secretário, a rede privada será acionada.

“Tanto na opinião do Ministério da Saúde, quanto na dos consultores da Alemanha, o Hospital Walfredo Gurgel saiu-se muito bem e mostramos que podemos atender os pacientes da simulação mesmo com o hospital aberto, em pleno funcionamento. Fomos avaliados por quem tem uma vasta experiência no assunto, pois a Alemanha trabalha com isso desde 2006. Hoje se verificou que o Hospital tem capacidade de atender um grande número de pacientes dentro do seu perfil, que é pacientes politraumatizados, traumas neurológicos, cirúrgico ou ortopédico”, afirmou o secretário.

FALHAS

A simulação também serviu para identificar as falhas de operação no atendimento de urgência e emergência existente no Hospital Walfredo Gurgel. O secretário disse que a simulação também é importante para reforçar as áreas críticas da unidade, como o déficit de leitos de terapia intensiva. Ele adiantou que no próximo dia 1º de abril serão abertos mais dez leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital.

“Dentro do hospital, fluímos bem e vale salientar que o atendimento real não foi comprometido. Os setores estiveram bem organizados e verificou-se o comprometimento dos funcionários. Mas verificamos que é necessário um quantitativo de recursos humanos maior na unidade”, destacou.

Além disso, verificou-se também a necessidade de melhorar a comunicação interna da unidade. Hoje, durante a simulação, a comunicação foi feita via rádio transmissor, mas hoje falha em alguns momentos. Do lado de fora, será necessário impedir a entrada de carros particulares a frente do Pronto Socorro, pois hoje o fluxo de veículos compromete o pleno trabalho das ambulâncias e carros que chegam com pacientes em situação de urgência e emergência. A sinalização vertical e horizontal do hospital também precisará ser trocada.

A diretora do Hospital Walfredo Gurgel, Maria de Fátima Pinheiro, também considerou a simulação positiva e importante para detectar possíveis fragilidades para serem corrigidas antes que alguma catástrofe aconteça. A diretora lembra que independente da Copa do Mundo, o Hospital Walfredo Gurgel já atendeu situações envolvendo múltiplas vítimas, como em um carnaval onde foram atendidas cerca de 30 pessoas e no caso de uma escola que desabou e mais de 50 crianças foram atendidas no Walfredo Gurgel.

“Com essa simulação podemos nos organizar minimamente para, caso venha a acontecer, tenhamos condições de atender essa grande quantidade de pacientes de maneira tranqüila e segura”, destacou a diretora. Fátima Pinheiro só lamentou o fato de alguns técnicos de enfermagem não terem apoiado a simulação. “Nosso trabalho agora vai ser sensibilizar os funcionários e mostrar para eles que sem eles nada disso pode acontecer e que se vier acontecer devemos estar preparados”, destacou Fátima Pinheiro.

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