Do Pudor

Seria o pudor, Senhor Redator, algo caído de moda entre nós? Ou, e tanto mais estranho – seríamos hoje despudorados?…

Seria o pudor, Senhor Redator, algo caído de moda entre nós? Ou, e tanto mais estranho – seríamos hoje despudorados? Meio cínicos? Sei que somos. Desde os tempos coloniais, quando o vício da servidão nos levava a receber os forasteiros e conquistadores com toalhados da Bretanha. E se já não somos assim, nem por misso estamos curados de todo. O que a cena política tem revelado por esses dias já não é mais do que um simples despudor. Chega a ser o feio e triste ultraje público.

E o pior: aos políticos se juntam, como sempre, os próceres, áulicos, escribas e os exegetas do trágico e do grotesco, compondo uma cena que desafia o mais tênue sentimento de amor próprio. É o cortejo das ousadias desmedidas. Cada um que busque nos baús de ontem e nos arquivos eletrônicos de hoje as mais frágeis e precárias justificativas. Como se um acordão justificasse outro e um chapão servisse de berço a outro chapão, quando todos visam à supressão da oposição para uma eleição fácil.

Agora que a nudez é um instrumento de protesto e as genitálias expostas já não significam um flagrante atentado, é hora de se definir um novo conceito de pudor. E parece que a política começa a ser o campo de teste mais adequado. Hoje agride a falta de pudor na vida pública do que qualquer gesto obsceno. É que a velha obscenidade que antes agredia os olhos mais conservadores e graves, agora ilustram as notícias de protesto em toda parte, até entre as colunatas da Praça de São Pedro.

Ora, se perdoamos a nudez, hoje descriminalizada nas cortes superiores dos Estados Unidos e da Inglaterra, na Espanha e em toda parte, hora de voltarmos à veneração da beleza da nudez e do corpo humano. De feio, restou o político que trai os compromissos com o povo, pratica corrupção e fere o pudor público com todo cinismo e descaramento. E ainda reclama quando a sociedade sai às ruas lançando seu grito, erguendo suas bandeiras, atirando com palavras de ordem a sua decepção.

E nesses tempos sem pudor, logo agora, os políticos perderam de vista a mais importante das mudanças na dinâmica da sociedade: o retorno do povo rua. Não para simplesmente ocupá-la de forma circunstancial, mas reconquistá-la como o espaço das mais legítimas manifestações coletivas das forças populares. Uma sociedade que estava em casa e no trabalho, quieta e ordeira, até descobrir que nos gabinetes os políticos feriam o pudor numa feira de traições e negociatas despudoradamente.

João do Rio, com seu longo e aristocrático nome de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, na abertura do seu livro ‘A Alma Encantadora das Ruas’, avisa logo nas primeiras linhas ao seu leitor: ‘Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor, assim absoluto e assim exagerado, é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimentos parecidos e iguais’.

 

NOME – I

Uma voz do PMDB, dessas guardadas entre os veludos da precaução, dizia ontem nos ouvidos deste colunista: ‘Suas previsões estão certas, mas não descarte a candidatura Fernando Bezerra ao governo.

E… – II

Argumentou com aquela lógica de pedra que suporta o impacto de qualquer desmentido: ‘Você acha que se Henrique fosse candidato faria uma pesquisa sem seu nome? Ou então omitiu na divulgação?’.

REBATE

Um petista contestou a perspectiva levantada aqui, na coluna de ontem, de uma possível desistência do vice Robinson Faria ser candidato ao governo. ‘Pode ser um desejo do governo, mas não desiste’.

VICE

Repetindo sempre que não é problema, pois será sempre solução, o deputado João Maia não descarta a possibilidade de ser vice-governador. Com Fernando ou com Henrique. Mas abre se for a solução.

TESTE

O folião pode fazer testes rápidos de Aids e doenças sexualmente transmissíveis durante o carnaval. Além de Natal, Assu, Areia Branca, Macau, Pitangui, Galinhos, Barra de Maxaranguape e Touros.

FREUD

A Três Estrelas lança no Brasil ‘Freud com os Escritores’, um livro que reúne vários estudos dos psicanalistas Jean-Bertrand Pontalis e Edmundo Mango sobre a influência literária na obra de Freud.

ÁGUA

O CEI Romualdo Galvão aprovou o projeto ‘Água e vida no Rio Grande do Norte: gota a gota’, junto à Unesco para a Conferência de Educação Global Sustaining The Blue Planet, entre 24 e 27 de junho, em Montana, EUA.

LIVROS – I

A UFRN lança quatro títulos: ‘Das Farinhadas à produção para o Mercado’, Diogo Salomão Cândido de Oliveira Salvador; e ‘Em Casa de Catiço – a etnografia dos exus da jurema’, de Marcos Queiroz.

MAIS – II

‘Utopia e Agonia’, um ensaio de Andrey Pereira de Oliveira sobre o indianismo de Gonçalves Dias; e ‘O Riso de Millôr’, de Lucinéia Contiero, estudo sobre o melhor da dramaturgia de Millôr Fernandes.

DATAS

Há trezentos anos era celebrada a primeira missa na Igreja do Rosário dos Negros, em 1714, ali no alto da cidade antiga. Em 1774, sessenta anos depois, era erguida a igreja do Bom Jesus das Dores.

RATO

No carnaval de1904, registram os historiadores da música popular brasileira, um sucesso animava os foliões nas ruas do Rio antigo, cantando assim: ‘Rato, rato, rato / por que motivo tu roeste meu baú?’.

MOLE – I

Três jornalistas entrevistaram Caetano Veloso para a matéria de capa da Brasileiros: ‘Um polemista de miolo mole’. Caetano declara sua admiração a Dilma Rousseff, Marina Silva e faz critica a Lobão.

FATOL – II

Só de charme Caetano, autoproclama-se de miolo mole, mas os entrevistadores reconhecem que ele continua um farol para a cultura. Indagado sobre seu gesto de sensor, disparou, irônico: ‘Nem morta’.

POESIA

De Máh Luporini, pseudônimo de Maíra, filha de Dailor Varela, no poema Viagem dedicado ao pai no novo livro Traços de Sombras lançado em SP: ‘No trem das / horas / teu silêncio / é um vagão’.

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