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Que fiquem os dedos

Data: 15 janeiro 2013 - Hora: 17:54 - Por: Vicente Serejo

Ninguém, Senhor Redator, encarna melhor a velha achega do saber popular do que o poder quando prefere perder os anéis e salvar os dedos. O exemplo mais expressivo foi a queda espetacular de José Dirceu, o então todo-poderoso chefe da Casa Civil do Governo, quando o ainda deputado Roberto Jeferson trovejou nos ouvidos de toda Nação, ao vivo e em cores, aquele ‘Sai daí, Zé! Na insinuação, a ameaça que se ficasse a maior vítima seria o presidente Lula. Daí, a queda estrondosa.

Nem por isso, diria que toda queda tem duas faces: a de quem simplesmente cai e deixa a cena e a de quem, por elipse, é poupado para não cair. Mas, depois de quarenta e dois anos de jornalismo, não posso deixar de desconfiar das quedas urdidas e ungidas nos gabinetes do poder. Principalmente de duas décadas para cá, quando o papel das secretarias de comunicação, recalcado na prática, viu em seu lugar, e por hipertrofia, o papel decisório o marketing na estratégia do gabinete governamental.

Não poucas vezes registrei aqui o escapismo enganador de culpar a comunicação como forma de preservar das críticas o poder. Artifício, aliás, que esta coluna não costuma cometer, mesmo que a franqueza desagrade aos poderosos de plantão. Semana passada, dois ou três dias antes da queda do jornalista Alexandre Mulatinho, esta Cena Urbana lembrou mais uma vez que não bastaria tirar os ponteiros do relógio para segurar o tempo. A agenda negativa do governo é o seu maior adversário.

Naquelas dias, a fritura do secretário de comunicação já começava a atingir o ponto de fusão, num aquecimento já requentando desde dezembro. E a vinculação da escolha, ainda que tenha caído num profissional da inegável categoria do jornalista Paulo Araújo, só reforça a tese que esta coluna já defende há anos de que não é apenas uma questão de sintonia entre a comunicação e o marketing, mas de uma clara e já tradicional paralelismo de poderes que acaba superpondo os níveis de decisão.

A mudança ocorre no início do terceiro ano de gestão, depois de uma fase de desgaste forte e difícil, mas em compensação quando o governo tem um bilhão de reais de recursos extraordinários, oriundos de empréstimos e destinados a vários programas estruturais de governo. Pode ser, contida a agenda negativa e reformulada sua retórica, que reconstrua a imagem que sequer chegou a erguer a partir de sua posse e nesses dois anos de gestão. Tarefa desafiadora, mas não é impossível cumprir.

A nova agenda passa por obras, mas também posicionamentos em sintonia com a expectativa da sociedade e seus estamentos – classes e categorias – retomando a capacidade de diálogo detonada em razão do coronelismo jurídico inconseqüente que levou o governo a ser temido e não respeitado. Ninguém ensina um vitorioso a vencer. A governadora Rosalba Ciarlini é uma vitoriosa no campo político. Por isso ela precisa aceitar que vencer tem um preço e que só ao vencedor cabe pagar.

 

ESTILO – I
Depois de esperar mais de trinta dias um cliente do Banco do Brasil não conseguiu abrir uma conta pessoa-jurídica e ainda foi tratado com desprezo e desatenção pelo gerente do BB no Natal Shopping.

GROSSERIA – II
Não teve direito a uma resposta. O fato fere a boa tradição do BB. Um banco estatal não pode ser tão prepotente com uns e subserviente a outros. Deve ter o tamanho de cada cliente. Grande ou pequeno.

PERIGO
Sob fogo cruzado de obuses, o deputado Henrique Alves ou enfrenta o bombardeio sobre seu sonho de presidir a Câmara ou, além de perdê-la, corre o risco de sair do episódio com a imagem dilacerada.

RUSSIA
Os Clowns de Shakespeare foi um dos poucos grupos teatrais do Brasil oficialmente convidado para o Festival Internacional Tchékov de 2014, em Moscou. Ricardo III vai brilhar nos olhos soviéticos.

HORROR – I
Não pode ser verdade que a médica Rosalba Ciarlini viu sem reação de horror as fotos publicadas ontem neste JH mostrando a vida subumana dos pacientes internados na UTI do Walfredo Gurgel.

MILAGRE? – II
O que pode fazer a comunicação diante daquelas imagens, após seis meses de calamidade na saúde, e o governo fazendo estrada e estádio de futebol diante de vidas humanas agonizando no abandono?

SINAL
Paris foi às ruas protestar contra o projeto do presidente François Hollande que institui o casamento gay no país dos gauleses. E não seria justo acusar a França de ter um povo sexualmente conservador.

CORAGEM…
Corajosa a postura do prefeito Carlos Eduardo Alves ao admitir uma possível moratória das dívidas da Prefeitura por um ano para cumprir grandes prioridades como saúde, educação e serviços urbanos.

MAS…
Ao mesmo tempo, mergulha sua retórica no populismo quando não assume, com a mesma coragem, que a cidade não pode gastar com carnaval. Não é a hora de frevanças e furdunços. É de austeridade.

CUNHAÚ – I
Há quem, na Santa Madre Igreja, discorde da opinião do cônego José Mário quando não aceita como manifestação contra a fé católica o Massacre de Cunhaú, mas apenas a represália contra a inquisição.

MÁRTIRES – II
Assim, os mortos de Cunhaú não seriam mártires nem deram suas vidas pela fé. Foram vítimas da atrocidade dos holandeses. E, neste caso, não iriam além da beatificação já concedida pelo Vaticano.

SANTO – III
A tendência do cônego José Mário é lutar pela beatificação do padre João Maria e a sua canonização, em seguida. É um santo. Pelo seu exemplo de piedade cristã e os milagres atestados pelos devotos.

APOIO – IV
Anotem: se a decisão de Roma for por nome da região para ser o novo bispo de Caicó o escolhido será o padre José Valquimar. Tem o apoio do clero seridoense e de todas as cabeças bem coroadas.

ALMA – V
De uma alma piedosíssima que assiste missa na solidão secular da velha Catedral: ‘No mês de janeiro a gente não pode adoecer nem morrer. Não há médico para a saúde nem padre para a extrema unção’.

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