Querendo gol – Rubens Lemos

Relaxe. Detesto médias, aritméticas e estatísticas em futebol muito mais do que você pensa. A matemática tira do jogo a…

Relaxe. Detesto médias, aritméticas e estatísticas em futebol muito mais do que você pensa. A matemática tira do jogo a sedução e o imprevisível. Quantos toques deu fulano, quantos pingos de água da chuva caíram na cabeleira do camaronês, a exatidão repetitiva dos (nunca artificiais) sorrisos de Neymar para as câmeras ao levar uma porrada de amaciar seus ossinhos.

Deixemos os nerds em gozo com planilhas e calculadoras. E exclamando dã! A meninada que acha o máximo a musculatura de Hulk, as caretas de Cristiano Ronaldo e se estapeia pela figurinha do Papalopoulos (tem esse?) da Grécia, é o extrato de uma arte transformada em negócio no planeta inteiro . Negócio no seu pior nível, padrão crime organizado. Calabreses e sicilianos, arcanjos na metodologia.

As primeiras partidas da Copa do Mundo animam pela disposição ofensiva. Os caras estão querendo gol. É muito bom. Tivemos Copas terríveis nos últimos tempos, esquemas de forte apache. Em 1990, praticou-se impunemente o antijogo, a retranca brutalizada tornou-se padrão e o meio a zero, goleada.

Naqueles dias sombrios e de seca impiedosa no Rio Grande Norte, tivemos a pior seleção de todos os tempos, comandada pelo imbecil Sebastião Lazaroni e o seu esquema medroso devastado pelo vulto de Diego Armando Maradona, 10% do talento já corroído pelas drogas degradantes.

Em 1966, o Brasil saiu na primeira fase, mas a ruindade estava na bagunça, na má convocação e no desconhecimento evolutivo dos concorrentes. Do time que sucumbiu equanto os Beatles detonavam paixões em Londres, estavam comemorando o tricampeonato, quatro anos depois no México, Pelé, Gerson, Tostão, Edu, Jairzinho e Brito.

Na Copa que deslancha e está partindo para o desfecho da primeira rodada, joga-se com liberdade e ímpeto artilheiro. Da avassaladora Holanda ao Chile, da Itália à Suíça, da Colômbia moleque e peladeira tal o Brasil de partido alto aos africanos de Yayá Touré, um médio-volante espigado e chique. A atmosfera irreverente contagia a grama.

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Exclua-se a falta de educação com a presidente da República, agredida com palavrões pela elite que ela mimoseou com arenas segregadoras (nunca votei nem voto em Dilma Rousseff , mas houve afronta no vocabulário ralé e chulo).

Seus partidários, profissionais da vitimologia esdrúxula, partiram para a reação sem olhar para o próprio repertório. Tentaram reverter a indignação em tática maoísta. Deplorável e inútil pois as pesquisas mostram a ineficácia.

Lembro bem das mensagens facínoras – algumas cínicas e apedeutas – quando morreram a primeira-dama Ruth Cardoso e o ex-deputado federal potiguar João Faustino, estes, sim, sem direito à defesa. Trucidados na honra em vômitos jocosos. Dilma usou a mídia para responder legitimamente e tirar casquinha da própria dor da tortura que não vinha ao caso nem aos palavrões.

Os idiotas das badernas estão com rabo entre as pernas, amarradinhos. Não há clima para arruaça e quem está insistindo pela maldade natural, encontra indiferença, repulsa popular e a força da polícia.

Os jogos, mesmo as peladas certificadas por antecipação, vêm sendo movimentados e agradáveis. Os árbitros estão aparecendo, o que ruim, inventando pênaltis e anulando gols legítimos. Neném Prancha, alterego do jornalista João Saldanha ensinou que bom juiz é o que só é notado pela ausência.

Os apitadores não estão se segurando na vaidade e estão marcando pênaltis na proporção das velhas fornadas de caldo de cana. Era botar matéria-prima na máquina elétrica e, em segundos, retirar o copo adocicado e forte. Curava doença venérea em mágica clandestina e livrou muito amigo meu de surras implacáveis.

Os homens de preto, azul e, quem sabe, vestindo vinho, estão querendo tomar o lugar dos bons jogadores. E até agora, jogos surpreendentes que não vi em 2006, na decantada Copa do Mundo dos quatro fantásticos brasileiros de teoria – Kaká, Adriano e os Ronaldos, mais a Argentina e a anfitriã Alemanha, ou na última em que a Espanha encantou o universo depois de perder da Suíça.

A Espanha ainda está zonza pelo baile holandês. É prematuro, a malandragem ensina, descartá-la. A Espanha tem seis pontos a disputar e conquistar ou desperdiçar. Sua decisão será contra o Chile, que tocou bem a bola contra a Austrália e chegou a se perder em alguns momentos, confundindo talento e firula. É uma Copa agradável pela coragem e a prioridade pelo futebol atraente.

Contra o México

Felipão é coerente e patriota. Se Hulk não jogasse contra o México, partida que pode decidir amanhã a classificação br às oitavas de final, deveria entrar com Ramires no meio fazendo Neymar formar dupla com Fred.

Sonho

Ousasse Felipão como um Telê Santana, assumisse uma dose de irresponsabilidade que qualquer ser humano tem direito na vida, colocaria Bernard, para que o time ganhasse habilidade e eletricidade na frente. Os mexicanos não mostraram muita coisa contra Camarões, mas fazem o Brasil se assustar.

Jámes Rodríguez

O camisa 10 da Colômbia é um luxo de meio-campista. A batida venenosa contra a Grécia lembrou os canhotos de linhagem pura. Mas Rodríguez merece um texto apenas dele.

Monumental presunção

Da Argentina. O gol contra da Bósnia foi um presente para os hermanos que têm em Romero, o seu Júlio César de calle. A Argentina estava no Maracanã enfadada, presunçosa e leniente, parecia entediada.

Messi

A Pulga genial é tão genial que mesmo sem jogar bem, ligou seu acelerador uma vez apenas, desenhou espaços e definiu sozinho a vitória com o futebol esperado pela torcida que lotou o Maracanã. A Argentina tem time para jogar mais. E também tem jogadores muito fracos. A defesa é ruim e Di Maria, o Noel Rosa deles, foi simplesmente ridículo.

Fraco

O jogo mais esperado do domingo, Argentina x Bósnia foi o menos atraente. Suíça x Equador foi melhor.

Natal

O dilúvio que fez Natal tremer em concreto e emoção demonstrou que todos somos iguais quando o destino socializa a dor entre todas as classes sociais. Ninguém merece o pânico de perder sua casa, acordar alagado.

Caos

E não foi acidente. É falta de estrutura de longos anos. Tudo começou em Areia Preta e aterrorizou Mãe Luiza, o morro castigado sempre que o céu se acinzenta. De luminosa, a solidariedade.

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