“Rádio Guerrilha” narra conflito entre bósnios e croatas em 1994

Nunca a frase de Churchill (“Os Bálcãs têm mania de produzir mais história do que podem consumir”) foi tão precisa

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Sinto uma inveja danada de quem conhece o Leste Europeu. De vez em quando, leio na página de artigos do JH relatos de viagens de natalenses que descobriram encantos em cidades, como Praga, Varsóvia e Zagreb, e fico aqui imaginando o rio Danúbio, guetos onde Kafka viveu, instâncias turísticas no mar Adriático e até resquícios da horrorosa estética comunista. Em períodos de Copa do Mundo, então, para expandir conhecimentos sobre as seleções envolvidas, costumo fazer uma breve retrospectiva cultural, espécie de reforço extracampo com a ligação entre história e futebol – como não pensar assim na primeira participação da Bósnia em mundiais?

Quando da classificação, correu um vídeo emocionante com os bósnios comemorando a classificação em Sarajevo, capital do país em que Slobodan Milosevic soltou demônios na dissolução iugoslava, no começo dos 90s. Era comovente a alegria dos entrevistados em ao primeira felicidade nacional desde o fim da guerra – dados suspeitam de 200 mil mortos e quase dois milhões de refugiados, entre 1992 e 1995. O que de imediato me fez lembrar um livro espetacular sobre o trauma dos comunas mais abertos e cosmopolitas da ex-Cortina de Ferro – a Iugoslávia sempre foi a mais liberal e menos opressora dentro do bloco soviético.

“Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado”, do inglês Matthew Collin, conta a história da rádio B92 de Belgrado, na Sérvia, durante conflitos para a independência de Eslovênia, Croácia, Macedônia, Bósnia e Herzegovina, e nos bombardeios da OTAN. Nunca a frase de Churchill (“Os Bálcãs têm mania de produzir mais história do que podem consumir”) foi tão precisa. Esse povo sempre foi considerado ovelha negra na Europa (mais búlgaros e romenos). Enquanto jovens fugiam para o Ocidente, uma turma ficou e investiu talento em um veículo feito O Pasquim radiofônico – ironia e metáforas contra o regime.

Mas não só de discursos engraçados e polêmicos vivia a B92. A música americana e inglesa servia de símbolo antinacionalista, o que deixava diretores em extremo perigo (a rádio foi fechada inúmeras vezes e sempre voltava ao ar, já que o presidente percebia o apoio da juventude; a ideia do Carniceiro dos Bálcãs era manter Belgrado alheia ao totalitarismo e à faxina étnica executada em terras distantes). O grunge de Seatlle, o punk e hip hop ecoavam em autofalantes, para o ódio dos asseclas de Milosevic, militantes do tal de turbo-folk – a chata mistura sérvia de folclore com ‘caipirismo’ dos outros, inserida no pacote nacionalista vendido na televisão.

A B92 foi fundada em 1989, no que é considerado o Verão do Amor para os belgradinos, por um cara chamado Veran Matic, para homenagear Josip Tito, o ex-chefão dos iugoslavos, morto em 1982, invejado por correlatos comunas. Naquele instante, a antes orgulhosa e progressista Belgrado, que nunca chegou a ser uma Amsterdã, nem tampouco uma Berlim Oriental, via suas ruas destruídas, dominadas por gansters, com calçadas tomadas por cambistas e contrabandistas de gasolina, cigarros e outros itens do capitalismo de alhures. Com a tevê nas mãos do governo, a rádio era o único canal alternativo para os jovens.

Milosevic fingia descaso com a B92. Queria enganar eleitores como liberal. E os apresentadores aproveitavam para realizar campanhas pró-prostituição, a abolição da lei anti-homossexual, legalização de drogas leves (chegou até o parlamento, mas foi vetada). Isso era absurdamente provocativo em um país comunista, vinte anos atrás. A coisa começou a mudar com notícias que chegavam da Bósnia e da Croácia, falando em milhares de mortos em meio a uma guerra empreendida pelo governo sérvio – Belgrado vivia numa realidade paralela e ninguém sabia o que acontecia fora do perímetro urbano.

Veran Matic tinha definido que a B92 precisava ser radical. Pouco adiantava ter uma cobertura jornalística diferenciada e tocar a mesma porcaria das rádios estatais. Nada de mudar o sistema, mas, sim, a sociedade. Essa política provocou desentendimentos internos. O departamento comercial queria o turbo-folk que agradava patrocinadores e conservadores. Os cidadãos, paralelo a isso, não acreditavam nos boatos de que a guerra estava perto da capital e que forças estrangeiras ameaçavam com armas – notícia manipulada com maestria pelo poder.

No dia em que isso aconteceu, com o choque numa praça a metros da B92, Veran Matic pegou o microfone e narrou as cenas sangrentas como se fossem um jogo de futebol, ofegando a cada nuvem de gás lacrimogêneo. O impacto foi tão grande que a polícia invadiu a rádio para exigir música tradicional e notícias da agência estatal, proposta negada por Matic com veemência. Na madrugada, discos do The Clash e de Thin Lizzy foram tocados à exaustão, como canções de um protesto derradeiro. Tirada do ar, ela voltou menos de 48 horas depois do clamor juvenil, ancorado no mito iugoslavo de que estudantes podem abrir a boca quando bem entenderem.

Hoje a B92 é uma emissora comum – no site oficial, www.b92.net, tem a curiosa sessão Crime, o que aproxima sérvios e brasileiros. Passada a carnificina, ela teve de mudar a linha editorial para sobreviver, já no final dos anos 1990. Veran Matic chegou a se reunir com a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, para conseguir apoio político e financeiro. Fãs se sentiram traídos e só baixaram as críticas ao ouvirem que Milosevic aceitara a derrota nas urnas, em outubro de 2000. Mas o legado ficou e “Rádio Guerrilha – Rock e Resistência em Belgrado” tem grande contribuição nesse registro.

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