Rede Globo e a salvação – Rubens Lemos Filho

A Rede Globo está reunindo os clubes da Série A para saber as razões da decadência do futebol brasileiro. A…

A Rede Globo está reunindo os clubes da Série A para saber as razões da decadência do futebol brasileiro. A audiência despencou e a preocupação da “poderosa” mandachuva de lares, gabinetes e estádios é comercial. A técnica, a derrocada na Copa do Mundo, o baixo nível dos jogos, que saiam pela linha de fundo.

Ditando normas desde que a democracia foi jogada na masmorra durante 21 anos, a Rede Globo não perde a cancha e está dividindo os clubes em grupos de quatro para que os cartolas pra lá de comprometidos se submetam ao confessionário e apresentem alternativas para fazer o público acordar do sono letárgico.

Os clubes dependem das cotas da Globo, especialmente os que fazem parte do Clube dos 13, criado sob a égide da imposição da qualidade no final dos anos 1980 e hoje mera reunião de insaciáveis administradores de massas falidas por eles próprios, ao lotear patrimônio com vigaristas travestidos de empresários e ao pagar salários nababescos a ex-jogadores em teimosa persistência.

A Rede Globo poderia começar dando o exemplo em casa e livrando o povo brasileiro da nefasta figura do narrador Galvão Bueno, o seu boneco transmissor das fantasias que enganam e decepcionam a massa. Não há perigo de que eu assista uma partida transmitida por Galvão Bueno, reserva de Luciano do Valle nos áureos tempos e criador de ídolos fajutos.

Galvão Bueno, devidamente chancelado pela Rede Globo, inventa ilusões alimentadas por pobres desiludidos da vida cotidiana, sem a grana da carne de charque, da farofa e o remédio para curar a dor na coluna da patroa gemendo a noite toda, ele, salário mínimo no contracheque, implorando a Mega Sena de um plano de saúde, hoje mero SUS com grife genérica.

Quando se fala no caos do futebol, se liga o start da memória na derrota humilhante para a Alemanha na Copa do Mundo, o maior dentre todos os vexames do Brasil desde 1914, quando oficializado o 11 contra 11 com balão de couro.

A tragédia começou bem antes e a Rede Globo, no ufanismo com que sempre exaltou governos, especialmente os militares e os seus subprodutos populistas, como José Sarney e Fernando Collor de Mello(embora Lula em nada seja diferente dos dois), empurrava em efeitos especiais, mentiras goela abaixo do crédulo de Oiapoques e Chuís.

A Rede Globo nunca cobrou, por exemplo, espaço aos pobres nas escolinhas de futebol como forma de garantir a manutenção de uma espécie chamada craque de bola nato, forjada nos morros e periferias.

Gente expulsa pelo dinheiro e pelo negócio em tom mafioso que ela, a Platinada, ajudou a construir, transformar e a consolidar, como o monstro que nasce Chucky e vira Predador, ambos assassinos de cinema em tela de verdade.

———

A Rede Globo em seu padrão inigualável de estética e impessoalidade, jamais criticou a Lei Pelé, uma fraude que esfaqueia e sangra os clubes. É inviável hoje em dia se apostar numa promessa, mesmo que seja de pele iugoslava e futebol croata, se um aventureiro o arrebatará sem deixar um centavo. Nunca houve um Criança Esperança dedicado ao futebol.

Faltou a Rede Globo criar um Telecurso para ensinar ao seu telespectador fiel e alienado em sua maioria, que o Brasil deixou de ser o imbatível melhor escrete do mundo assim que apitaram o fim de Brasil 4×1 Itália em 1970. O Brasil foi melhor em tom jobiniano com Pelé e maior ainda quando com ele esteve Garrincha, menos a sua versão disforme da Copa de 66.

A Rede Globo nunca criticou Zagallo em 1974 quando copiou a retranca de covardia mantendo no Brasil um gênio do nível de Dirceu Lopes, do Cruzeiro, para levar Mirandinha do São Paulo, reserva anos depois num dos piores times da história do ABC de Natal.

Tampouco se viu ou ouviu nas reportagens da Globo, críticas ao esquema defensivo e medroso do capitão Cláudio Coutinho, eliminado invicto em 1978. Foi muito mais cômodo culpar o Peru pela goleada de 6×0 que nos eliminou.

Mas sem menções à ditadura argentina tão cruel quanto a nossa, que passou a ser olhada com olhos jornalísticos quando até a Difusora de Cherimbombanga, cidade do território de São Saruê, passou a cobrir as Diretas Já em 1984.

Também nunca vi a Rede Globo achar feia a horrorosa gambiarra tática de Sebastião Lazaroni em 1990, esquema de cinco zagueiros e dois volantes. Time que jogava até mais feio que o pavoroso time de Felipão. Lazaroni passou a ser satanizado depois da derrota para Maradona. A Globo exalta e elimina de acordo com os traços no Ibope.

A Globo mima Neymar, vende cotas de propaganda milionárias e nem quer saber se o rapaz acaba sucumbindo de tanta cobrança. Em novela patética, insiste na maldade de compará-lo a Messi, muito melhor, quando Neymar ainda suará ciscando até o estágio do holandês Robben, do alemão Muller e do português CR7. A Globo Bueno exalta Thiago Silva e David Luiz, “melhor miolo de zaga do mundo” e cala no vazamento de 14 gols de nossa defesa, dez em dois jogos.

Nenhum clube brasileiro tem o que discutir com a Rede Globo, até sádica ao marcar jogos para dez da noite, como se escravos de sofá de telenovela justificassem a vida de quem se arrisca a sair à noite a estádios sem futebol de vergonha, enfrentando a violência. Se a salvação for a Globo, o Brasil voltará a ganhar Copa do Mundo em 3002.

Compartilhar:
    Publicidade