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Refugiados na Capital do Sol

Data: 05 janeiro 2013 - Hora: 17:07 - Por: Conrado Carlos

A poucos minutos da Arena das Dunas e de condomínios com padrão europeu, 182 famílias vivem como sobreviventes de uma guerra civil africana. Foto: José Aldenir

O céu acinzentado da manhã deste sábado (05) complementava a atmosfera fúnebre e desolada do assentamento Monte Celeste, um amontoado de barracos encravado entre morros e matagais no bairro do Planalto. A menos de vinte minutos de algumas das áreas mais nobres da cidade, 182 famílias travam uma luta diária contra o desprezo, a pobreza abjeta e a falta de dignidade, como refugiados de uma guerra civil africana. Crianças descalças, cavalos e cachorros esquálidos, galinhas depenadas dividem espaço com o lixo onipotente e histórias de assassinatos, incêndios criminosos e sequestros de menores.

Com a chegada do carro da reportagem, olhares desconfiados saltaram de janelas improvisadas e pessoas que se acomodavam embaixo de árvores. Semana passada, dois homens foram mortos na batalha pelo controle do tráfico de drogas na região, que ainda engloba o vizinho loteamento Leningrado – outro enclave miserável, a 18 km do Arena das Dunas. Superado uma espécie de pórtico, adornado com propagandas multicoloridas de vereadores, um grupo de cinco, seis adultos conversam e observam a prole que brinca sobre um córrego fétido que rasga a rua principal. Alex Lima da Silva, 33 anos, é o único homem.

“Eu moro há seis anos aqui, mais minha mulher e meus oito filhos”. Perguntado sobre a idade do mais novo e do mais velho, abre um sorriso e revela desconhecimento. “É tanto menino, que eu nem sei direito”. Ao lado, a esposa sopra que o bebê tem dois meses e o mais velho, 13 anos. O auxiliar de pedreiro vive de bicos esporádicos no bairro que virou uma das pérolas da construção civil em Natal, com condomínios de prédios e casas por todos os lados, inclusive nas cercanias do Monte Celeste. Antigo morador de Lagoa Nova, Alex caminha 30 minutos para levar os pequenos ao médico, até o posto de saúde mais próximo. “Está cada vez mais difícil”.

Com tanto filho para criar, os R$ 270 do Bolsa Família servem de estrutura básica pela sobrevivência. Na mesma situação, encontra-se Maria de Lurdes Martins em sua terceira temporada seguida no assentamento, onde acomodou seis filhos com o benefício que recebe por ter problemas cardíacos. “Aqui não vem ninguém para mudar nossa vida. Político só vem na época de campanha. Vivemos aqui da ajuda de vizinhos”. É a dura realidade de quem tinha uma casa de alvenaria no conjunto Bela Vista e um marido. “Mas ele queria matar todo mundo quando bebia. Por isso vim embora para cá. Graças a Deus ele morreu”.

Na mesma viela, seis barracos à frente, Albanira Martins e Maria Aparecida Mota conversam e aguardam uma torneira minguante preencher dois baldes encardidos. É o único ponto de água para a metade dos lares – para a outra metade, o mesmo conta-gotas. “Isso quando tem”, fala uma sorridente Aparecida, jovem de 22 anos que veio de Bom Jesus/RN, com marido e três filhos, um deles no controle de uma bola murcha numa pelada solitária. Elas apontam para o horizonte, ao serem perguntadas sobre as mortes da semana anterior. O dedo estendido em direção à Sabrina dos Santos Oliveira, esposa de uma das vítimas, divide a atenção com dizeres gravados em uma porta de compensado: “Deus é fiel e medico dus medicos” [sic].

Uma menina bonita, de dentes grandes e sempre à mostra, responde com tranquilidade acerca das suspeitas sobre o assassinato do marido. “Ele era uma pessoa boa, trabalhadora, sem vício em droga. A droga dele era a cachaça. Morreu de graça. Como é favelado, fica por isso mesmo”. A idoneidade do ex-cônjuge é ratificada por vizinhos, ao mesmo tempo em que o amigo é suspeito de dever dinheiro para traficantes do Leningrado. Grávida, Sabrina aguarda o final de janeiro para botar mais um ser naquele mundo sem luz. Sem o parceiro, único provedor da casa, ela pede ajuda para comer e manter os dois quartos, sala e banheiro com o mínimo de higiene. “Estou aqui só com a benção dos outros”.

Além da carnificina entre traficantes e sua clientela, incêndios são frequentes. A própria Sabrina alerta para o estado de seu fogão. “Só tem uma boca. As outras três explodiram”. Misturado ao cheiro de dejetos humanos, nuvens de fumaça sobem nos quatro cantos do Monte Celeste.  É a forma que aqueles seres encontraram para amenizar o acúmulo de lixo e entulho. Problemas respiratórios e de pele infestam crianças que gastam parte de sua pureza ao lado de animais. Durante as duas horas em que a reportagem esteve no assentamento, nenhuma foi vista com os pés calçados.

Mas como toda comunidade tem uma líder, mesmo que oficiosa, a procura por Dona Fátima, nome fácil entre os entrevistados, levou a reportagem ao ‘cume’ do Monte Celeste. Feito uma alpinista diante de um clima hostil, ele foi a primeira moradora e tem a responsabilidade de tocar o centro comunitário. “Não sou presidente nem diretora. Sou voluntária. Moro aqui porque gosto de tranquilidade. Aqui eu durmo com as portas abertas. Nunca vieram me perturbar. Talvez eu seja como uma mãezona para eles. Ontem mesmo chegou uma mulher do interior com quatro filhos, em uma carroça. Ela me pediu um lugar para ficar. Mas aqui não tem mais. Mandei ir lá para depois daquele mato, que estão fazendo outro assentamento lá”.

Maria de Fátima Cirino Bezerra viu a chegada de cada família que, no auge, chegou ao número de 384. Ela caminha em direção às poucas casas entregues pelo Governo Federal, dentro do programa Minha Casa Minha Vida, para mostrar o motivo de orgulho diante do cenário desolador. “Tira foto delas. Estão tão bonitinhas, né?”. Com a ajuda da LBV, da Cruz Vermelha, empresários e professores universitários, foi montada uma festa para celebrar o nascimento de Cristo. “As crianças ganharam brinquedos e tivemos uma ceia”. A abertura do Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) no Leningrado foi um alento para as mães que sofriam sem ter onde deixar seus mancebos.

“Aqui todo dia chega gente. Nós queremos ajudar, dar comida, pois fico morrendo de pena. Mas as dificuldades são grandes. Não tenho como estender a mão a todos. Mesmo assim, procuramos ajuda na vizinhança. Por exemplo, um homem de uma padaria vem aqui a cada quinze dias e me entrega 300 pães. Eu sempre guardo alguns para os que chegam de última hora”. Como simulacro do Haiti, o Exército brasileiro utilizou a região como palco de treinamento para a força tarefa enviada ao país caribenho. “Foram eles que construíram o Centro”. Fátima mora com o marido e adotou uma adolescente e seu filho de dois anos. “É meu netinho. Ele ficou 18 dias na UTI, com problemas renais. Hoje o bichinho só tem um rim”.

No percurso de saída do assentamento Monte Celeste, encontros como novas mulheres e crianças aumentam a sensação de que aquelas pessoas estão aprisionadas em um ambiente famélico. Lutam pelo básico: um teto e água para beber. Falam que uma menina de 12 anos foi estuprada em dezembro último em um terreno visível para boa parte dos barracos. “Ninguém fez nada. Só gritaram para o cara parar”, diz Ana Patrícia, 23 anos, dona de uma tatuagem no ombro com o nome dos pais. O desenho foi feito “na cadeia, quando meu marido estava lá”. Foram dois anos e meio de martírio, sob acusação de tráfico de drogas. De fala ininterrupta, quase nervosa e animada com a possibilidade de ser ouvida, ela sentencia: “Nós não temos amanhã”.

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