Relaxe durante o Carnaval; Ignore o trânsito e os homicídios

Vamos todos tomar cachaça, ouvir música ruim e crescer as dívidas e o bucho, por que a vida nunca esteve tão boa

Homem_Daniell-Rezende

Conrado Carlos

Editor de Cultura

A distância do lugar mais profundo nos oceanos, a Fossa Mariana, no Pacífico, à montanha mais alta, o Everest, é de apenas 20 quilômetros – trajeto entre Natal e a praia de Cotovelo. É nessa faixa compacta que tudo acontece para nós, seres humanos.

Como poucos homens conseguem, livremente, sem oxigênio complementar, descer a uma profundidade oceânica maior que 70 metros, e apenas andinos e tibetanos topam morar acima dos quatro mil metros de altitude, somos amassados feito latas de alumínio reciclável.

Para piorar, descontados o Ártico, a Antártida, os desertos e as florestas, sobram meros 4% da superfície terrestre para sete bilhões de pessoas. E adotamos um padrão urbanístico-cultural que apresenta sinais de inviabilidade, no curtíssimo tempo histórico em que foi testado.

As cidades foram desmatadas para cederem espaço ao concreto e aos automóveis. Estes, aliás, a máquina mais mortífera da humanidade, desde a virada do começo do século XX – exceto pelo comunismo, né, companheiro?

No Brasil, o cenário é desolador. Pense nas capitais que você conhece. Qual delas é arborizada, limpa, segura, de fácil locomoção? Nenhuma – nossa ‘urbe modelo’, Curitiba, tem uma taxa de homicídios de América Central, com 55,9 mortes para cada 100 mil habitantes.

Uma imoralidade vergonhosa. O pensamento é o seguinte: “Planta é atraso, carro e moto pra todo mundo, parcelado bem direitinho, e bala na cabeça dos bandidos, que o resto Deus resolve!”. Quem tem dinheiro se isola em um forte apache vertical ou horizontal.

“Quanto mais alto, mais perto de Deus”; “Enquanto aqui embaixo vivemos no Inferno, seu herege”. Já os lascados, se amontoam em ruas, em favelas, loteamentos e assentamentos, verdadeiros gulags tropicais, ignorados pelo Estado.

Só são Pedro e a editoria de polícia para nos lembrar de que eles existem, ao desvelarem tragédias cotidianas pra todos os gostos. Nesse ambiente fértil é que surgem as piores patologias humanas, que logo, logo atingem os ‘civilizados’.

Nada disso é novidade. A coisa foi apodrecendo aos poucos, com a anuência de todos. Até que o PT chegou ao poder em 2003 com a promessa de revolução. E fracassou profundamente. Menos por incompetência para brecar os problemas, mais por aprofundá-los.

Pois, para alimentar o pobre, e sem saber como fazer isso, optou pelo assistencialismo barato. Bolsa-Pra-Que-Te-Quero! Conseguiu piorar a vida da maioria – ou não somos um país de classe média, como é bem dito na propaganda oficial?

Sobram denúncias e reportagens sobre casos e mais casos em que o Bolsa Família, sem a contrapartida sanitária e educacional, passa longe da plena efetividade. No campo, tem gente que recusa trabalho por pura soberba empregatícia de quem ganha um troquinho de Papai-Estado. “Besta é tu!”.

Assim como são inúmeros os apontamentos de que nossa economia não está nada bem – alta do dólar, balança comercial negativa, previsões sempre abaixo do esperado para o PIB, fracos investimentos em infraestrutura, etc.

Deixamos de ser o queridinho do mercado faz tempo, sem o carisma de Lula e a grana estrangeira que correu solta por uns bons anos – Eles comemoram, mas vejo os 41% (nem a metade) de opiniões “boas” ou “ótimas” sobre o governo Dilma como um péssimo sintoma.

Digamos que sua chefe dissesse o mesmo. “Fulano, 41% dos clientes estão satisfeitos com seu trabalho”. Ou sua mulher: “Meu amor, você me satisfaz em 41% das coisas”. Quem sabe a filha: “Pai, você é 41% legal”. Seria carreira para o Rivotril ou não?

A questão vai além: se for verdade que somos um país de classe média, como a presidente está à frente nas pesquisas? A indignação é generalizada. Números manipulados? Falta de um opositor confiável? Ou ainda somos miseráveis em essência?

Estoura o escândalo dos médicos cubanos, situação altamente suspeita, e o que o Governo diz? Que vai negociar para aumentar o valor pago aos profissionais de U$400 para U$1mil, mesmo que o restante, cerca de U$2,3 mil, tenha destino desconhecido.

E por aí vai…

Mas isso é balela para encher página de jornal, não é? O que importa é que sexta-feira que vem começa o furdunço. Vamos todos tomar cachaça, ouvir música ruim e crescer as dívidas e o bucho, por que a vida nunca esteve tão boa. Só os pessimistas não enxergam.

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