Reler “Retrato do Brasil” é exercício para entender fenômeno do Patropi

Clássico da historiografia nacional defende que cobiça e luxúria do colono causaram subdesenvolvimento socioeconômico

Conr6JA

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Imaginemos o seguinte: Flávio Rocha, Eduardo Patrício ou Paulo de Paula são, além de ricos e influentes, três das pessoas mais cultas do Rio Grande do Norte. Viajados, frequentadores da elite carioca, paulistana e nova-iorquina, costumam financiar artistas em começo de carreira e adquirir trabalhos caríssimos dos estabelecidos. Os caras acontecem em várias cidades e várias tribos.

De repente, um deles escreve um livro-panfleto denunciando que a culpa das mazelas socioeconômicas potiguares é da aristocracia, dos iguais, classificados de incompetentes, ignorantes, corruptos, farristas, ávidos pelo ganho fácil e improdutivo. O passado das demais famílias poderosas e tradicionais (Flor, Maia, Alves, Ciarlini, Rosado, por exemplo) é devastado.

O ensaio do empresário, por sinal, muito bem escrito, com forte viés literário e historiográfico, explicaria a razão do subdesenvolvimento do Estado: os tataravôs dessa gente, oriundos de uma nação decadente, feito aquele playboy que se endivida para manter o status, tinham, ao chegarem aqui, a cobiça e a luxúria como únicos objetivos.

Para isso, traçaram escravas e nativas acima de 30 kg, trucidaram negros e índios descontentes com a escravidão, exploraram a terra e as microssociedades sem nenhuma contrapartida. Primeiro a cana-de-açúcar, depois a mineração, a borracha, o café. Nada plantado ou extraído revelava interesse em melhorar a vida dos primitivos.

Pois foi o que fez Paulo Prado em “Retrato do Brasil – Ensaio Sobre a Tristeza Brasileira”, na segunda década do século passado – ele foi o principal articulador da Semana de Arte Moderna de 1922, mecenas de nomes como Anita Malfatti e Di Cavalcanti, sócio da maior empresa exportadora de café do país e presidente do Conselho Nacional da mesma iguaria.

Extensa bibliografia registra sua vida, assim como do tio, Eduardo Prado. Filho do conselheiro Antônio Prado, prefeito de São Paulo por quatro mandatos consecutivos; falante de três línguas; dono de vasta cultura, reforçada por anos em Paris; tocando piano e desenvolto em esgrima; Paulo era um colosso.

De Eça de Queiroz, amigo do tio Eduardo, ouviu: “Menino, tu és uma perfeição humana”. Com vinte e um anos, bonito, inteligente e cheio da grana, chega à capital francesa versado em música e literatura. No começo do século XX, atende ao pedido materno para voltar e cuidar dos negócios familiares – o que faz com extrema habilidade.

Já cinquentão, amigo, discípulo e financiador de Capistrano de Abreu, adquire paixão pela história brasileira, que culminaria na escrita de seus dois únicos livros: “Paulística”, tomo seminal sobre o fenômeno bandeirante, e este “Retrato…”, polêmico ensaio alicerçado em uma trinca maldita, a luxúria, a cobiça e o romantismo europeu, para firmar a tese da tristeza.

O próprio Mário confessava desconhecer quem concordasse com a teoria de Prado, mas enaltecia as virtudes literárias e o apontamento das chagas tupiniquins. No entanto, as resenhas mais interessantes à época, e contidas neste volume, são as de Tristão de Athayde e a de Oswald sob o pseudônimo Tamandaré – que teria motivado o rompimento dos dois.

Produto de uma época de construção nacional, Paulo Prado era capaz de interagir horas com o suprassumo do meio intelectual e sobre negócios com fazendeiros milionários. O período no estrangeiro apurou seu patriotismo, verdadeiro leitmotiv de Retrato. Ainda mais por ser ano eleitoral, deveria fazer parte do regimento interno de câmaras e assembleias Brasil afora.

Compartilhar: