Reluz, Cascata

Tempo é ouro é  clichê de  algum gerente para fazer ser humano trabalhar mais do que permitem relógio e saúde.…

Tempo é ouro é  clichê de  algum gerente para fazer ser humano trabalhar mais do que permitem relógio e saúde. Ouvi demais em redação de jornal e confesso: é um lugar onde cabe a frase cretina, porque eram demais as missões, mínimas as condições a ponto de haver disputa por máquina de escrever com teclado incompleto.

Hoje mudou. É uma lindeza de modernidade. Tecnologia, internet e o chavão ali, vivo, cutucando quem carrega o piano para a chefia tocar. É saber usar um chip automático e invisível que a vida vai colocando em nossas malícias: a engenhoca imaginária cria um dispositivo que desliga os ouvidos a quem conversa demais e vem com bobagem para socializar. O mala pode falar três anos que estará em monólogo.

O tempo no futebol também é uma pedra, agora  não tão preciosa. O tempo é dos trogloditas, dos fortões, dos tenistas  de chuteiras, dando raquetadas com os pés, dos pernas-de-pau produzidos em escala industrial, conforme repete em  sabedoria caiçara meu mestre e amigo médico Robério Seabra de Moura.

Já não há espaço nem tempo aos craques. Os  eternos meninos que brincam de jogar bola. Que revivem as peladas em campinhos de terra batida ou em duros calçamentos de rua. A molecagem deliciosa do drible, do balançar debochado diante do desprovido de qualidade.

Hoje é preciso marcar e marcar e marcar sem vergonha de ser covarde, atentado brutal à canção de Gonzaguinha, que embalou farras homéricas no coro e nos berros de que a vida é bonita e é bonita. Por isso, sempre,  cantar e cantar e cantar sem vergonha de ser feliz, que é muito melhor.

Admito minha triunfal vindita ao escrever depois de assistir os minutos em que o meia-atacante(antigo ponta-de-lança) Cascata jogou contra o Ex-Vasco na abertura do Campeonato Carioca de 2014.  O Cascata, remanescente  dos malandros de requebro e fantasia dos campos do Rio Grande do Norte.

Cascata foi o  último ídolo do ABC e também jogou muita, muita bola pelo América e, claro, já não se movimenta com a eletricidade  juvenil, afinal está para completar 32 anos em junho próximo. Cascata foi mandado embora do ABC e também não renovou com o América.

Nem ABC nem América dispõem de alguém semelhante ao  brilho individual do baiano de toques sensuais e presença inconfundível de um armador, dono de meia-cancha. No futebol atual, dane-se a lição do maior dos organizadores  de todos os tempos, Didi, o Míster Futebol ,bicampeão mundial pela seleção brasileira em 1958 e 1962.

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Didi ensinou, em sua postura etíope e imperial, ao ser contestado por um técnico cujo anonimato é mais do que justo, que o queria correndo atrás dos adversários, suando a camisa de tecido grosso e sufocante  do Botafogo. Hoje é qualquer engomadinho metido a vedete usando uniforme perfeitamente adaptado ao clima e à sua limitação terrível de cabeça-de-bagre.

O tal técnico reclamou de Didi, criticou a sua lentidão, na lógica a serenidade que dava ao jogo o charme de um desfile de catedráticos e lhe fez o pedido, firmemente respondido: “Quem corre no campo é a bola e se eu sou capaz de fazê-la correr num lançamento de 40 metros que acaba em gol, pra que  é que eu vou correr e cansar?”.

O treinador durou um mês e meio no cargo. Didi seguiu enfiando bolas enfeitiçadas para Garrincha. Os dois mais Nilton Santos, Quarentinha e Amarildo garantiram inúmeros bichos para titulares e reservas de um Botafogo mágico, capaz de contracenar com o Santos de Pelé, Pagão depois Coutinho, Jair Rosa Pinto depois Mengávio, Dorval e Pepe.

Esperei Cascata entre os titulares do Boavista. E com a 10, entregue a um canhoto de certa intimidade com a bola, Jéfferson. Logo vi quem escalava o time: o técnico é o ex-supervisor da CBF, Américo Faria, do naipe de Zagallo e Sebastião Lazaroni, personagem de episódios como o corte vingativo de Romário em  1998. Américo Faria tem bigode de vilão de filme da Metro.

O jogo, óbvio, ficou parecido com qualquer outro. Identificava-se os times pelas camisas. O padrão de Ex- Vasco x Boavista  sem Cascata jogando foi igual a um jogo em Macapá ou Pau dos Ferros. Sem talento, só correria e chutões.

Américo Faria botou  Cascata quando o Ex-Vasco vencia por 1×0, sabe-se lá por qual piedade da sorte. Cascata entrou e seguiu na preguiça aparente da sua passada lenta que engana quando vem o corte seco, o olhar fatal e o chute certeiro, no canto, gol de empate(1×1) que fez valer o ingresso de quem se dignou a estar em São Januário.

Reluz, Cascata. Em cinco, dez, quinze minutos, sua presença vale por semanas de obtusos cumprindo ordens de retranqueiros. Reluz, Cascata, no balanço afro de uma brisa de praia impondo  ao futebol o sopro dourado da categoria.

 

Um banho de bola
O América deu show. De toque de bola. No primeiro tempo, poderia ter enfiado cinco ou seis no Vitória em Salvador. O 3×0 é animador, especialmente pela presença de Rafinha no meio-campo, hábil, e de Alfredo, que foi desconcertante nas duas finalizações.

Copa consagrada
A Copa do Nordeste levou muita gente aos estádios. Força da rivalidade regional. Em Salvador, a torcida do Vitória compareceu e assistiu a uma aula de futebol comandada pelo América, técnica e personalidade movendo o time. O América parecia passear, brincar, bater uma gostosa pelada.

ABC x Globo
A torcida do ABC protestou pelo quarto empate em 1×1 do time no início do ano. O discurso da formação do time começa a descolar. O ABC montou um elenco fraco.

Memória
Até enfiar 4×1 pela Série B do ano passado, o ABC era freguês do ASA(AL), com quem empatou em casa(0×0) há 33 anos pela Taça de Prata, a Série B em 1981. Público de 3.857 pagantes no Estádio Castelão(Machadão).

Times
ABC: Carlos Augusto; Sílvio, Ticão, Cláudio Oliveira e Joel; Paulinho, Noé Macunaíma e Zezinho Pelé; Juarez(Da Silva), Jonas e Babá(Nilsinho). ASA: Jurandir; Pedrinho, Eliberto, Paulo Roberto(Canhoto) e Cabral; Odair, Beliso e Djalma; Gilmar, Freitas e Marcos. Sílvio do ABC depois se tornou um dos mais completos craques de futebol de salão de Natal, pelo América.

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