Repórter escreve texto com severas críticas a Pelé e atinge milhões de pessoas

A publicação atingiu milhões de pessoas pela reprodução em blogs, jornais e nas redes sociais

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O repórter Cosme Rípoli, vencedor do prêmio Aceesp por seis vezes, publicou, em seu blog no R7, um texto com críticas contundentes ao ex-jogador e personalidade pública Pelé.

A publicação atingiu milhões de pessoas pela reprodução em blogs, jornais e nas redes sociais. Qual é a sua opinião a respeito do texto? 

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

Choramos com Pelé na conquista da Copa de 1958.

Ainda é incontrolável segurar as lágrimas vendo o garoto de 17 anos.

Seu coração parecia que iria saltar da boca com a conquista.

Choramos com Pelé o motivo de tanta alegria.

Em 1950, seu pai Dondinho acompanhou a final da Copa do Mundo.

Pelo rádio, em Bauru, interior de São Paulo.

Longe, muito longe do Maracanã.

Estava com amigos, tinha enchido a casa para festejar.

Mas Pelé, com oito anos estranhou o silêncio após o jogo.

Se assustou ao ver o pai chorando muito.

Era a primeira vez que via lágrimas escorrendo por seu rosto.

Soube que o motivo era a derrota do Brasil para o Uruguai.

Pelé fez um juramento a ele.

Disse para parar de chorar que conquistaria uma Copa para ele.

Ganhou três.

Na primeira chorou nos peitos de Didi e Gilmar.

Sabia que sua carreira mudaria por tudo o que fez em campo.

Além de ter pago a promessa a Dondinho.

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

Sua vida é repleta de conquistas que soubemos aplaudir.

Continuamos chorando suas dores.

No dia 24 de outubro de 1992.

Seu filho Edinho participava de um racha.

E o amigo Marcílio José Marinho de Mello.

Em plena avenida Epitácio Pessoa, em Santos.

Infelizmente, o Apollo de Marcílio estava em altíssima velocidade.

Queria passar a Saveiro de Edinho.

Foi quando se chocou com uma moto.

Nela, o aposentado Pedro Simões Neto.

Ele teve morte instantânea.

Edinho foi preso e foi condenado.

Seis anos de prisão em regime semi-aberto.

Pelé chorou muito.

Nos debulhamos em lágrimas por ele.

Depois Edinho conseguiu reverter a sentença.

Foi inocentado.

A família de Pedro o processou.

E só em janeiro deste ano, saiu o acordo.

Edinho pagará uma pensão vitalícia à viúva do aposentado.

Choraríamos por Pelé em 16 de novembro de 1996.

Quando ele perdeu seu querido pai, Dondinho.

Faleceu aos 79 anos de insuficiência cardíaca.

Edinho seria motivo de lágrimas outra vez.

Em 2005 já era um ex-jogador.

Foi um goleiro fraco que defendeu o Santos graças à aura do pai.

Parou de jogar aos 28 anos graças a uma lesão no joelho.

Tentou ser corredor de motocross, não conseguiu.

Falhou ao tentar comandar uma das empresas do pai.

Faltava tino aos negócios.

Estava para começar a administrar a carreira de alguns jogadores santistas.

Tinha até uma reunião marcada com o ex-presidente Marcelo Teixeira.

Não apareceu.

O motivo: tinha sido preso, envolvido com tráfico de drogas.

O Denarc interceptou conversas telefônicas dele com Naldinho.

E nelas, Edinho, mostrava como lavar o dinheiro.

Os diálogos divulgados pela polícia eram chocantes.

Pelé ficou desesperado, chorou demais.

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

E nós, outra vez, choramos por ele.

Seu filho ficou preso dez meses na cidade paulista de Tremenbé.

Trabalhava na cadeia lavando roupas.

Pelé o visitou apenas duas vezes nesses trezentos dias.

No dia 11 de setembro de 2008, a sorte acabou com o caso.

O processo foi anulado por um erro do juiz da Praia Grande.

Ele não permitiu que os 11 acusados apresentassem defesa prévia.

O Superior Tribunal de Justiça mandou anular a acusação.

Edinho não estava mais envolvido em formação de quadrilha e tráfico.

“Estou feliz porque foi uma decisão favorável.

Mas tenho consciência de que não foi uma absolvição.”

As palavras são do próprio Edinho.

Pelé se debulhou em lágrimas de alegria.

Choramos com ele.

O melhor jogador do mundo não pode reclamar de falta de solidariedade.

As lágrimas dos brasileiros vieram nas suas três despedidas.

Pelo Santos na Vila Belmiro.

Pela Seleção, no Maracanã.

E até na tela da televisão, quando parou no Cosmos, nos Estados Unidos.

No ano passado, quando recebeu a justa homenagem da Fifa.

Ganhando a justíssima Bola de Ouro por sua carreira.

Choramos com ele novamente.

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

Mas por parte de Pelé, suas lágrimas não vieram…

Faltaram momentos importantíssimos da vida brasileira.

Que era necessária o posicionamento do melhor atleta de todos os tempos.

Ele se omitiu diante de uma população que o cultua há 66 anos.

Foram várias e várias ocasiões.

Não veio uma lágrima sentida diante do nojento racismo.

Não houve sequer o seu posicionamento.

Vários jogadores e até árbitros foram humilhados.

Comparados a macacos.

E da sua boca, só o silêncio.

Nem diante da opressora e assassina Ditadura Militar.

Não se revoltou.

Pelo contrário.

Levou sorrindo a taça ao general Médici em Brasília.

O Brasil acompanhou estarrecido sua relação com Sandra Regina.

Filha de um relacionamento com uma empregada.

E que teve o reconhecimento graças a exame obrigatório de DNA.

Mesmo assim, Pelé recorreu da sentença por 13 vezes.

Sandra mostrou que o relacionamento entre eles nunca existiu.

A situação ficou dramática quando teve câncer na mama.

E, religiosa, não quis seguir o tratamento de quimioterapia.

No leito de morte esperava pela visita reconciliadora do pai.

E os órgãos de imprensa também.

Mas ela não veio.

Sandra morreu.

No velório, chegaram flores da empresa de Pelé.

A família recusou.

Ninguém viu o pai de Sandra chorando.

Assim como também não derramou lágrimas por Octávio e Gabriel.

Seus netos.

Pelé só os viu uma vez por acaso, em Curitiba.

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

A falta total relacionamento era chocante.

Fez com que os dois pedissem autógrafos a ele nesse encontro.

Que netos pedem autógrafo ao avô?

Não moveu um dedo para ajudá-los na tentativa de virarem jogadores.

Nem quando soube que estavam em escolas públicas e passavam dificuldades.

Ele não chorou pelos órfãos.

E só passou a ajudá-los financeiramente porque a Justiça manda.

Foi processado pelo genro.

Lógico que também Pelé não chorou no dia 14 de março passado.

Morreu Anísia Machado, de câncer no estômago.

Ela era a empregada com quem teve um romance em 1963.

A mãe de Sandra…

Outra vez não houve visitas.

Parentes juram que nem flores dele chegaram.

Essa falta de sensibilidade com o alheio virou marca registrada.

E ela viria à tona ontem outra vez.

Estava aproveitando o lado comercial da Copa novamente.

Pelé já tem garantido o faturamento de R$ 58 milhões com propagandas no Mundial.

É contratado da P&G, Volkswagen, Emirates, Subway e Coca-Cola.

Pelé não vai chorar por apenas um operário a mais morto no Itaquerão. Nem por sua mãe, desesperada de saudade, abraçada a uma panela. O Brasil ainda não aprendeu. Suas lágrimas são seletivas, egoístas. Só escorrem por Edson Arantes do Nascimento…

Até agora.

A revista americana People With Money aponta.

A Copa do Mundo é um excepcional negócio para ele.

Ganhou cerca de 82 milhões de dólares, cerca de R$ 180 milhões.

Só entre março de 2013 e março de 2014…

Sua fortuna bateria nos US$ 245 milhões.

Cerca de R$ 539 milhões.

Mesmo assim busca novos contratos.

Não é de surpreender que seja tão a favor da Copa.

Quando ele pediu para as manifestações fossem esquecidas.

E pediu apoio total à Seleção.

Como também quando ele pediu.

Quer que o turismo ‘recompense’ o que foi roubado nos estádios.

Ou seja, ele sabe e assume que houve superfaturamento, roubo.

Enquanto a Copa não vem, vai acumulando contratos.

Como o dos diamantes que foram lançados ontem.

São 1.283, um para cada gol que marcou.

Para garantir a presença da imprensa, o velho truque.

Uma rápida coletiva.

E novamente, a decepção.

Perguntado sobre a terceira morte de operário no Itaquerão, foi rápido.

“Isso é normal, são coisas da vida.

Foi um acidente, coisa normal, nada que assuste.”

Em seguida, emendou.

“Mas a maneira como está sendo administrado o aeroporto e o turista no Brasil é o que mais está me preocupando. É uma pena, pois deveríamos aproveitar a Copa para fazer campanha de turismo, mostrar nossa boa organização. Acabei de voltar de uma viagem e o aeroporto estava o caos, isso faltando dois meses para a Copa! Essa é a minha preocupação: que a gente estrague essa oportunidade.”

O constrangimento de alguns jornalistas na coletiva foi enorme.

Mas havia outros que rapidamente desviaram o foco.

Pelé deveria falar, olhar nos olhos de Sueli Santos.

Repetir que o acidente foi ‘coisa normal, nada que assuste’.

Explicar para mãe de Fabio Hamilton da Cruz que a vida é assim mesmo.

Justo ela.

Que, de tanta dor, não consegue entrar no quarto do filho morto.

Deixa as roupas dele espalhadas pelo chão, esperando que ele volte.

E as coloque no lugar.

Mesmo sabendo que isso nunca acontecerá.

Ele está enterrado no Cemitério Municipal de Diadema.

Talvez nem adiantasse Sueli jurar a Pelé o que repete a todos.

Fabio teve apenas curso teórico.

Não tinha preparo para estar a oito metros de altura no Itaquerão.

E que por isso caiu e morreu aos 23 anos.

Esse assunto não interessaria ao melhor jogador de todos os tempos.

Nem a chocante cena de uma mãe que acaricia uma panela para fazer arroz.

Por ser o presente que ganhou do primeiro salário do filho trabalhando no estádio.

Uma demonstração que estava subindo na vida.

Antes, ele trabalhava vendendo doces nos faróis.

Mal sabia ao que seria exposto.

Talvez nem assim o homem de 73 anos chorasse…

Infelizmente desde 1958 é assim.

O Brasil se derrama em prantos por tudo que envolve Edson Arantes do Nascimento.

Ele não derrama uma lágrima pelos problemas do país.

Ou por situações que não lhe pertencem

Não há lógica chorar, nem ao menos lamentar pela morte de um operário de 23 anos.

Se oito morreram nas arenas brasileira, ‘é coisa normal da vida’.

Não vai chorar por Fábio ou por sua mãe abraçada a um panela.

Não quer nem parar para pensar na terrível situação.

Não lhe pertence.

O Brasil ainda não aprendeu.

Suas lágrimas são seletivas, econômicas, egoístas.

Escorrem apenas por Edson Arantes do Nascimento…

 

Fonte: Folha Política

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