Retrato perfeito – Vicente Serejo

Nunca, Senhor Redator, fomos tão sinceros e assumimos, tão publicamente, a nossa própria crueldade e falta de grandeza humana. Fizemos…

Nunca, Senhor Redator, fomos tão sinceros e assumimos, tão publicamente, a nossa própria crueldade e falta de grandeza humana. Fizemos vários empréstimos milionários, cavamos túneis, construímos viadutos e estiramos avenidas, tudo diante da orfandade do Hospital Varela Santiago a vender camisetas. Pra que? Pra juntar dinheiro, moeda a moeda, e comprar um tomógrafo na luta para diagnosticar mais cedo o câncer nas crianças pobres e, assim, quem sabe, salvá-las da morte precoce.

Primeiro não merecemos estadistas, mas é compreensível não tê-los, afinal são raros na vida de um povo. Depois, perdemos os nossos poucos líderes, aqueles iluminados pela chama do espírito público. Nos últimos anos nem aqueles mais comuns, embora feitos de boa vontade, que pediam os nossos votos e ainda se envergonhavam se por acaso não pudessem honrá-los. Hoje, nossa pobreza nos levou à miséria política que proibiu nossos sonhos e derrotou até a nossa capacidade de sonhar.

Talvez ainda tenhamos os melhores experts em grifes, relógios, vinhos e espumantes, nesse novo estilo de exercer a vida pública e que é, escancaradamente, um soco na razão crítica que um dia iluminou o mundo. Hoje, nossos governantes, senadores, deputados federais, estaduais, prefeitos e vereadores compram, com níquel ou a moeda dos favores, os votos dos seus mandatos e se sentem livres de compromissos. Montam sobre o povo como se fossem os jóqueis de numa corrida social.

Ficou tão frio nosso mundo político e tão descarada a vida pública que eles, os falsos líderes, esquecem até das boas lições do populismo. Ou melhor: nem lembram comprar uma camiseta e usá-la em algum lugar público, vestindo o rosto com um sorriso qualquer, ainda que não seja solidário. Já não carregam com eles a ira santa que nos ensinaram os deuses, e nem aquela indignação humana que noutros tempos incendiavam o espírito de um líder todas as vezes que vilipendiavam seu povo.

Nada, Senhor Redator, acende o remorso dos nossos líderes e de nossas falsas elites. Não há mais um Varela Santiago, o benemérito, patrono do hospital das crianças pobres, para fazer o bem sem pedir o voto. É exatamente o hospital que hoje tem seu nome que vende camiseta, aqui e ali, uma a uma, como quem junta moedas num mealheiro para, um dia, comprar um tomógrafo. É que não sobra da dinheirama nada que possa, em nome da grandeza humana, salvar crianças muito pobres.

E olhe Senhor Redator: essa miséria toda – humana e material – não suportaria uma pequena soma de três parcelas: R$ 1,2 bilhão da Arena das Dunas; R$ 1,4 bilhão ($ 700 milhões de dólares do Banco Mundial) e o novo pedido de empréstimo de R$ 850 milhões de reais, já na Assembléia. Temos ai R$ 3,5 bilhões de reais, isto ao longo de quatro anos. Enquanto o Varela Santiago vende camisetas para comprar um tomógrafo, ninguém sabe quando, e salvar a vida das crianças pobres…

PDT – I

Rendeu pouco como resistência contra a guerra pelo voto no interior a reunião do PMDB-PDT, mas a presença de Henrique, acima de Garibaldi Filho, João Maia e Wilma de Faria, foi sua maior garantia.

TUCAGEM – II

Uma coisa o candidato Henrique Alves já sabe: não será possível uma relação de confiança do PDT com o PSDB. E sabe a razão. O prefeito Carlos Eduardo Alves não aceita conviver com tucanagens.

PREÇO – III

O PDT, como adiantou esta coluna há dias, paga o preço de ter negado o passado de independência que foi capaz de construir. Hoje é dependente do próprio fisiologismo amealhando votos no acordão.

MOEDA – IV

O tempo de tevê do PSDB e PSB foram as moedas fortes do novo negócio político. Tempo que aqui as duas siglas negociaram por cima até do interesse das suas candidaturas à presidência da república.

RETRATO – V

Nada se retrata aqui com maior orfandade do que as candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos no RN. A verdadeira e única recepção a Campos em sua visita foi uma iniciativa do deputado Tomba.

ALIÁS – VI

Enquanto Eduardo Campos luta por um modelo de governança para o Brasil longe do fisiologismo, as prioridades do seu partido aqui no RN é a eleição de duas mães e suas filhas em Natal e Mossoró.

SÉCULO

Este julho de 2014, em plena Copa do Mundo em Natal, marca os cem anos de nascimento de João Cláudio de Vasconcelos Machado. Quando o seu nome desapareceu com a demolição do Machadão.

PROFISSÃO

Existe o profissional de eleição? Existe. Tanto existe que é tema de seminário promovido pela UFRN dia 30, sexta-feira próxima, com inscrições gratuitas. Tudo sobre campanhas e estratégias eleitorais.

ACADEMIA

O advogado e professor Carlos Gomes é o candidato a ocupar a vaga de Pery Lamartine na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. É um nome que só honra a Academia e a todos os seus integrantes.

NATAL

Sexta, 31, na Capitania das Artes, lançamento da nova edição da foto-história de Natal do arquiteto João Maurício de Miranda. É a maior e mais completa pesquisa sobre a evolução urbana da cidade.

REVISTA

A Continente de maio é sobre a arquitetura do Recife e a resenha de Raimundo Carrero elogia ‘O Livro de Corintha’, romance de Fernando Monteiro que recebeu o Prêmio Pernambuco de Literatura.

REFÉNS

Humor negro, destilado por um velho prócer que já não pisa o carpete de gabinetes há anos: ‘Somos, com o Maranhão de José Sarney, os dois estados ainda prisioneiros ao coronelato e das oligarquias’.

POESIA

O professor Ítalo Suassuna enviando, do Rio, aos amigos, o seu ensaio ‘João Cabral de Melo Neto – o outro fio da faca’, editora ZMF. Um olhar sobre ‘a racionalidade, a semente, o amanho e o fruto’.

MUNDO

O Cosacnaify lança no Brasil a tradução do romance ‘A Origem do Mundo’, de Jorge Edwards, hoje considerado por alguns críticos como uma pequena obra-prima. Traduzido por José Rubens Siqueira.

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