Réveillon

Até as repetições frugais são charmosas no biquinho pronunciado em francês. A vidada de um ano ao outro significa despertar…

Até as repetições frugais são charmosas no biquinho pronunciado em francês. A vidada de um ano ao outro significa despertar no idioma de Montesquieu, personagem recitado pelos intelectuais em encontros regados a vinhos, queijos, performances e campeonatos de erudição.

Montesquieu é menos importante para mim na história francesa do que os craques Platini e Zidane. O que eles faziam, eu, na minha limitação cerebral e culta, entendia e festejava pela suavidade dos seus passos em campo. Para mim, eles significavam filosofia e poesia numa partida de futebol. Deixo Montesquieu para os sábios.

Então o Réveillon – também soube por consultas a salvações digitais – deriva do verbo réveiller, o despertar e também é nome de uma comunidade de Ome na região da baixa Normandia, ponto crucial para a definição da Segunda Guerra.

Quando se fala em Normandia eu sei um pouquinho, de ler e ver documentários. Foi lá, pelas águas do Rio Ome, que parte das tropas aliadas surpreendeu os alemães de cuecas samba-canção no Dia D permitindo a vitória da humanidade sobre a tirania.

Foi um Réveillon com inimigo-secreto. Os presentes, rajadas de morteiros, canhões, metralhadores e as águas banhadas de um sangue chocante. A imagem que guardo é a do General Patton, esquecido herói tático do Teatro de Operações. O norte-americano e rebelde Patton fez o trabalho pesado e ao inglês Montgomery sobraram condecorações e a fama.

Os nazistas engoliram champanhes de chumbo quente no couro. Foram eles que começaram a briga e quem provoca briga não pode reclamar quando perde. Tomaram uma surra e o branco que empresta o ar cândido da pureza e do desarmamento de espírito, pinta as covas dos mortos em batalha.

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O espírito do Réveillon está de volta amanhã até depois de meia noite com os desejos habituais de êxito, saúde, paz e prosperidade em 2014, claro, com a vitória do Brasil na Copa do Mundo, da Mangueira no carnaval do Rio de Janeiro, do candidato de cada um nas eleições e de novos personagens do BBB e do The Voice, as recentes atrações globais das quais me dispenso.

Tenho um conhecido insuportável. Há temos que não o vejo porque geralmente empatamos quando exageramos na bebida. Ficamos intragáveis, ele me provocando e eu enchendo o saco dele. Não saiu tapa por bem pouco. Nos unimos para gozar a cara dos outros bêbados. Certa vez, foi ameaçado de expulsão. Misturou uísque, cerveja e vodca e nem chegou a concluir seu tosco discurso:

- Vocês dizem as mesmas merdas todo fim de ano e na próxima eu vou gravar. Aí eu solto o som e vocês ficam só ouvindo e lembrando das brigas que ficam tendo durante 11 meses para fazer palhaçada no réveillon.

É capaz de O Figura, batizado por mim com a concordância de todos, continue por aí, enchendo a paciência da humanidade. Em festas à beira-mar, em hotéis onde entra de penetra ou em casa de político, nas quais circula sem ser convidado. Cuidado com O Figura. É mal sinal vê-lo ao explodir dos foguetões.

Há tempos que passo o Réveillon com a família ou, em exceções de amolecimento do coração, saio para jantar com dois, três casais de amigos. Muito mais por tédio e precaução. O meu maior desejo em 2014 é segurança. É um sonho. O Réveillon é assim. Desfilar devaneios por algumas horas e acordar ressacado da vida despertando sem diferença alguma.

 

Curtir
O importante é cada um curtir a passagem do ano do jeito que achar conveniente. Dançando, pulando, cantando, contando vantagens, ajudando aos outros, lendo, vendo TV, dormindo. O direito individual é sagrado. Só não pode é se atravessar na vida alheia.

Gerente
O nome, nem sob tortura eu conto. O cara é gerente de banco é não é do Banco do Brasil, onde tenho conta. É da rede privada. É um cara legal, atencioso, prestativo, compreensivo, é um gerente afinal, psicólogo sem diploma.

Ansioso
Aguarda, ansiosamente, as caras e bocas desesperadas para cobrir cheques e cartões de crédito na reabertura do expediente. E não é uma plateia pobre, não. É tudo festeiro e integrante de voo sabonete (cheiroso e limpo, como diz o jornalista Cassiano Arruda).

Régis
Enfim, com ele ficando no América, a bola terá um companheiro, quase amante.
 
Amadorismo tragicômico
O Palmeira de Goianinha demitiu o técnico, 14 jogadores e a comissão inteira, às vésperas do Campeonato Estadual. O treinador do Corintians de Caicó, pediu para sair, alegando falta de condição de trabalho. O Alecrim, como Santelmo, o crédulo personagem de Chico Anysio, segue nas mãos ausentes do inglês presidente.

Direito de perguntar
É perguntar, que é função do repórter, mesmo que alguns se ofendam sem razão: Fora ABC e América, os dois de Mossoró, o Globo com o seu patrono rico, quem é que pode ser chamado de profissional no futebol do Rio Grande do Norte? Já vi Matutão bem mais organizado.

Sem acesso
A partir de quinta-feira, só assiste treino do ABC, sócio e conselheiro com mensalidade em dia. A massa fica fora. Vai ser difícil de aceitar, mas há o que se analisar na medida.
 
Treino é trabalho
Por convicção pessoal e já ter trabalhado no ramo, treino não é lugar pra torcedor. Treino é preparação. Não se paga ingresso para ensaio de Roberto Carlos, mas para show de Roberto Carlos. Mesmo assim, discordo quando se abre exceções. Se é pra fechar, que se feche para todos.

Sem entender
Também não deu para entender, por exemplo, o ABC ter renovado com um jogador tipo Michael Smoller. Veio e passou despercebido na Série B. Seria melhor que jovens jogadores fossem aproveitados. É quase a sentença de incompetência das categorias de base.
 
Contrato
Rejeição alta, o Governo do PT do Distrito Federal agora é acusado de contratar, sem licitação, um órgão ligado a ONU dentro do contrato para as obras do Estádio Mané Garrincha. Custo maior que o de seis sedes da Copa.
 
Meu palpite para a Copa
O sonhado: Brasil x Argentina. O provável: Holanda x Alemanha ou Argentina ou Espanha. Mas prevalecerá o improvável mistério da bola.

Para 2014
Passe Livre reflete, agradece aos leitores e espera ampliar a relação sincera e aberta.

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