Revolta marca velório do estudante Erick Bruno, morto a tiros dentro da escola

Um amigo dele estava com uma arma dentro da escola quando ela disparou acidentalmente

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Diego Hervani

diegohervani@gmail.com

Revolta e comoção marcaram o velório do jovem Erick Bruno Pontes, de apenas 16 anos, que aconteceu na manhã desta quinta-feira (23). Ele foi morto nessa quarta-feira (22) vítima de um disparo de arma de fogo dentro da instituição onde estudava, a Escola Estadual Raimundo Soares, que fica no bairro de Cidade da Esperança, Zona Oeste de Natal. Segundo as primeiras informações, um amigo de Erick estava com uma arma dentro da escola quando ela disparou acidentalmente.

A mãe do garoto, Cristiana Maria, não conseguia se conformar em perder o filho dessa forma e lembrou do sonho que Erick tinha desde pequeno. “O meu filho tinha o sonho de ser marinheiro e agora tiraram esse sonho dele. Nós jamais iremos nos esquecer dele. Ele sempre foi um menino muito bom para mim e para todas as pessoas com quem ele convivia”, lamentou. A mãe de criação, Francenilda Bezerra Barbosa, com quem o menino conviveu desde os seis meses, recordou que Erick sempre foi atencioso com a família e nunca trouxe nenhum tipo de preocupação.

“O Erick sempre nos avisava para onde ele ia, com que ele estava saindo, de que horas iria chegar. Nunca me deu trabalho. Era um menino muito bom. Tirava boas notas na escola, nunca se envolveu em nenhuma confusão. Não sei direito o que aconteceu e sinceramente não quero saber, a única coisa que eu sei é que eu perdi meu filho e ele não vai mais voltar para mim”. Questionada se espera pela prisão da pessoa que matou seu filho, Francenilda conta que isso não importa mais para ela.

“Eu não vou falar que eu quero justiça, pois eu sei que a justiça não vai acontecer. Dificilmente vão prender a pessoa que fez isso com meu filho. Agora eu só peço a Deus que me conforte nesse momento, pois está sendo muito complicado para toda a família e sei que cada dia que passar ele vai nos fazer ainda mais falta e nós iremos sofrer ainda mais com o passar do tempo, mas temos que tentar seguir em frente”.

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Amigos de Erick não conseguiram segurar a emoção ao falar da morte do menino. “Eu conheci o Erick esse ano e nós estudávamos na mesma sala. Tínhamos uma amizade muito boa. Ele era um cara do bem, que sempre procurava ajudar as outras pessoas. Vai fazer muita falta”, frisou um garoto que preferiu não ter o nome divulgado.

Apesar de confirmar que a vítima era uma pessoa “do bem”, o diretor da escola, Bruno Lima, afirmou que Erick, assim como outros amigos que se envolveram no ocorrido, já vinham apresentando problemas disciplinares. “O grupo que o Erick andava já vinha causando problemas na escola. Eles vinham promovendo pichações e já tinham sido suspensos. Comunicamos o ocorrido para os pais, mas essa situação vinha se repetindo. Apesar disso, o Erick era uma pessoa do bem e vai fazer muita falta no nosso meio”. Em homenagem ao aluno morto, o diretor decretou luto oficial na escola por dois dias.

O crime aconteceu nesta quarta-feira, durante o intervalo das aulas. De acordo com Bruno Lima, informações de outros alunos que presenciaram a cena dão conta de que Erick e o grupo dele foram para o estacionamento da escola e um dos garotos estava armado. “Esse garoto ficou mostrando a arma e o Erick ficou desafiando, falando que ele não tinha coragem de atirar nele e que a arma era de brinquedo. Os dois ficaram falando isso durante um tempo, até que o menino encostou a arma no peito do Erick e infelizmente a arma disparou”. Erick foi socorrido e encaminhado para o Hospital Walfredo Gurgel, onde ainda chegou a ser atendido, porém, a hemorragia interna foi muito grande e o jovem acabou falecendo. O enterro de Erick acontecerá às 16h. Até o fechamento desta edição o local ainda estava sendo definido.

O jovem suspeito de ter efetuado o disparo, que também teria 16 anos, está desaparecido. Segundo informações da polícia, existe a possibilidade dele ter fugido para Recife com a mãe, que também não está sendo encontrada. Ainda segundo a polícia, na terça-feira (21), Erick e os amigos foram vistos em uma praça em frente a escola já de posse da arma. A possibilidade de um adulto ter entregado a arma para os adolescentes também está sendo investigada. O caso será de responsabilidade da Delegacia Especializada de Atendimento ao Adolescente Infrator (DEA).

A Secretaria Estadual de Educação soltou uma nota sobre o ocorrido, que ela classificou como uma “fatalidade”. “A SEEC se solidariza com os familiares e a comunidade escolar, lamentando o que considera ser uma fatalidade, vez que os estudantes eram amigos, não tinham histórico de envolvimento com gangues, torcidas organizadas ou drogas e, segundo todos os relatos, estariam brincando com a arma”.

Segurança na Escola

Com a tragédia, Bruno Lima criticou a falta de segurança das escolas. “Antigamente nós tínhamos o Guarda Patrimonial, que ficava na escola, mas esses guardas foram tirados e hoje temos apenas os porteiros para fazer essa segurança, porém, eles não podem fazer muita coisa. Não tem como eles adivinharem que um aluno está entrando com uma arma na escola”.

O diretor conta que agora irá se reunir com a Secretaria de Educação para pedir providências para evitar que novos casos como esse venham a acontecer. “Já tivemos outros casos de alunos entrando com arma na escola, mas nunca chegou a acontecer uma tragédia como essa. Acredito que o ideal é ter um segurança com detector de metais. É a única maneira de evitarmos que alunos entrem armados”.

A SEEC informou que tem um Núcleo de Educação para a Paz nas Escolas, responsável pelas ações de prevenção às violências nas unidades escolares, em conjunto com o PROERD, a Ronda Escolar e o programa RN Vida, que tem auxiliado gestores e professores de todo o Estado, principalmente nas áreas de risco, a lidar e prevenir situações de violência. Uma dessas Rondas Escolares estava na Escola Estadual Raimundo Soares pouco tempo antes da morte de Erick quando recebeu o chamado de uma escola vizinha. Nesse meio tempo em que se deslocaram para a outra unidade, os policiais acabaram por não presenciar o fato.

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