Ruins e pronto – Rubens Lemos

Minha saúde debilitada e a irritabilidade aflorada o leitor tem todo o direito de desprezar e o que é pessoal…

Minha saúde debilitada e a irritabilidade aflorada o leitor tem todo o direito de desprezar e o que é pessoal é pessoal. Mas dos seus extratos, é capaz de sobrar tema para o debate. Ao encontrar retardatários da última bola enfiada na rede de Júlio César, na longínqua terça-feira, reafirmo, injuriado: o brasileiro é um prepotente. O brasileiro precisa aprender a perder, primeiro do que a voltar a ganhar.

- O que é que houve com o Brasil, Rubinho? -, ouvi de uns 10 torcedores em seu passionalismo pacheco. Antes que minha pressão arterial voltasse a disparar e a minha cabeça imitasse o Afeganistão em combate, decidi adotar a tática pessoal dos monossílabos nas respostas. “É”, “é assim mesmo”, “complicado”, “desastre” e “vexame”, expressões que preencheram meu vocabulário de desabafo e escapatória.

O brasileiro é, em geral, sadomasoquista do futebol. Gosta de rever e sentir de novo as dores crueis de uma partida comum, em que uma seleção de primeiro nível goleou outra em subdesenvolvimento contínuo. A Alemanha jogou contra o Brasil como se estivesse enfrentando Trinidad e Tobago, Ilhas Faroe ou Zimbábue. As três, equivalentes ao padrão CBF.

Reagi aos fervores para dizer simplesmente o óbvio pelo mais explosivo – estava saindo de uma quase pane cerebral causada pelo estresse -, dentre os insurgentes da República Melindrosa dos Otários Iludidos. RMOI. Ou Remói na prenúncia.

O Brasil levou de 7×1 da Alemanha porque tem o seu pior time em todos os tempos. Inclua-se o período anterior à invenção da natureza e da humanidade. E porque, à exceção de Neymar e do zagueiro-meio-campista-atacante-líder-boa praça David Luiz, os outros, sem exceção, são ruins de fazer quebrar disco antigo de Francisco Petrônio, dos campeões da fossa musical. Da dor de cotovelo combatida a conhaque com limão murcho. Tenho orgulho de jamais ter traído minha convicção sobre essa turma.

Nunca jogariam uma Copa do Mundo se houvesse safra mínima para concorrer com eles. São os piores dentre todos os péssimos gerados pela ira destruidora da flor de nosso esporte de fascínio e glória, drible e lirismo. São refugos, excrescências em chuteiras, ídolos chinfrins fabricados pela mídia e milionários lotéricos da sorte de cartolagem suja.

O Brasil não perdeu por uma fatalidade em 2014. Perdeu por ruindade e que fique claro aos insistentes em saber o que aconteceu em Belo Horizonte. Nada de apagão. Desligado esse time estava desde quando cada integrante – fora, repito, Neymar e David Luiz -, criou na própria ignorância a ideia de que era digno de cinco minutos no quadrilátero em relva. O breu recrudesceu nos tentáculos do assombroso Felipão.

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O time de um capitão, tido melhor zagueiro do mundo, com cara de mascote de nado sincronizado não pode ultrapassar fronteiras, voar acima dos nossos céus. Um xerife com cara de boneco de loja infantil. Choro de berçário.

Um time com a insegurança moral de Tiago Silva não pode ser campeão de totó, de pebolim, de cuspe à distância, cusparada que está fora do gestual desses filhinhos de papai que são mais apropriados a sapatilhas de balé do que às travas da batalha na sola do pé.

Ponha a foto dele, de Thiago Silva, em prantos antes de recusar o pênalti contra o Chile, junto a um painel com Bellini batizando canela de russo, Mauro erguendo o bi, Carlos Alberto fechando os 4×1 de 1970, Dunga assustando Baggio na luta pelo caneco de 1994 e Cafu lembrando sua comunidade humilde ao erguer a taça do penta. Compare e me desminta se tiver coragem.

O Brasil foi longe demais na Copa do Mundo. Estar entre os quatro, fora a humilhação do insepulto 7×1, é um prêmio para jogadores de quarta divisão dos tempos de respeito. Em todas as Copas, convocavam-se titulares e reservas.

Elzo de 1986 seria um Beckenbauer de 2014. O Dunga de 1990 vestiria a camisa 10, tão inexpressiva a fauna. Serginho Chulapa de 1982 – repito, é preciso, fez muito melhor que Jô e o abominável e mascarado Fred.

Sempre se conviveu com jogadores de boa e má procedência. Os de agora simplesmente não procedem. Abortaram da falência das escolinhas pagas e do tráfico de menores que é urdido nas “bases” de futebol (dominadas pelos que não jogam nada), até o exterior nas mãos miraculosas de empresários. O time do Brasil foi eliminado por 7×1 porque é ruim. Ruim não, é péssimo. Aprendi nos cafundós das partidas preliminares, sol escaldante, aos domingos do Castelão (Machadão).

O ABC arrasou o Mauá de 18×0 e o América deu no Força e Luz de 19×1 porque Mauá e Força e Luz não existem, são horríveis. Palavras dos mais velhos que respeitarei até depois de morto. O time de Felipão é tão ruim quanto o Mauá ou o Força e Luz. Que eram dignos ao assumir a mediocridade sem presunção.

Uma coisa é outra coisa

Jamais comparem esses terríveis com Pelé, Brito, Gerson, Jairzinho, Tostão e Edu, que perderam 1966 e ganharam 1970. Nem a Romário, Bebeto, Dunga, Jorginho, Branco e Taffarel, que perderam 1990 e ganharam 1994. Tampouco a Rivaldo e Ronaldo, da derrota de 1998 e da vitória quatro anos depois. Os atuais são insubstituíveis pela própria farsa.

Terceiro lugar

Na decisão do terceiro lugar contra a Holanda, escalaria Felipão de zagueiro, Marin no gol, o inútil Murtosa de cabeça de área, o assessor boçal Rodrigo Paiva no lugar de Fred. É hora dessa gente ser jogada aos leões de nossos olhos.

Moral e Imoral

Em 1978, o Brasil, invicto, foi terceiro lugar e “campeão moral” segundo Cláudio Coutinho. Conseguindo amanhã, tentará amenizar a imoralidade que é o corpo invertebrado do seu futebol finado.

Messi

É preciso aprender com Messi. Não se vê, nele, um arroubo de arrogância, assusta a sua economia emocional. É preciso aplaudir Messi, ele sim, o homem só, que carregou uma paixão trágica e coletiva à decisão de Copa do Mundo no Maracanã. A presidente Dilma Rousseff não sairá diminuída se entregar a taça ao vice-rei da bola. Desde que os alemães concordem.

Guardiola

Leitor pergunta como jogadores entenderiam Guardiola falando espanhol, de técnico da seleção. “Os daqui não falam português”, respondi.

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