Ruy Cabeção afirma que foi chantageado no Alecrim e diz: “Ladrões, Bundões”

Ex-jogador de clubes grandes hoje está no Operário-MT, da Série D, e é o comandante do Bom Senso que mais lida com atletas em situação de desespero

Atleta saiu do Alecrim e não poupou o dirigente Anthony Armstrong. Foto: Divulgação
Atleta saiu do Alecrim e não poupou o dirigente Anthony Armstrong. Foto: Divulgação

Vagabundos. Estelionatários. Ladrões. Bundões. Malandros. Os adjetivos usados por Ruy Cabeção para se referir aos dirigentes brasileiros (não todos, ele ressalva) evidenciam um jogador que se desligou de todos aqueles freios tão exigidos na diplomacia do futebol. Justifica-se: ele tem quase nada a perder. Aos 36 anos, jogando no Operário-MT, da Série D do Brasileirão, o atleta é uma espécie de representante dos pobres no Bom Senso FC. Dos líderes do movimento, é aquele que mais vivencia as dificuldades dos jogadores eclipsados pelos mais famosos: aqueles que por vezes não têm dinheiro sequer para comer.

É a Ruy, que chega a divulgar seu telefone em redes sociais, que esses atletas mais recorrem. E é ele, entre os líderes do Bom Senso, quem mais ataca a estrutura do futebol brasileiro. Se jogadores como Paulo André, Alex e D’Alessandro são sempre críticos em suas manifestações, Ruy é mais que isso: é ácido, é agressivo. Fala o que dá na telha, como na entrevista abaixo, em conversa de uma hora e meia por telefone.

Na semana passada, o Barueri, por atrasos de salário, se negou a atuar justamente contra o Operário, o time de Ruy, que liderou um gesto de apoio ao adversário: sugeriu que os atletas do clube do MT se deitassem no gramado. Para ele, a ação da equipe paulista pode abrir o caminho para movimentações iguais de outros times:

“Os verdadeiros ídolos do nosso futebol hoje são os jogadores do Barueri.”

É interessante observar que a liderança do Bom Senso tem jogadores consagrados, que atuam em clubes da Série A, casos de Dida, D’Alessandro, Alex. Você acaba sendo o representante dos menos famosos? Eles procuram você, pedem sua ajuda?

É por ter jogado 11, 12 anos na Série A e depois passado pela B, pela C. Eu conheço todos os estágios do futebol brasileiro atualmente. Como hoje sou um atleta praticamente autônomo, meus contatos são abertos em redes sociais, por ter passado por aquilo que 90% dos jogadores enfrentam, virei porta-voz de todo mundo. Recebo mensagens, ligações de atletas de outros clubes que passam por situações delicadíssimas. Através dos contatos que tenho, tento ajudar naquilo que nos cabe. Minha identificação com esses atletas é importante. As pessoas me conhecem, sabem meu caráter.

E que impacto isso deixa em você? Que cenário você cria com as histórias que esses jogadores contam?

Bicho, o cenário não é assustador pra mim, não. Deixa eu explicar. Tive uma passagem pelo Alecrim-RN, contratado pela patrocinadora do clube (a construtora Eco House), de um dirigente inglês (Anthony Armstrong-Emery), que foi muito bem por seis meses e aí começou com atrasos periódicos. Aí foram jogadores correndo risco de despejo… Vi jogador passando cartão no supermercado e não tendo dinheiro na conta. Não tinha o que comer em casa e me ligou desesperado. Vi jogador que tinha filho doente e não tinha dinheiro em casa. Ou seja, eles não precisam me contar nada. Eu mesmo presenciei tudo isso. Acontece que esses garotos se sentem intimidados. São chantageados por dirigentes. A maioria não tem noção de seus direitos. E os dirigentes, geralmente muito mais instruídos, de uma índole ruim, para não falar vagabundos, estelionatários, ladrões, que se utilizam dos clubes para fazer suas falcatruas, fazem com que os jogadores se sintam intimidados. Eles não sabem a quem recorrer. Nossa briga é para que o futebol se transforme numa empresa.

Isso resolve

Eu tive uma empresa (de pão de queijo, junto com o pai). E tinha que pagar meus impostos, recolher fundo de garantia. Se eu não fizesse isso, minha empresa seria fechada. No futebol, não é assim. O cara entra pobre e sai rico. Já cansei de ver diretor entrar no clube com um carro e seis meses depois ter o melhor do ano. O problema no futebol é a falta de fiscalização. Mas isso não é culpa apenas do dirigente. A cabeça tem que mudar geral. A imprensa fala que jogador tem que honrar camisa mesmo com salário atrasado. Não tem que honrar nada. Eu penso em ser dirigente ou treinador um dia. Treinador fala que isso não pode influenciar quando o jogador entra em campo. Mentira! Não tem como exigir do atleta um alto rendimento se ele tem escola do filho atrasada, plano de saúde atraso, conta no banco no vermelho, luz atrasada. É impossível ter cabeça boa. O jogador virou escravo da lei, escravo dos clubes. Ele só pode se desvincular no terceiro mês. Quando está perto de fechar três meses, pagam um. No fim do ano, dispensam o elenco. Os que ficam vão receber em janeiro. Os outros vão para a Justiça.

Há clubes com salários atrasados nas Séries A, B, C e D. Um caso exemplar na A é o Botafogo. É verdade que você tem dinheiro a receber do Botafogo desde a década passada?

Entrei na Justiça contra o Botafogo em 2007. Já são sete anos. Tenho a ação ganha, mas não recebi ainda. O Botafogo tinha uma espécie de fila de credores. Meu advogado explicou que eu era o número 132. Havia 131 na minha frente. Vou receber daqui a dez anos, talvez nem isso. Com esse inglês do Alecrim, fiz um acordo judicial para me pagarem em nove meses. E o cara é milionário. Sabe quantos meses ele me pagou?

Não sei. Nenhum?

Nenhum! Esses empresários sabem que a Justiça é lenta, ainda mais no futebol, então querem mais é que entre na Justiça. A pior coisa é o fato de esses dirigentes não serem remunerados. Porque aí, se atrasa no clube, ele não sente. Na casa dele, não falta nada. Quando sair do clube, não perde nada. O futebol tem que ser profissional do dirigente ao funcionário que cuida do vestiário. A mentalidade do jogador está mudando, é igual à da população. A população está indo para a rua.

O que explica que mesmo clubes grandes, e é o caso que falávamos há pouco, do Botafogo, não consigam pagar em dia?

O que acontece é a impunidade. Esse querido aí, o Eike Batista, não teve problemas com as empresas dele e teve que sair vendendo tudo para quitar? No futebol, não acontece isso. Se a gente quiser, eu e você, montamos um clube ou viramos presidente do Botafogo. E aí saímos, e a próxima gestão que se vire. São poucos os dirigentes no Brasil que tentam zelar o nome que têm. Que se preocupam em colocar a cabeça no travesseiro e conseguir dormir. Outros, não. Não estão nem aí. O futebol, para muitos, é hobby. É status. Serve de trampolim para uma candidatura política. Estão pouco se lixando para a entidade. Se o Brasil não tiver hoje a pior estrutura do mundo para jogadores atuarem, estamos perto disso. É bacana termos um Cruzeiro, onde joguei em 2001 e já tinha dez anos sem atrasar salários. Hoje, continua da mesma forma, tem dois CTs, administração bacana. Colhe os frutos de 20 anos atrás. Se estivesse no eixo Rio-SP, teria a credibilidade do São Paulo. Mas é fácil falar desses clubes. Desafio qualquer um de vocês, da imprensa, a rodar os clubes do interior dos estados, chegar de repente e ver as condições de trabalho de meninos da base. A situação é miserável. A gente vê, e é muito triste, pessoas passando fome em comunidades. Pois tem muito disso nos clubes. Às vezes, nem água tem. Já tomei banho de caneca.

Onde?

No Alecrim mesmo. Cheguei a ser chantageado. Tinha acordo pela liberação, me fizeram gravar um vídeo dizendo que eu tinha acertado tudo com a construtora. O futebol é igual montanha-russa: um dia você está em cima; no outro, embaixo. Esses jogadores que estão na Série A, na elite, precisam saber que um dia a idade chega, os empresários viram a cara, e eles vão estar na situação de Série C, Série D, e vão sentir na pele. O Romário pegou nossa causa. Ele está ao lado do Bom Senso. Mas muitos outros poderiam estar contribuindo muito e não estão, porque só pensam no seu umbigo. Os verdadeiros ídolos do nosso futebol hoje são os jogadores do Barueri.

Por não terem jogado?

Eles tiveram a coragem de não entrar em campo.

Você sabia que eles fariam isso?

Eu sabia que havia esse movimento do Barueri. Alguns jogadores do Operário têm conhecidos lá. Antes do jogo, os meninos me passaram uma mensagem, os próprios jogadores, perguntando o que fazer. Disse que teriam que ver com o sindicato. Tenho o meu pensamento, mas não estou lá. É uma decisão de grupo. Mas eu, hoje, pararia o Campeonato Brasileiro. Só mudaria se tudo isso fosse para o papel, se todo mundo fosse punido se não cumprisse. Se atrasou, tem dez dias, ou o atleta está automaticamente liberado para trocar de clube. Isso força a trabalhar de forma correta.

Você tem mais de uma década como profissional…

Sim, 15 anos.

Nesse tempo, a situação melhorou ou piorou?

Em 2001, quando teve a Lei Pelé, fui o primeiro a pegar o passe. Quando me profissionalizei, em 1999, eu já tinha dificuldades de salários. O Botafogo foi campeão brasileiro em 95 com salários atrasados. Acabei de ver que mais um torcedor morreu, do Palmeiras. Olha, Deus é brasileiro, porque fez com que a gente não ganhasse a Copa e despertasse. Se vencesse, essa baderna iria se perpetuar. Se não for feita alguma coisa agora, te digo o que vai acontecer em cinco anos: vai ter clube grande de portas fechadas. Muitos não fecham a porta porque têm muita torcida. Os salários vão continuar atrasados. Torcedor vai continuar matando torcedor. E presta atenção nisso: daqui a pouco, vai ter jogador sendo morto. E isso por impunidade. Todo mundo adora punir jogadores, e temos parcela de culpa, somos um exemplo, mas se somos punidos, as pessoas que estão no estádio precisam ser punidas também. O cara que dizem que matou o outro é vereador (Raimundo Faustino, do PT. Sua defesa nega as acusações). É inadmissível. O cara sai da cadeia, cumpriu parte da pena, e mata de novo. Tá tudo errado, cara. Tudo errado.

Você acha que a classe dos treinadores está do lado dos jogadores?

Tem vários tipos de treinadores. Tem aquele que bate no peito e faz o que quer. E tem treinador que só quer segurar emprego, faz boa política, puxa o saco da direção para não perder o emprego dele. O treinador que pensa assim está dando um tiro no pé. Quem corre pelo treinador é o jogador. Sou fã do Muricy, bicho. Nunca trabalhei com ele, mas o que ele fala é verdade: é 70% jogador e 30% treinador. O Muricy viveu anos e anos no São Paulo. Eu estive no Fluminense. A distância é de 100 anos de diferença. Prometeram mundos e fundos ao Muricy. E ele ia ficar ali? Ficar cobrando os jogadores, enchendo o saco, sem ter nada na retaguarda? Os jogadores acabam baixando a cabeça e correndo porque têm que correr, porque são uma empresa privada. Ali, mostramos nosso produto. Corremos, lutamos.

Acho que sim. O pessoal do Icasa já se manifestou, do Paraná também. O Ipatinga devia cinco meses na Série B. Agora, vários atletas disseram que estão sem receber desde março. Como que um clube desses está aberto? O mesmo diretor daquela época continua lá, cara. De onde esse diretor tira dinheiro para viver, se não tem para pagar os jogadores? Cadê a polícia que não bate lá?

Você sente falta de maior penalização aos dirigentes?

Com certeza. Se houvesse condenação penal, de ele ser preso, melhoraria. Um dirigente diz que recolhe FGTS e não paga nada. É crime! Está na constituição! Se tiver uma lei que faça o cara responder, que faça com que ele responda com o patrimônio dele, 80% dos caras que pensam em ser dirigentes para fazer falcatrua vão sair do negócio. Por que grandes empresas têm fiscalização e o futebol não? Nunca vi alguém do Ministério do Trabalho ir a um clube. Aqui no Mato Grosso, nem sindicato tem. Nosso futebol é amador. Hoje, praticamente pago para jogar. E tem jogadores em situação pior que a minha. Daqui a pouco, vai ser esporte de elite.

Existe espaço para um gesto maior, coletivo, de paralisação? Ou é inviável?

Espaço existe. Quantos clubes estão pagando em dia? Não do jeito que falam que pagam… Vai contar três, cinco clubes na Série A, mais uns cinco na B. Se contar C e D, estamos perdidos.

Mas existe um movimento nesse sentido?

A vontade está em todos. A grande maioria dos jogadores está saturada. A questão é que é muito difícil. No meu elenco, são 25 jogadores. Imagina a dificuldade de mobilizar. Cada cabeça é uma sentença. E aí muito clube tem influência de algum dirigente, de chantagear atletas mais novos, que vai manchar carreira, ficar marcado. Eles usam essa artimanha. É difícil mobilizar.

Pelo que você fala, o momento é de ações mais pontuais, de elencos isolados.

Acho que a tendência é acontecer mais dessa forma. A não ser que aconteça com o apoio de um São Paulo, um Cruzeiro, um Internacional. Mas, se entrar em campo, tem que entrar e mostrar pra torcida: ó, tem seis meses de salário atrasado. Porque tem muito dirigente bundão que diz que tem salário rigorosamente em dia e depois diz que são só dois meses. Mas a classe acordou. Ninguém atura mais ser enganado.

O que me chama a atenção é que você resolveu falar o que dá na telha. Isso não pode prejudicar você no futuro? Ou vai sair do futebol?

Não é nem uma questão do que eu penso: é o que é certo. O que eu falo não pode ser polêmico. Foi como meu pai me educou. Ele me ensinou que é feio roubar, não fazer as coisas direito. Tenho 36 anos, treino todos os dias, cumpro meus horários, independentemente dos clubes onde passei. Sou profissional ao máximo. Mas a presidenta Dilma falou que estou no caderninho negro dos clubes grandes.

Ela falou isso, é?

Sim. Sou uma ameaça a eles. Não consigo ser enganado mais. Olha essa questão do Botafogo. Pagam uns e não pagam outros. Mas o que é isso? Isso não existe! A atitude do Lucas está certíssima. Ele está certíssimo. Graças a Deus, tive meu momento, conquistei meus títulos, e hoje faço curso na Universidade do Futebol. Penso em continuar. Não vou deixar que esses dirigentes malandros acabem com o que faço desde os seis anos de idade

O Bom Senso é um movimento recente. Antes dele, você já tinha essas brigas dentro dos clubes?

Desde que subi, sempre participei dessas questões. Quando subi no América-MG, o pessoal mais velho já me levava junto para discutir premiação. Nunca aceitava o que os dirigentes ofereciam. Batia de frente. Sempre tive um pé atrás com os dirigentes daquela época, a respeito de salário atrasado. Quando joguei no Náutico, o clube tinha fama de não pagar os últimos três meses. Em junho, julho e agosto, recebi dois salários juntos. O que aconteceu? Não pagou outubro, novembro e dezembro. Avisei a todos que meu salário estava em dia. Falei pro presidente (Maurício Cardoso), com quem me dou bem até hoje: “Presidente, você me pagou, mas não jogo bola sozinho. Pague o resto da rapaziada”. Ainda tenho que escutar dirigente vagabundo falar que não sou de grupo. Não sou de grupo para direção. Sou para o jogador.

Existe algum clube que possa ser tomado como modelo hoje?

Você fala sobre futebol? Porque acho que esse movimento do Barueri, da Série B, deveria incomodar muito os jogadores que estão em cima. A coragem desses garotos foi impressionante. Eles deram uma mostra de que o futebol pede mudanças. Passou da hora. Se não for agora a paralisação geral, quem sabe daqui a cinco anos aconteça?

Qual sua opinião sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte?

Se ela fosse aprovada como eles (dirigentes) queriam, com apenas a certidão de débito, seria para tapar buraco. Mas agora, como está sendo feito o acordo, com as reivindicações do Bom Senso, é diferente. Claro, a lei não vai ter só o que o Bom Senso quer. Mas se tiver 90% do que a gente pensa, essa lei já consegue dignificar o nosso futebol. Se fizer uma pesquisa hoje de credibilidade, a Federação Alemã ganha até do Congresso deles. Se fizer aqui, com a CBF, o que você acha? Bicho, isso não entra na minha cabeça. A CBF é uma confederação de futebol. Deveria se preocupar com o futebol brasileiro. É com os jogadores formados que se abastece a Seleção. E ela não demonstra interesse no futebol brasileiro. As federações estão falidas. Treze mil atletas estão desempregados. Muitos clubes não conseguem manter salários em dias. Rapaz, se sou chefe da minha casa e tenho esse tanto de problema, como que não vou agir? A CBF ganha milhões por ano, e nosso futebol está do jeito que está. Não somos a melhor seleção, estamos em 31º em público (34º, na verdade), nossos estádios estão vazios.

O encontro com a presidenta Dilma deixou uma boa sensação em você? Ou foi em vão?

Só vamos poder saber um ano depois das eleições. Mas o jogador no Brasil só era recebido quando era campeão mundial. Já demos um grande passo. Uma coisa é o dirigente conversar com a presidenta. Outra coisa é nós falarmos para ela que não recebemos salário, que não temos condições de trabalho, que tem jogador há dez anos na Justiça e não vê a cor do dinheiro. A presidenta tinha uma imagem de que o futebol brasileiro era tipo a NBA. A imagem dela era essa. Que o jogador é o cara da NBA. Hoje, a liga americana (de futebol) já passou atropelado por nós. Passou por cima. Lá, não aceitam o errado. Aqui, o errado é certo. O malandro é certo. Se a presidenta não puder ajudar, ao menos ela fez o movimento ser ouvido. Só faltou ela cair da cadeira… A segunda reunião com ela foi um espetáculo. Já estavam secretários, ministros, e a presidenta estudou tudo, falou que ia tentar resolver. No momento, vejo que a intervenção tem que partir do governo. A CBF se mostra muito pouco receptiva a novas ideias.

Fonte: Globo.com

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