Saber fazer a hora – Rubens Lemos

Paulo Henrique Ganso parece o cantor sensacional que chega ao show. Depois do show. É o cara que tem a…

Paulo Henrique Ganso parece o cantor sensacional que chega ao show. Depois do show. É o cara que tem a melhor piada da roda de sacanas e só resolve contá-la quando está voltando para casa, mulher a reclamar do bafo de cerveja. É o sujeito que passa a noite maturando uma ideia revolucionária para um projeto no trabalho, dorme a mais e vê o colega inteligente a menos tomando-lhe o lugar.

Ganso nasceu para retardatário. Aos 24 anos, começa a justificar uma convocação para a Copa do Mundo depois de Felipão anunciar a lista dos precários (exceto Neymar, Hernanes e os zagueiros) componentes da seleção brasileira. Uma lista sem refino ou retoques, pois não havia nada melhor para ser considerado.

Claro, havia Ganso, que, a rigor, recebeu apenas uma chance concreta de ser testado. Estreou bem em 2010 num amistoso contra os Estados Unidos, sinalizando a aparição jovial de um inspirado vestindo a camisa 10 em orfandade desde a aposentadoria de Rivaldo.

No Santos de 2009 a 2011, Ganso repôs nos campos nacionais o cerebral de meio-campo, o estilista, o maestro. O solista enquanto a banda tocava no ritmo de axé ou forró de sexta categoria. O futebol corredor e comparado ao atletismo, revigorava nos toques milimétricos e imprevisíveis do magricela companheiro de Neymar.

Às vésperas do Mundial da África do Sul, torci com fervor pela convocação de Ganso. O técnico Dunga levou um time que era a imagem escaneada do seu próprio futebol: viril, de carrinhos e sem inspiração. Na vaga que poderia ter sido de Ganso, então no auge, foram Felipe Melo, o terrível, Kléberson em final de carreira e o indesculpável Josué.

Ganso ficou entre os sete suplentes e sofreu uma séria contusão no joelho que terminou de abatê-lo por inteiro. Voltou vagando, bocejando em campo e escapando da bola, se oferecendo, sem força nem brio, à marcação adversária. A esperança da Copa América em 2012 terminou em fiasco. Ganso foi bisonho como o time inteiro eliminado pelo Paraguai.

Nunca mais foi chamado, nem por Mano Menezes. Felipão, adorador de primatas, nunca lhe deu a menor atenção. Nem deveria. Ganso fazia de conta que jogava, desempenho que chamávamos, nós quando meninos, de “come e dorme”, enganador e retrato da luz desligada pela própria leniência.

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Ganso, antes intocável, foi negociado com o São Paulo sem deixar vestígios ou saudades na Vila Belmiro. Era pálida imagem do candidato a craque fascinante ao parar e não tocar na bola colada à bandeirinha de escanteio para deixar o adversário sem tempo diante do seu time com apenas sete jogadores. Uma jogada adorada pelo saudoso Sócrates, inteligência glacial a serviço da arte.

Durante o sono de Ganso, o Brasil assistiu a Jadson, Renato Augusto e até Hulk ocupando o espaço nobre dos letrados da organização racional e distribuição sensata da bola. A função de meia-armador, especial e simbolizada por homens como Didi, Gerson e Ademir da Guia, estava órfã ao ser transformada em sentinela de volante brucutu, de caçador jogando deitado.

No São Paulo, Ganso seguiu errática jornada. Tinha credenciais para se entender bem com o técnico Muricy Ramalho, um homem carrancudo e distante das conspirações boleiras, mas fiel ao que aprendeu com o mestre Telê Santana e ao seu próprio estilo, de artilheiro técnico e goleador, ponta de lança dos melhores da década de 1970, machucado no joelho para se despedir do sonho de jogar uma Copa do Mundo.

Muricy jogava bem, mas dificilmente seria convocado em função da concorrência com Zico, Jorge Mendonça, Palhinha, Adílio, Paulo Cézar, Jair do Internacional, Paulo Isidoro e Marcelo do Atlético Mineiro ou Ramon do Vasco, atacante de origem, que fazia bem a função de partir com a bola da intermediária e tabelar com o centroavante.

Ganso foi barrado pelo técnico cansado de esperar por sua boa vontade e, de repente, parece reativar a classe que veio com ele do berço em Belém do Pará e começou a chamar atenção em jogos de futsal e de categorias de base.

Aceso, Ganso driblou zagas inteiras e bateu de fininho, quase marcando um gol antológico meses atrás. Contra o Corinthians, arquitetou o empate sufocado, suavizando o congestionamento defensivo do Timão, com um passe de clarividência. Diante do Flamengo, simplesmente definiu o jogo. Foi Ganso na função e marcou os dois a zero da vitória.

Poucos definiram tão bem o camisa 10 que não consegue ser certeza quanto o abusado goleiro Rogério Ceni: “Ganso quando é competitivo, não há jogador no Brasil que produza o que ele produz. Tecnicamente, ninguém faz o que ele faz.” Só falta Ganso fazer a hora o tempo todo.

Gangorra

Três dias depois de um sábado gordo, ABC e América perdem jogos que não mereceram vencer. É uma gangorra que o torcedor deve se acostumar até o fim.

Dependência

O América depende quase quimicamente de Arthur Maia, seu camisa 10. O meio-campo inexiste e a defesa abusa da ligação direta com o ataque imóvel.

Desfalques

O ABC também jogou patavinas em Goiás e perdeu para o Atlético. Desfalques garantem uma desculpa mais convincente.

Parreira zombando

Carlos Alberto Parreira derramou-se em bajulação ao caricato cartola José Maria Marin e disse que a CBF é o Brasil que deu certo. O país está navegando errado e Parreira não tem mesmo do que reclamar. Ele. Não o povo.

Série D

Com Vavá Metralha no ataque, o Baraúnas pega o Central de Caruaru em Mossoró na estreia pela Série D. O Globo, vice-campeão potiguar, vai a Caruaru encarar o Porto.

Memória

Campeonato Brasileiro, 21 de maio de 1978, clássico empolgante para 20. 653 torcedores no Castelão (Machadão), ABC 1×1 América. Marinho Apolônio fez 1×0 para o América aos 13 minutos. De pênalti, Baltasar cobrou forte e empatou aos 17 do segundo tempo. O ABC ficou com nove jogadores. Foram expulsos Domício e Noé Silva.

Times

ABC: Hélio Show; Vuca, Domício, Cláudio Oliveira e França; Baltasar, Danilo Menezes e Maranhão Barbudo (Noronha); Noé Silva, Jorge Costa e Noé Macunaíma: Técnico: Waldemar Carabina. América: Batista, Ivã Silva, Argeu, Sérgio Poti e Humberto; Ronaldo Alves, Ubirani e Marinho Apolônio (Gilmar); Jangada, Aluisio e Luís Carlos (Soares). Técnico: Laerte Dória.

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