Sabino e Salino
Calma. Pelé não jogou pelo São Paulo. João Sabino, o da foto à esquerda , era a cara do Rei. Mais parecido que todos os irmãos de sangue. O futebol de Sabino, ponta canhoto de correria e nenhuma intimidade com o feitiço do drible, foi patenteado pela sabiniana mediocridade esquecida na vastidão dos ocasionais da bola.
Sabino viveu a depressão tricolor dos anos 1960. Times de várzea vestiam a gloriosa e aristocrática camisa para disputar campeonatos paulistas e brasileiros apanhando sem a mínima dignidade. O dinheiro do São Paulo era canalizado para a construção do seu grande orgulho, o Estádio do Morumbi.
Sabino foi apenas um, dos personagens obscuros de uma época em que os torcedores depois acostumados a títulos gloriosos desejariam apagar com borracha de lápis grafite.
Sabino foi companheiro de Suli, Deleu, Sudaco, Bazaninho, Ilzo Neri, Miruca, Tenente, Lourival, Faustino, Cecílio Martinez, Paraná e Benê, os dois últimos com passagens pela seleção brasileira. Nada demais: Lucas Leiva e Felipe Melo vestiram a camisa amarela.
Quando Sabino, o sósia da perfeição, estava no São Paulo, a torcida punha o rádio colado no ouvido, ia ao estádio de bandeira enrolada por antecipação, prevendo a derrota catastrófica. Na época, o placar era modificado por garotos que trabalhavam de sobra nos clássicos do então timeco.
O São Paulo passou de 1957 a 1970 sem títulos. Em 57, ganhou com Zizinho aos 35 anos, o mestre Ziza, ídolo de Pelé e azarado por jogar no tempo em que não havia transmissão ao vivo pela TV nem videotape. As jogadas de Zizinho são ainda mais geniais nos desenhos imaginários dos vovôs que eram garotos e ouviam as aventuras do mago ao pé do estridente aparelho Voz de Ouro.
Sabino e a limitação coletiva do São Paulo produziram um milagre e provocaram um vexame no Dia de Nossa Senhora Aparecida em 1963. Talvez por piedade da santa, Sabino virou Pelé e Pelé soube o dissabor de ser um perna de pau.
O São Paulo surpreendeu o Santos, melhor time do planeta desde que noticiaram o planeta e em plena forma no Pacaembu. Jogou como se fosse originário da Vila Belmiro. Enfiou 4×1 numa zebra pintada de preto, vermelho e branco. Os 4×1 foram construídos ainda no primeiro tempo. Sabino, em chute torto como sua trajetória nos gramados, fechou a goleada.
Perplexo e humilhado, o Santos bateu em retirada como um exército covarde. Assim que o árbitro Armando Marques expulsou a dupla de ataque e tabelinhas ilustradas Pelé e Coutinho, o capitão Zito ordenou a fuga. O Santos, o grande Santos, correu com medo do São Paulo de Sabino. Mengálvio, reserva de Didi na seleção, comandou o patético cai-cai.
Sabino foi entrevistado durante uma semana, recebeu premiação mirrada, comemorou com a família, seguiu jogando seu futebol nota 4,5. Perambulou pela ponta-esquerda até terminar o campeonato em segundo lugar, uma vitória, vice-campeão, atrás do Palmeiras de Ademir da Guia, o Divino Mestre da Academia.
O Santos estava mais preocupado com a Libertadores e o Mundial, que ganharia jogando o habitual. Nos anos seguintes, Sabino, pelo jornal, veria tudo voltar ao normal, com Pelé recebendo faixa, cetro, coroa e caneco.
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Sabino é apenas um entre centenas de fugazes da glória. Homens de um jogo só e nunca mais. Sabino passou sem saber sua couraça de Cantinflas a um centroavante que domou os gols do fantástico numa noite de domingo, 23 de abril de 1978.
O Flamengo estava sem o titular, Cláudio Adão, machucado, e Cláudio Coutinho, ocupado em dividir seu tempo com o clube e com o prazer de convocar mal a seleção brasileira para a Copa da Argentina, escalou Radar, vindo do fabuloso Votaporunguense, do interior de São Paulo.
No alçapão de Moça Bonita, campo do Bangu, dominado pelo bicheiro Castor de Andrade e seus capangas armados, Radar triscou na consagração. O Flamengo goleou por 4×0 e os quatro foram dele. Falando sério, abastecido pelos passes de Zico e Adílio, até Luisinho das Arábias se tornou celebridade.
Radar ganhou Motorádio da Globo, deu entrevistas na Mesa Redonda da TVE e foi agraciado com clichês paupérrimos: “O Radar do Flamengo estava ligado e o Bangu pagou caro”, foi um dos mais ridículos. Radar deu pane e circulou por Barretos(SP), Vocem(SP), Corumbaense(MS), CSA(AL) até retornar como Nelson Gonçalves ao Votaporunguense(SP) antes de encerrar a trajetória de cometa.
O novo Sabino é Leo Salino. O do Nova Iguaçu. Fez dois golaços contra o Vasco. Duas patadas sem chances de defesa para o goleiro Alessandro. Salino teve seu dia de fama efêmera.
É rodado no trecho mineiro. Ipatinga, Tupi, Vila Nova. Sua credencial: É irmão de Leandro Salino, igualmente febril, passageiro e desconhecido. Volante com discreta aparição pelo Flamengo cinco anos atrás.
Léo Salino precisa fazer muito mais para chegar a Sabino, o do São Paulo. Léo Salino fez dois gols contra o Vasco, um ex-time, arruinado, uma imagem caricata de sua tradição heroica. Na comparação com Léo Salino, Sabino ainda é um Pelé.
Boa e má notícia
Boa notícia: O meia Walter Minhoca deixa o ABC pelo Nacional de Patos de Minas(MG). Má notícia: A ameaça de o meia Walter Minhoca voltar ao ABC para disputar a Série B do Campeonato Brasileiro.
Rodrigo Silva
Revitalizou o centroavantão. O trombador, o homem que mete medo nos beques. Contra o Alecrim foi assim.
Ataque
Quando olhar Rico vestido de verde, domingo, o América certamente terá saudade. É o jogador que falta para completar o time. O América quase perde para o Assu por desmerecer o adversário e não ter um homem de frente voluntarioso.
Alecrim
Opulência, aparato, contratações e muito, muito esnobismo. No primeiro turno, a receita falhou no Alecrim.
Iguais
Brasil e Itália foram iguais . O empate traduziu a limitação de duas seleções sem referência, sem um craque para chamar de seu, para comandar o jogo. O ser humano mais obtuso do Mobral sabe que o meio-campo deve ter Paulinho, Ramires, Hernanes(adiantado e não marcando) e Oscar ou Kaká.
Hulk
Duas jogadas definiram a mediocridade de Hulk. Quando quis enfeitar lançando a bola de um lado a outro quase entregando um gol e na ridícula pisada de bola no segundo tempo.


