Sacana solidário

A piscina  oceânica do hotel lembrava o cenário de filmes em Miami. Multidão dentro e fora da água. Exibicionistas saltavam…

A piscina  oceânica do hotel lembrava o cenário de filmes em Miami. Multidão dentro e fora da água. Exibicionistas saltavam em mergulhos ornamentais e inundavam mesas fartas de bebida e comida. Crianças desciam de tobogãs. Destoava  o casal em desleixo psicodélico . A mulher, com uma blusa protegendo o biquíni, folheava uma revista Caras. O homem estava coberto pelo jornal e um guarda-sol. Visíveis, apenas  suas pernas.

Chegou ele. O chato da ocasião resolveu emendar o porre da noite anterior, se hospedou num apartamento, depenou o frigobar, comprou uma sunga cor de laranja na loja da recepcão e mergulhou para curar a ressaca. Figura conhecida pela inconveniência de um “mala”, com diploma e tralha e tal. A presença de um chato em ambiente de presunçosos é uma espécie de contra-ataque da implicância.

Decidiu esculhambar  com o homem que lia a edição dominical . Antes, beliscou mulheres desacompanhadas, distribuiu cantadas infames, bebeu uísque e misturou com cerveja. Quente. Lançado um concurso de maior imbecil, ele ficaria com a medalha de ouro e a de prata. Lançou a primeira provocação ao homem que parecia ler e reler a Bíblia, não um exemplar de 16 páginas.

- Só um babaca pra ficar lendo com um sol legal, gente bonita e uma água deliciosa.

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Se ouviu, o homem manteve olímpico desprezo. Continuou lendo. Apenas suas pernas apareciam. O implicante desfiava suas provocações ao mesmo tempo em que expulsava aos poucos os banhistas, irritados com seu baixo astral.

A instrutora de hidroginástica suspendeu a diversão de passatempo quando recebeu elogios canalhas  às suas coxas e bunda, delineadas pela malha bem justa. No caso específico, faça-se justiça ao chato.

Apenas ele teve a coragem e a espontaneidade de expressar a malícia guardada pelos marmanjos encantados com o sorridente rosto e o corpaço dourado da professora mignon.  Não precisava acenar com um cartãozinho e pedir o telefone celular da jovem gritando.

O chato estava disposto a criar contra si um batalhão determinado a afogá-lo lentamente. Xingamentos em sonoridade discreta podiam ser ouvidos. Ele, para caprichar nos seus instintos priziacais, apanhou um boneco de borracha de uma criança e jogou no jornal do homem.

Nenhuma reacão. A mulher também parecia um iceberg de indiferença, concentrada numa entrevista de alto teor cultural da cantora Joelma, da Banda Calypso. O menino abriu um berreiro e o chato lhe calou pagando  um sorvetão de pistache. Tudo ok. Seguiu o processo de queima de paciência do outro:

- Ei, idiota, deixa de ler jornal e vem esticar essas pernas ridículas e caneludas. Vocé é um otário!, repetia o insuportável enquanto mergulhava de cabeça para baixo fazendo borbulhas em alto e bom som. Soltava puns para ver bolhinhas se formando no azul molhado.

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A reação indignada partiu de um cidadão grisalho, roupa de tenista, que atravessou o parque aquático e foi até a borda da piscina. Em passadas elegantes de um nobre de  formação acadêmica inglesa. Educado, tomou iniciativa:

- O senhor é um sujeito sem educação, indigno da convivência harmoniosa em sociedade. Aqui é um ambiente seletivo, frequentado por pessoas distintas de nossa sociedade e o seu procedimento é, no mínimo, desagradável. Tomarei a medida de procurar o gerente e apresentar uma reclamação formal contra sua pessoa, que agride um cidadão sem sequer conhecê-lo.

O chato, mala sem nenhuma perspectiva de adequação de alça, ouviu a lição de moral com um sorriso cínico e preguiçoso, para,  em seguida,  responder com extrema calma:

- O senhor não deveria ter se metido, mas já que se meteu, agora vai ouvir também: realmente o homem eu não conheço, nunca vi, nem quero saber de quem se trata. Mas a mulher que está deitada ao lado dele, de vez em quando dando-lhe beijos na boca, é a sua. A sua mulher, seu paspalho. O cabra safado da história não sou eu.

O cidadão impoluto jogou o pé de lã com jornal e tudo dentro da parte funda. A mulher, que o enganara dizendo que passaria o fim de semana em um congresso sobre estética, ele perdoou, rebocando-a e chorando feito menino. O chato puxou a vaia que ecoou pelo hotel inteiro seguida do coral infantil: “corno, corno, corno.”

 

Homenagem
Marinho Chagas será homenageado amanhã na abertura do Arena das Dunas. Será antes do segundo jogo da rodada, entre ABC e Alecrim. Marinho é o maior nome da história do futebol potiguar e foi, sim, o grande destaque brasileiro na Copa do Mundo de 1974.

Gesto maior
O gesto maior seria das autoridades concedendo a Marinho Chagas uma pensão especial pelos serviços prestados e a divulgação do Rio Grande do Norte no exterior, onde é idolatrado. Marinho Chagas vive um drama pessoal em função de problemas hepáticos e precisa de ação, de tratamento, que só se paga com dinheiro. Pensões especiais foram concedidas aos montes para quem fez bem menos que ele.

Os jogos
Jogos de temperaturas extremas. No primeiro, o América, nadando de braçada igual dizia o matuto quando tinha água no sertão, pode disparar ainda mais na Copa do Nordeste se ganhar do Confiança de Aracaju.  No segundo, o que seria uma pelada, virou drama.

ABC x Alecrim
O ABC desesperado pelos péssimos resultados e – mais ainda – o nulo nível do seu futebol nas primeiras partidas do ano, tem que vencer ou vencer o Alecrim se quiser respirar e afastar o vudu do rebaixamento inédito no campeonato estadual. O técnico do Alecrim, Vassil Mendes mandou avisar que a tarefa alvinegra será inglória.

Memória
Amanhã, 26 de janeiro, faz 32 nos que o Brasil jogou pela primeira e única vez em Natal, derrotando os alemães orientais por 3×1. No Castelão(Machadão). Também num 26 de janeiro, em 1985, o ABC empatava com o Paysandu(1×1) na estreia do Brasileiro. Jorge Demolidor fez 1×0 para o alvinegro e Chico Spina empatou, para 14.227 pagantes no Castelão.

Times
O ABC de Ferdinando Teixeira: Pavão; Manu, Luís Oliveira, Zé Adilson e Sérgio Poti; Baltasar, Dudu e Tião; Carlinhos Mocotó(Noé Macunaíma), Jorge Demolidor(Arié) e Arildo. Paysandu de Zanata: Mário fernandes; Marinaldo, Adenildo, Nad e Zezinho; Charles Guerreiro, Duarte e Patrulheiro(Chico Spina); Marcos Nogueira, Cabinho e Paulo Sérgio(Alfredo).

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