Satélite não tem projeto de drenagem porque não é considerado de baixa renda

Moradores do bairro também sofreram com chuvas e reclamam de falta de apoio do Poder Público

Buraco-do-Aquino-na-Av-dos-Xavantes--HD--(204)

Marcelo Lima

Repórter

Os excluídos dos excluídos. É mais ou menos esse sentimento de pessoas que moram no bairro Cidade Satélite próximo a uma lagoa conhecida popularmente como, “Buraco do Aquino”. Por lá, dezenas de pessoas também sofreram com a água das chuvas dentro de casa, mas não tiveram a mesma atenção dispensada pelo poder público a outros cidadãos também de bairros periféricos.

Os moradores da travessa Xavantes foram um dos mais afetados pela chuva, uma vez que a via fica em frente ao buraco. Nos primeiros metros, um pequeno prédio, com primeiro andar, está com quase todas as quitinetes do térreo desocupadas. As portas e janelas ficam abertas com o grande vazio interno exposto. A primeira impressão de quem passa pelo local é de um prédio abandonado. E realmente foi o que aconteceu.

Todos que moravam nesses imóveis da parte térrea do prédio se mudaram para outro lugar ou para o andar de cima, em decorrência das chuvas dos dias 13, 14 e 15 de junho que assolaram a cidade do sol. Uma das pessoas que teve que mudar forçadamente para o andar superior foi a estudante Jéssica Mara de Souza.

Ela estava há dois meses no local quando as águas da chuva literalmente bateram no meio da canela dentro da casa alugada. Agora, ela rememora o que foi possível salvar naqueles dias de pavor. “Graças a Deus, dei um jeitinho na geladeira e ela voltou a funcionar. Tinha um armário que perdi. O meu colchão foi parar no teto. Foi desesperador. Eu fiquei em choque aqui. Ainda dentro d’água, a gente fez a mudança lá pra cima”, contou a jovem.

Jéssica e um vizinho lembraram também que outros moradores sofreram ainda mais, pois não estavam em casa no momento da chuva. Para evitar a repetição do episódio imprevisível, essas outras vítimas se mudaram. A estudante também planeja sair do lugar o mais rápido possível. Ela só se mudou para o andar superior para cumprir o contrato de locação. “Vou me mudar daqui por isso [a chuva] e porque vou me casar”, disse em tom de desesperança.

O vizinho da estudante, o pedreiro Paulo Sérgio Nogueira teve sorte porque já morava no andar superior quando o transbordamento aconteceu. Mas mesmo assim enfrentou transtornos. “A gente tinha que sair de casa com a água alta mesmo. Falta uma drenagem, uma bomba nessa lagoa, porque a água de Cidade Satélite todinha vem para cá”, comentou. Depois das fortes chuvas de junho, o proprietário construiu muretas de contenção da água na porta de entrada das quitinetes na tentativa de preservar os imóveis.

Andando mais pela travessa Xavantes, outro proprietário de casas para aluguel afirma que a construção dessas muretas na porta da frente das casas, desestimula o possível locatário. Ele inclusive já tentou o artifício em uma de suas casas. Nesta, ele fez dela sua moradia, já que alugar era inviável.

Em outras duas, ele preferiu levantar o piso da casa inteira, na esperança que o nível fique sempre acima do nível da água em dias de chuva. “Eu levantei o piso porque com o batente ninguém quer alugar. Olha assim e sabe que entra água”, disse Israel Neri de Souza. O investimento para elevar o nível do piso em duas das suas casas foi de cerca de R$ 1.500 em cada. Segundo Israel Neri, essa é a sexta vez que o problema acontece desde que mora no local há cerca de 30 anos.

Segundo os moradores da travessa, a Prefeitura de Natal aprofundou a cratera em novembro do ano passado. “Imagine se não tivesse feito”, observou o pedreiro Paulo Sérgio. No entanto, não foi realizada obra para drenar a água. O medo dos moradores é que a cratera fique sem controle e seu diâmetro cresça. “Eles também tinha que colocar pedras nas paredes porque desse jeito o barranco pode ir caindo”, alertou Israel. Na rua paralela a avenida Xavantes, uma erosão (voçoroca) na rua de terra mostra o caminho cavado pela água.

Todos os moradores falaram que nenhum órgão, como Defesa Civil ou Corpo de Bombeiros, apareceu no local no momento da agonia. Além da travessa, a avenida dos Xavantes, também sofre recorrentemente com as chuvas fortes, impedindo inclusive o tráfego de veículos e colocando em perigo quem se arrisca.

Alta renda?

De acordo com o secretário de Conservação da pasta de Obras Públicas e Infraestrutura, Walter Fernandes, o local não é considerado de baixa renda e por isso projetos para o local não tem prioridade quando chegam ao governo Federal. “O Ministério das Cidades é que faz essa análise e eles têm priorizado áreas de baixa renda, como a zona Norte”, disse.

No entanto, o plano diretor de drenagem aponta o local como um ponto crítico. O fato de o terreno ser privado é outro complicador. Dessa forma, seria necessária a desapropriação para se ter um projeto para o local. Mesmo assim, o secretário informou que anualmente a Prefeitura realiza o aprofundamento da lagoa e a limpeza.

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