Segundo disco de Camila Masiso, “Patuá”, mostra evolução da cantora

Sua voz ganha impulso com um time de grandes músicos; show de lançamento será amanhã, às 20h, no Teatro Riachuelo

Conr3

Conrado Carlos

Editor de Cultura

O que deseja uma jovem cantora potiguar ao lançar um segundo disco autoral, cuja sonoridade e estética são reconhecíveis em outras tantas artistas do presente e do passado? Ou uma bonita morena tropicana falando em Oxum, Iemanjá, capoeira, candomblé e mamelucos, descalça, à beira do mar, travestida na moda afro, ao som de um violão emepebezzístico e um sorriso otimista na face não soa familiar? Muito se fala da incapacidade congênita da atual geração musical brasileira de promover uma transfusão exitosa entre as células sanguíneas da tradição e as que se desenvolveram nas últimas décadas – sobretudo após a massificação da informática. Concordo com quase todas as teorias que circundam essa ideia, ainda que encontre traços de excelência em meio à profusão de nomes que vem e vão a cada temporada. Falo tudo isso, pois, na noite de amanhã (16), às 20h, Camila Masiso lançará seu novo álbum, “Patuá”, no Teatro Riachuelo – como os ingressos estão esgotados (1 kg de alimento), caso você queira ouvi-la com urgência, resta o site www.camilamasiso.com.br.

Camila é das mais queridas cantoras da cena natalense. De inegável carisma, sua voz suave conquistou uma leva de simpatizantes que foi capaz de transformá-la, por que não dizer, em um sucesso local. Seus shows são concorridos (1,5 mil pessoas que sacaram ingressos na bilheteria do teatro), e uma turma de instrumentistas tarimbados faz parte da proposta – a saber, Diogo Guanabara, Kleber Moreira, Henrique Pacheco e Rogério Pitomba. Com os quatro, ela travou dialogo para gerar “Patuá”, compêndio de 11 faixas que serve de mostruário do suprassumo do que tem sido feito por aqui. O que talvez seja o melhor do disco: a coesão entre instrumentos e a voz de Camila. Em certas passagens, o encadeamento de linhas melódicas dificulta apontar a principal sonoridade, se o canto ou o bloco formado por baixo, bateria, percussão, violão e bambolim – para ficarmos na base instrumental usada na gravação. Para a apresentação de amanhã, são anunciados convidados, como Khrystal, o sanfoneiro Zé Hilton e o italiano Pheel Balliana, antigo parceiro, que divide o tema “Mais um dia”.

A primeira faixa de trabalho é a que abre o CD: “Além do Sol”, com direito a clipe nas praias de Tabatinga e Barreta, que, juntamente, com a sequência, “Morena”, sugerem o ar tropical da brasilidade sensual (na medida certa, sem apelo carnal), ensolarada e festiva adotada como bandeira nacional desde a Semana de Arte Moderna de 1922, que agrada nativos e estrangeiros. O apuro nos arranjos dá brilho ao que seriam apenas duas boas composições, sem maiores atrativos. Até que chega “Rei do Povo”, de Alex Amorim, João Henrique Koerig e Vinícius Lins. Para mim, a melhor, com um atmosférico violão na introdução preparando um samba que fala de um ‘nêgo’ que está de cara amarrada, enquanto Camila pede para cantar. “Tanto Faz”, a quinta música, de Caio Padilha, mantém a qualidade em alta, com seu xaxado jazzístico, com trechos até psicodélicos, que conta com a participação do fera Eduardo Tauffic no teclado Rhodes. Aqui “Patuá” atinge o ápice e justifica a insistência no repeat – assim como boa parte do disco, feito com rara honestidade em Natal.

A quadra com as melhores músicas é completada por “Fora do Fuso”, em que a levada funk viaja até o Benin, nação na costa da África Ocidental, outrora o berço do Reino de Daomé e dos iorubas, de onde saíram escravos que ajudaram na composição étnica do Brasil e de boa parte da América. E por “Xirê”, composta por Khrystal a pedido de Camila, que imprime uma interpretação semelhante a da cabocla que sacudiu o The Voice. Samba dos mais bacanas já ouvido por estas plagas. Quem for ao Teatro Riachuelo gostará de todas as citadas. Ex-vocalista de bandas pop, como Base Livre e Tricor, Camila Masiso mostra evolução neste segundo trabalho – a estreia na carreira solo foi com “Boas Novas”, de 2010. E mostra as possibilidades que artistas locais têm ao unirem talentos. Uma excursão pela Europa está prevista para abril e maio (ela já cantou na França, Itália, Áustria e Eslovênia). Sem inventar a roda ou patinar na pretensão, seu caminho tem sido trilhado com um cuidado que nos faz acreditar que estamos diante de alguém diferenciado, prestes a inserir o Rio Grande do Norte no mapa.

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