Sem cesárea forçada, mãe e filho poderiam ter morrido, dizem especialistas

Dona de casa, de 29 anos, foi obrigada pela Justiça a fazer cesariana

Adelir Carmen Lemos de Goes queria ter parto natural, mas foi forçada a uma cesariana pela Justiça. Foto: Divulgação
Adelir Carmen Lemos de Goes queria ter parto natural, mas foi forçada a uma cesariana pela Justiça. Foto: Divulgação

A cesárea forçada da dona de casa Adelir Carmen Lemos de Goes, de 29 anos, de Torres, no Rio Grande do Sul chamou atenção de mulheres e de especialistas sobre o parto normal e seus riscos. Após o pedido de uma médica do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes (RS), a Justiça gaúcha determinou que a grávida fosse submetida a uma cesariana contra a vontade dela por considerar que os dois corriam risco de morte.

Segundo o hospital, a mulher chegou com fortes dores e duas médicas examinaram a paciente. Ambas concordaram quanto à indicação da cesárea após a realização de exames que mostraram que o feto estava os pés apontados para o canal vaginal (sentado no útero). Além disso, ela teria passado por duas outras cesarianas e estava na 42ª semana de gestação.

A ginecologista e obstetra Barbara Murayama da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) explica que uma mulher que já passou por duas cesarianas “não deve ser submetida a um trabalho de parto pela cicatriz no útero”.

“Quando a gente corta o útero na hora da cesárea, o tecido muscular não ficará igual ao tecido integro. A chance de haver rompimento, dar hemorragia na mulher e beber morrer é grande. O sangue que iria para placenta e para o neném não chegará de maneira adequada. Às vezes, não há tempo suficiente para os médicos socorrem e a mãe pode morrer. O risco é altíssimo. Agora, em caso de mães que fizeram apenas uma cesárea, os médicos tentam fazer com que a segunda gestação seja de parto natural”.

No fim da gestação, a posição “mais comum” do bebê é “cabeça para baixo”, explica a médica. De acordo com ela, qualquer outra apresentação é “considerada não própria para parto normal”.

“Quando o bebê está sentado, como era o caso da dona de casa, sai primeiro o bumbum, depois as pernas, os braços e ombro, que é parte mais difícil de sair por ser mais largo. Como a cabeça fica por último, o colo do útero pode fechar e estrangular o bebê”.

O obstetra e membro da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), James Cadidé avalia que isoladamente cada um dos motivos listados pelo hospital não seria risco para mãe e bebê, mas a somatória de todos eles.

“Só o fato de ela ter passado por duas cesáreas não é motivo para que não fosse realizado o parto natural, há relatos de mulheres que passaram por nove cesáreas e sobreviveram. Mas a somatória das duas cesarianas, o bebê estar sentado e a gestação ser de 42 semanas (placenta envelhece e pode faltar nutriente para o bebê), poderiam levar à morte da mãe e do bebê”.

Pré-natal

Apesar de o pré-natal ajudar os médicos a descobrir se mulher poderá dar à luz por parto normal, os especialistas só saberão qual o tipo mais adequado quando a mulher entrar em trabalho de parto. A primeira opção será sempre o parto natural, segundo o obstetra.

“Pré-natal não indica qual o tipo de parto a mulher terá, mas nos ajuda a orientar a paciente sobre qual procedimento será o mais seguro para ela e para a criança. O parto é um processo dinâmico, não estático”.

Segundo os especialistas, mulheres que tem HIV, crise de herpes genital até 15 dias antes do parto, defeitos na bacia que impedem que o bebê passe, placenta na frente do bebê, além de cardiopatias não poderão ter o filho por parto natural.

Cesárea X parto normal

A ginecologista Inessa Bonomi afirma que o parto normal é o procedimento mais natural para a paciente e é menos dolorido que a cesariana. Além disso, estabelece muito mais rápido o vínculo entre mãe e filho.

“A recuperação do parto normal é muito mais rápida e menos dolorida do que a da cesariana. Além disso, na hora do parto, a mulher produz hormônios que fazem que o corpo se prepare mais rapidamente para a amamentação”.

Segundo Cadidé, o posicionamento da médica e a decisão da Justiça gaúcha servem de exemplo para chamar atenção “para a questão dos extremos”.

“A cesárea é segura e deve ser usada quando realmente for preciso. O médico sempre deve tentar o parto natural. Mas se não der, é possível fazer cesárea, pois esse procedimento já salvou a vida de muita gente. É um método importante que deve ser usado no momento certo e adequado”.

Para Barbara, a atitude da médica do RS “foi corajosa” e com intenção de proteger “duas vidas”.

“Em casos de a paciente estar ciente que é arriscado o parto normal, mas se recusar a fazer, o médico anota no prontuário e a escolha dela é livre. Como médica, eu não posso prender a pessoa para fazer algo que ela não quer”.

Fonte: R7

Compartilhar: