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Sem espaço para base

Data: 18 janeiro 2013 - Hora: 18:00 - Por: Portal JH

Quando entrarem em campo neste final de semana para a disputa da Copa do Nordeste, os dois times potiguares terão em comum a exclusão quase que total de espaço para jogadores nascidos no Rio Grande do Norte. As categorias de base, mais uma vez, serão apenas ilustrativas nos dois elencos e o número mínimo em relação ao aproveitamento dos atletas mostra como é cada vez mais forte o perfil importador dos nossos clubes. Para se ter uma ideia, entre os 22 titulares das duas equipes, apenas Renatinho Potiguar, no América, e Edson, no ABC, começaram suas histórias no futebol profissional vindo das bases dos dos clubes que hoje defendem.

Renatinho começou sua carreira no próprio América, time que lhe deu a primeira oportunidade profissional. Mas não foi muito longa sua jornada no clube e menor ainda sua permanência no futebol potiguar. Rodou por diversos clubes e retornou ao Rio Grande do Norte ainda sentindo o peso da responsabilidade do próprio sobrenome que carrega no mundo futebolístico. Ser “Potiguar” no Rio Grande do Norte parece dificultar as coisas.

“Somos importadores por alguns motivos. Realmente não foi dada ainda uma estrutura coerente e necessária para que seja atrativo para atrair talentos. O Vitória-BA e o Sport-PE hoje atraem esses atletas. Nós agora iremos fazer uma reformulação. A base não pode ser separada dos profissionais e ela tem que ser bem interligada. Vamos montar uma estrutura que seja diretamente ligada aos profissionais. Outra situação vem do lado da emoção e da cobrança da torcida, que geralmente não tem a devida paciência para que o garoto tenha uma sequência de jogos e ganhe experiência. A maioria não consegue compreender a importância do apoio”, explica o presidente do ABC, Rubens Guilherme.

“A pior fase na carreira do atleta, a não ser que ele seja um fora de série, é a transição. Geralmente é difícil um clube ter um treinador que pense no clube. Os técnicos são passageiros e não querem arriscar com um jogador. Preferem trazer um pronto da confiança dele. Eu calculo em um período de mais ou menos dois anos, desde o momento que ele começa a ter oportunidade, para depois ele realmente fluir”, explica Moura, gerente de futebol do América.

Edson surgiu nas categorias de base do ABC. Sob o comando de Leandro Campos mudou de posição, saindo da zaga e se tornando lateral direito. Teve algumas oportunidades, mas a paciência com o futebol dele não foi a mesma que tiveram, por exemplo, ano passado com Pedro Silva, que mesmo completamente fora de forma se firmou na posição. Edson chegou a ser emprestado para o Grêmio-RS, mas acabou retornando a Natal. Hoje, sob o comando de Givanildo Oliveira será titular adaptado na posição de volante, já que o titular do setor, Bileu, precisará cumprir suspensão.

“Nós temos três ou quatro jogadores que estavam na Copa São Paulo que vão receber atenção especial esse ano. É realmente necessário que as bases deixem de ser amadoras e passem a ser realmente acompanhadas pelo departamento profissional”, completa Rubens.

Além de Edson e Renatinho Potiguar, outros potiguares compõem os elencos dos dois clubes. No América o lateral esquerdo Bruno disputará com o próprio Renatinho e com Fernandes a titularidade na lateral esquerda. No ABC existe Romarinho, apontado como promessa, mas que nunca vestiu a camisa do time profissional. Outros jogadores fazem número no trabalho da equipe profissional, mas sequer aparecem nas listas de convocação desde o ano passado. No ABC, o meia Erivélton chegou a ser titular da equipe quando o ex-treinador Leandro Campos foi demitido e Guto Ferreira assumiu o time, em 2011. Mas a demissão de Guto e o retorno de Leandro Campos enterrou qualquer tipo de oportunidade dada ao meia, que apesar do bom rendimento nos jogos que disputou ficou renegado ao esquecimento.

“Antigamente as condições eram piores e os próprios treinadores eram daqui e conheciam bem os atletas locais. Os clubes tinham menos condição e tinham que aproveitar mesmo os jogadores locais. O que é complicado hoje é que vejo muitos bons jogadores nas categorias de base e até os times do interior vão buscar atletas fora. Eles praticamente só disputam o estadual e deveriam investir mais nos atletas locais”, completa Moura.

Malas prontas para o interior

A justificativa para a não utilização de jogadores da base é simples. O alto nível das competições e a necessidade de vitória imposta aos treinadores como base para a manutenção de seus empregos não permite experiência. A solução para os atletas e até para os clubes é procurar outras equipes, para buscar seu espaço.

No Campeonato Potiguar o ABC cedeu dois jogadores importantes apontados como promessa. Os atacantes Alvinho e Felipe Alves jogam pela equipe de Santa Cruz. O América esta semana resolveu adotar um caminho parecido e emprestou quatro jogadores para o Corintians de Caicó. O zagueiro Tiago, o volante Judson, o meia Rivaldo e o atacante Daivison, todos da equipe sub-20 que recentemente disputou a Copa São Paulo de Futebol Junior, já se apresentaram ao Galo do Seridó.

“O objetivo da gente é colocar os garotos pra jogar. Temos uma cobrança muito grande em relação a resultados. Todos eles tem qualidades, fizeram boas apresentações na Copa São Paulo e precisam adquirir confiança. Eles agora terão oportunidade de seguir o trabalho deles e disputar um campeonato duro, que é o estadual. Não teria como colocar todos eles para jogar.

 

Últimas revelações

Ex-coordenador de base do ABC e com currículo extenso por clubes importantes do país na categoria, Didi Duarte é hoje o responsável pelas categorias do Náutico, em Pernambuco. Uma das frases preferidas do treinador mostra bem a realidade de quem pretende colocar em campo seus atletas de categorias inferiores. “Só revela quem põe pra jogar”, afirma.

Uma das últimas revelações que conseguiu se firmar no time titular de ABC ou América foi João Paulo, que hoje atua na Coréia. Em entrevista recente, o jogador citou as dificuldades de vir da base. “Temos que correr em dobro, de fazer sempre mais. Se a gente erra um passe o treinador pega logo no pé e o torcedor não tem paciência. Se não descer aqui no avião, é sempre mais difícil. Eu passei por muitas dificuldades para conseguir meu espaço e se qualquer um chegasse minha vaga era logo a primeira a ser tomada. Já perdemos bons jogadores por não saber aproveitá-los”, dizia o atacante.

Base campeã

Um exemplo de como a base pode ser importante na história de um clube é bem claro no time montado pelo América para a Copa do Nordeste de 98, quando se tornou campeão. “A base era do Rio Grande do Norte. Tiê, Carlos Mota, Gito, Mingo, Carioca, Biro-Biro, Zé Ivaldo, Cícero Ramalho. Era um time muito forte e com jogadores daqui. Era uma safra muito boa”, finaliza Moura.

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