Semifinais – Rubens Lemos

Duas perspectivas para as semifinais. A da tradição e a da surpresa. Preconceito grosseiro é alegar zebra em quartas de…

Duas perspectivas para as semifinais. A da tradição e a da surpresa. Preconceito grosseiro é alegar zebra em quartas de final. Prevalecendo a primeira opção, Alemanha ou França estão enquadradas no ranking dos campeões. O jogo terá terminado ou estará nos finalmentes quando o jornal tomar as ruas com a força e a resistência do papel melhor que o tablet.

Tanto Alemanha quanto França são vencedoras de Copa do Mundo. O Brasil derrotando a Colômbia, no jogo ou no chororô dos pênaltis, enfrentará uma delas e será refrega de trucidar cardiopata. A Alemanha só topou uma vez contra nós e perdeu em 2002, Rivaldo transformando frevo em poesia nas gramas asiáticas e Ronaldo Fenômeno Bueno vencendo Hannibal Lecter, sósia do goleiro Oliver Kahn.

Com a França, pagamos conta de caderno. A diferença é 3×1 pra eles. No bairrismo de granadeiro bigodudo, pode-se dizer que a nossa vitória – a primeira entre os confrontos – vale 10. É verdade. Vencemos a semifinal de 1958 dando um passeio de bondinho da Urca no timaço de Kopa, Piantoni e Fontaine.

Uma das melhores exibições da história do esporte. O Brasil mandou no campo do começo ao fim, sem intervalos. Franceses reclamam da fratura na perna do lateral Jonquet, dividida com o artilheiro Vavá. Ficaram com 10 jogadores(substituições eram proibidas), mas o caso aí foi de quem usou melhor a malandragem. Vavá percebeu a malícia do francês e jogou a perna por cima. Senão, o Leão da Copa teria virado gatinho de tuba.

Garrincha driblou até Charles De Gaulle, Didi enfiou caneta no seu suposto semelhante, o ótimo Kopa, Pelé parecia um marechal de campo e não o prestes soldado raso na certidão de nascimento. O Brasil arrasou e a França engole a derrota à força.

Nas outras vezes, equilíbrio em apenas uma. Na peleja de 1986, que rendeu até mesmo uma sinfonia do mastro René Koering, tamanha a elegância e o ritmo de valsa suave em variação para o suspense de filme de Hitchcock. O Brasil fez 1×0, gol de Careca em triangulação inteligente com Muller e Júnior e Platini empatou numa falha geral da defesa que ainda não havia tomado um golzinho sequer.

Fica chato repetir o que dói. Zico entrou, mártir de joelho estourado, fez um lançamento de Gerson ambidestro para Branco sofrer o pênalti. Zico estava em dia de rever Mazarópi, goleiro dos seus anos de mandato no Ex-Maracanã e o francês Batts pegou. Perdemos nos pênaltis.

Em 1998, o placar de 3×0 e o solo de Zidane dispensam delongas. Em 2006, a França fez apenas 1×0, gol de Henry. O placar “moral”, termo bem frequente nas derrotas nacionais quando não se oferecem braços a retorcer, seria uma goleada até maior que a de oito anos antes. O Brasil deu seu chute a gol, único, aos 44 minutos. Do segundo tempo. A França fez o que quis.

Brasil x França ou Brasil x Alemanha é a lógica da teoria. Colômbia contra um dos europeus será novidade apenas pelo retrospecto dos sul-americanos. Hoje, a Colômbia dispõe de uma das melhores seleções do planeta. Jogador por jogador, tem mais time que o Brasil e , até agora, James Rodríguez supera Neymar.

O fim de tarde pode mudar tudo, se o Brasil parar de chorar e se acovardar e receber uma dose de ânimo e sorte. Se o Brasil ganhar em desempenho pífio e recorrente, pelo que foi mostrado até a bola rolar, a Colômbia, favorita, terá sido injustiçada.

A outra briga

A Argentina enfrenta a Bélgica e a história é de equilíbrio baseado em dois pontos fundamentais. Na estreia da Copa do Mundo de 1982, os hermanos assistiram aos belgas. Maradona, novo, imaturo e (muito) mais arrogante, não construiu uma jogada que resultasse em esforço do goleiraço Pfaff. A Bélgica venceu de 1×0 e começava o calvário portenho, acumulado ao fracasso na Guerra das Malvinas.

Maradona era outro em 1986 e nas semifinais triturou a Bélgica para comer com picanha caseira de Buenos Aires. Fez um supergol, driblando quase em queda livre a defesa inteira e batendo de canhota, uma beleza pouquinho inferior à antologia contra os ingleses, dias antes.

Se der Argentina é natural no papel. Ganhando a Bélgica, é uma novidade espalhada desde as Eliminatórias e uma campanha irretocável. Na primeira fase, também uma boa performance. Vitória nos três jogos e primeiro lugar. Nas oitavas, jogo duro, mas jogo ganho no gramado, sem tiro livre.

A baba que de vez em quando quebra apostador e teórico é tipo Holanda x Costa Rica. A laranja arrebenta com Robben, máquina que une arte e vigor, Sneidjer e um futebol de alucinação veloz. A Costa Rica surpreende, cheia de peladeiros típicos filhos do toque de bola. Parecem 11 meio-campistas natos.

A Copa do Mundo afunila na expectativa do que todo mundo espera: Brasil x Alemanha ou França e Argentina contra a Holanda, revanche de 1978, que nem o golaço demolidor de Dennis Bergkamp 20 anos depois, amenizou.

A Copa do Mundo não perderá nada se ao fim do sábado a tabela marcar Colômbia contra Alemanha ou França, Bélgica versus Costa Rica. Camisa é pra ser vestida. Passado, a se recordar, bebendo. Sozinhos, em tempos imprevisíveis, não garantem caneco.

 

Compartilhar: