Sempre o prazer

O coletivismo tacanho e quase pelego do futebol anda irritando tanto quanto o trânsito em Natal. Pelego, para os moçoilos,…

O coletivismo tacanho e quase pelego do futebol anda irritando tanto quanto o trânsito em Natal. Pelego, para os moçoilos, é sindicalista falso, mazela dos tempos da Ditadura do Estado Novo. Ainda sobram resquícios de remanescentes da espécie na capital cujo desenvolvimento alguns medem pela quantidade de picapes e engarrafamentos.

Aos adeptos do simplismo da marcação em nome da brutalidade horrorosa num campo de futebol, meus desejos de duas horas e meia parados ouvindo piada de forrozeiro de FM em alguma das avenidas superlotadas da metrópole nervosa e fugidia do seu ritmo natural.

Viva o Barcelona, meu salvador, que ontem nada fez de extraordinário. O razoável do Barcelona é o maravilhoso impossível para os comuns. Já o extinguiram, determinaram seu fim, encerraram seu ciclo, despacharam-no para as profundezas do arquivo morto da arte nobre de fazer bonito o que belo deve ser por obrigação.

Salve Messi, marcado por exércitos e rebelde indomável até resolver disparar num lance para fugir de um brutamontes e dele sofrer um pontapé obtuso dentro da área.

Depois, cobrar um pênalti ao sabor dos usufrutos amores e abrir caminho para outra classificação na Liga dos Campeões. Salve o Barcelona dos toques e jeitinhos, deslocamentos, envolvimento, balé calando funerais táticos.

O jogo contra o Manchester City conseguiu atenuar meu mau humor inexplicável da terça-feira, o dia mais deslocado da semana chamada de inglesa. A terça-feira é carrancuda igual a um cabeça-de-área sem criatividade, não sabe bem o que faz dentro de um espaço de sete dias. Nem é a segunda burocrática nem uma quarta-feira ligando as primeiras luzes a acender o fim de semana.

A doutrina dos homens transformados em máquina é cultuado em ritual fundamentalista pelos narradores e comentaristas. Nem o ótimo e versátil argentino Juan Pablo Sorin, brilhante lateral e meio-campista do Cruzeiro escapa.

Sorin jogava de um modo totalmente oposto ao conteúdo de suas análises. Exaltou a retranca aquartelada do Manchester City, atuando em seu estádio, de forma covarde, armando um cinturão em torno do meio-campo flutuante e voador ao chão dos catalães.

A fissura pelo pragmatismo desprezível que impõe a tese medrosa de que “é melhor ganhar jogando feio do que perder mostrando ofensividade” contagia os nerds da mídia, capazes de considerar e adjetivar com exaltação abismada a obsessão de um time em distribuir botinadas e aguardar, sorrateiro, mísero contra-ataque para – se possível -, encontrar brechas e fazer um gol.

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O Manchester City apresentou um esquema de (anti) jogo quase gêmeo do que foi utilizado contra os espanhóis pelo Brasil na decisão da Copa das Confederações. Perseguição cerrada e aproveitamento do descuido alheio.

Aquela vitória, insisto, pode enganar muito ufanista. A Espanha aprendeu com os 3×0 e apanhou por soberba. Veio ao Brasil apenas farrear, deitar e ser roubado por putanas de oitava divisão.

O que decidiu o duelo do ano passado foi o brilho individual de Neymar, ainda sem encontrar o rumo e o prumo na constelação comandada por Messi e articulada por Iniesta e Xavi, os tenores da imaginação.

Neymar entrou somente aos 28 minutos do segundo tempo e quando conseguiu deixar de ser fominha um pouquinho, pôs o lateral Daniel Alves de frente para o goleiro e frio para fazer o 2×0 tranquilizador.

Claro que Daniel Alves não joga na seleção o que joga no Barcelona pois na seleção não joga quem joga no Barcelona. Simples, assim. Ou alguém vai querer que ele inicie uma tabelinha serial, uma sequência de triangulações, giros coletivos ou enfie bola venenosa para Hulk ou Jô? Nunca.

A globalização da mediocridade elegeu como uma ditadura sufocante, um caneludo, De Michelis, decretado exemplo de modernidade. Qualificações: marcador, obediente e fechador de espaços, um porteiro de quatro linhas em relva. O castigo foi exemplar. De Michelis cometeu uma falta infame sobre Messi, porque jamais iria pará-lo na categoria, no desarme sem violência.

Entre a canção e o berreiro, a melodia. Entre o craque e o enganador, o verdadeiro. Do futebol feiticeiro. Ah, Fernandinho, o novo leão de chácara queridinho do técnico da CBF. Aguardemos Fernandinho, em sua perseguição maratonista a quem cria, a quem organiza uma doce bruxaria.

Sobre Fernandinho, as imagens me poupam. Nem com Hey Jude, dos Beatles, a trilha sonora oficial e sempre do Manchester Stadium, é possível tirar dele uma partitura agradável ou um retratinho 3×4 de bom futebol. De futebol artístico, afinal ganhar é um exercício de prazer. Sempre será, enquanto houver alguém de intimidade sexual com a bola.

 

Gilmar no time

O atacante Gilmar é o mais talentoso jogador do ABC. É importante ser titular jogando com Lúcio Curió. Mas o técnico Roberto Fernandes decide. O jogo contra o Alecrim tem importância para o alvinegro como chance de reabilitação de um começo de ano turbulento.

 

Somália

Se o ABC conseguir ajeitar suas laterais, o lugar de Somália é no meio-campo, onde tem muito mais futebol que as atuais opções do treinador.

 

Protesto

Sérgio Fraiman, do blog Vermelho de Paixão, me informa: O ex-presidente do América Eduardo Rocha aproveitou a reunião da Liga do Nordeste para protestar informalmente ao presidente da Federação Pernambucana de Futebol, Evandro Carvalho, sobre atuação do árbitro Cláudio Luciano Mercante Júnior no jogo do último sábado no estádio Rei Pelé contra o CRB.

 

Vídeo

O dirigente solicitou o enviou do vídeo da partida para avaliação junto com o departamento de arbitragem da federação. Haverá reclamação formal à CBF, que, claro, nada fará.

 

Há 30 anos

De tanto enfeitar jogadas, perder gols impossíveis e menosprezar o adversário, o ABC deixou de golear o Ferroviário (CE), empatou em 0×0 e irritou a torcida como em poucas tardes de domingo.

 

Abusou

Estava entre os 11.178 torcedores chateados no Estádio Castelão (Machadão) naquele 19 de fevereiro. Jogo válido pela Taça de Ouro, correspondente à Série A. Uma semana antes, o ABC havia surrado o Ferrim em Fortaleza por 3×0 e abusou em casa.

 

Times

Os times no 0×0 do rebolado. ABC: Rafael; Vassil (Saraiva), Joel, Sérgio Poti e Dudé; Baltasar, Dedé de Dora e Marinho Apolônio; Curió, Silva e Severinho (Neinha). Ferroviário: Dário; Laércio, Carlão, Nilo e Birungueta; Doca, Edson e Betinho; Sussu, Jorge Veras (Dario) e Escurinho (Esquerdinha).

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