Sertão de Espinho e de Flôr

Quando algum dia um espírito apurado olhar o sertão literário na história intelectual do Rio Grande do Norte, vai encontrar…

Quando algum dia um espírito apurado olhar o sertão literário na história intelectual do Rio Grande do Norte, vai encontrar seis grandes sertões monumentais: de Felipe Guerra e Eloy de Souza, Câmara Cascudo e Oswaldo Lamartine, e duas visões singulares: o sertão poético de Othoniel Menezes; e o sertão epistolar de Paulo Bezerra. Aquele, na poesia, o sertão homérico, mas renascido no chão estético da caatinga; este, o sertão coloquial e idílico, perdido na infância, relembrado e revivido com saudade.

Encoberto pela força da memória popular – a Serenata do Pescador, de versos plangentes, é uma canção que atravessou o século vinte, dos modinheiros aos que a sabem de cor até hoje – o sertão poético de Othoniel espera consagração. Suas cuidadosas anotações etnográficas, antropológicas e sociológicas pedem uma introdução técnica para seu uso didático. Só assim, os jovens estudantes poderão conhecer, e salvar, na memória da estética coletiva contemporânea, o sertão de nunca mais de Oswaldo Lamartine.

Do ‘Sertão de Espinho e de Flor’, de Othoniel, Menezes, ícone da nossa bibliografia sertaneja, há nestas estantes três exemplares: dois da primeira edição, um encadernado e o outro em brochura, ambos saídos dos prelos tipográficos do Departamento de Imprensa do Estado, 1952, na sua impressão singela; e um terceiro, encadernação cartonada, recoberta de linho, impressa em letras azuis, original do ‘Dep. de Imprensa’ e sem o subtítulo: ‘Aspectos do panorama físico e social dos sertões norte-riograndenses’.

É de um dos primeiros que conto a história. Tem a encadernação gasta pelos anos de manuseio, dorso em couro, gravação e douração a fogo, daí legível até hoje. Pertenceu, a partir meados de 1968, a Oswaldo Lamartine de Faria, um presente de José Augusto Bezerra de Medeiros, no Rio. Quatro anos depois, como data o bilhete manuscrito que escreveu no próprio exemplar, manda para um seu parente velho, vivente dos sertões do Seridó, com nome austero e solene como a terra: Ramiro Monteiro Dantas.

Era um andarilho, Senhor Redator, a percorrer as estradas do sertão seridoense, riscando com o couro cru de suas alpercatas reiunas o chão áspero dos caminhos velhos. Entre uma fazenda e outra, pedindo rancho aqui e ali, onde amansava a rede até retomar a sua caminhada sem fim. Vivia como um Quixote, levando como nobreza pessoal um ‘Dantas’ no nome, austero e senhorial, única nobiliarquia a justificar a razão de sua inteligência que causava espanto no copiar das fazendas antigas, feiras e ruas.

Andava sozinho e era conhecido de todos. No seu bornal, levava apenas, numa bagagem leve de viajante, seus documentos pessoais, alguns livros que anotava com letra segura e perfeita, e uma garrafa de cachaça. Sabia tudo. Dos astros do céu aos mistérios da terra mais funda. Dos bichos e dos homens. Dos perigos do mundo e dos castigos de Deus, a quem rezava, num murmúrio de prece, o ofício de Nossa Senhora, longe da latomia das beatas enchendo de rezas as igrejas nas trindades do anoitecer.

Conheceu Oswaldo na sombra do alpendre da Fazenda Ingá, no Acari, com suas portas abertas para o Bico da Arara, lá longe, nas serras que recortam o azul. Os dois ainda jovens. Dali por diante, e sabendo do seu saber curioso, o parente ilustre e distante não mais deixou de mandar livros do Rio, e sempre sobre o sertão. Com memória forjada nos lajedos, foi informante de tudo, dos hábitos, costumes e tradições, repetindo no microcosmo do sertão a cosmogonia magistral do saber cósmico e ancestral.

O volume que pertenceu a Oswaldo nunca voltou às suas mãos. Fora presente dado a Ramiro. Oswaldo, ainda vivia na Fazenda Acauã, de onde saiu para esperar a Moça Caetana na solidão de um quarto de hotel, quando mostrei o exemplar. Alisou, emocionado, como se fosse um bicho de estimação. Viu sua marca, o OLF no dorso de couro vermelho, o índice das expressões sertanejas com sua letra e, na página que Othoniel Menezes dedica o livro a Café Filho, escrito assim: ‘Ramiro Monteiro Dantas, Fazenda Saudade, Serra Negra do Norte, 4 de fevereiro de 1992′. Encontrei num sebo da Paraíba. Como se cumprisse a lenda de muitos séculos quando ensina que cada livro espera pelas mãos que o desejam.

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