Sessentão de saudade

A semana passou e poucos registraram os 60 anos de nascimento do gênio Sócrates, Brasileiro de nomenclatura e prática de…

A semana passou e poucos registraram os 60 anos de nascimento do gênio Sócrates, Brasileiro de nomenclatura e prática de futebol em filosofia. Sócrates nasceu em Belém do Pará no dia 19 de fevereiro de 1954, ano de referência natural da maioria dos craques que iluminaram o planeta na bela e trágica seleção brasileira de 1982.

Sócrates morreu em dezembro de 2011 e foi sepultado num domingo à tarde, chuva pranteando uma rodada de futebol sem o encanto produzido pelo magro de olhar semicerrado, sorrisos rasos e inteligência catedrática.

Quando ensaiava seus primeiros sonetos de exuberância pelo Botafogo de Ribeirão Preto, Sócrates selou o conceito do futebol conjugado à diversão e a aparente irresponsabilidade.

O jogo era lúdico para o sujeito esquálido e de ideias políticas ousadas. A Medicina seria o futuro que germinou no Corinthians onde uma torcida passional e um glacial de jogadas fantásticas casaram sem aliança nem formalidades cartoriais. Sócrates significava a Fiel projetada em seus sonhos de igualdade e justiça.

Sócrates pensava, antes e mais rápido que os seus companheiros que jamais tiveram massa cinzenta para perceber que pertenciam a uma classe, preferindo o individualismo financeiro ao bem coletivo pregado pelo Doutor de chuteiras estetoscópicas.

Sócrates parecia a Pantera Cor de Rosa em campo, desfilando malandragem de chanceler. Ao driblar dois e três holandeses do Ajax, em 1979, permitiria ao torcedor do Brasil reviver uma dupla completa por efeitos, virtudes e defeitos de cada componente.

Zico e Sócrates foram a magia oferecida, de graça, aos meninos peladeiros e apaixonados na fase final dos anos 1970, logo após o fracasso retumbante do feio futebol derrotado sem perder um só jogo na Copa do Mundo de 1978.

A cada gole repetido, Sócrates sorvia o desencanto pelo universo a que pertenceu como anormalidade retumbante. Era um intelectual, um contestador, um literato que não se limitava às páginas esportivas de jornal. Dirigia peças de teatro e escrevia brilhantes ensaios em revistas e jornais.

Na primeira internação grave de Sócrates, cometi um texto sobre a delícia de ser humano e gênio da bola que era o Magrão. Sobre a sua capacidade de enxergar o futebol como objeto de alegria, sua elegante conformação na derrota mais dolorida da minha geração, contra a Itália em 1982.

Citei, em reduindância, sua marca registrada: O calcanhar. Calcanhar que, no seu gestual, jamais atrasou um jogo. Acelerou. Tornou ofensivo, foi coroação de massa na arquibancada com lindos gols. Sócrates era fino. Na compleição física e no estilo. Um lorde, poderia jogar com aquelas roupas solenes que os maestros de orquestra costumam usar.

Sócrates, o politizado e inteligente acima da média. Se antevia , as jogadas em campo, se antecipava, visionário e quixotesco, à sua turma excelente no campo e limitada fora dele. Com um sorriso morno, resignado, também pintado de ironia, nunca deu a mínima para quem o chamava de vagabundo e comunista por formar a Democracia Corintiana.

Respondia com gols. Bailava pelo Morumbi, Pacaembu, no Ex-Maracanã, Mineirão, Beira-Rio, no Sanchez Pizjuan, Benito Villamarín e no trágico Sarriá, na Espanha, por onde desfilaram os deuses de 1982. Sócrates estava mais para um senador romano de tanta eloquência nos seus toques. Nos dribles que vinham do oco do seu raciocínio privilegiado.

Tive uma chance de conhecer Sócrates pessoalmente. Foi em janeiro de 1982, quando a seleção brasileira disputou sua única partida em Natal. No Castelão(Machadão), morto umas duas semanas antes de Sócrates. Assim como Magrão, o estádio agonizou muito até ceder.

Sócrates nem jogou. Sofreu uma contusão no tornozelo e foi substituído por Renato Pé-Murcho, do São Paulo, autor do segundo gol na vitória por 3×1 sobre os alemães orientais. Paulo Isidoro e Serginho Chulapa fizeram os outros.

Aos 11 anos(faria 12 em agosto), costumava bater de calcanhar sozinho, na parede do meu quarto, com uma bola dente-de-leite. Jogava tão mal que o meu toque de calcanhar jogava a bola para a frente, para os lados, jamais tomava o rumo certo.

Iria aproveitar meu encontro com Sócrates, preferido do meu pai comentarista pela convergência de suas teorias esquerdistas, e perguntar qual era o seu truque. Que jamais existiu. Sócrates produzira a fórmula e rasgara. E o menino aprendeu que os talentos natos não se copiam. No máximo, são imitados(mal).

A morte não é nada normal nem a ela a dignidade se adapta. Nunca vou me acostumei a não ter Sócrates. Saber que ele nunca mais vai reaparecer na TV, na repetição sagrada dos seus toques ou bebendo sua cerveja ritual.

Ver de novo na imaginação Brasil x União Soviética, 14 de junho de 1982, Sócrates driblando um, dois e soltando um foguete daquelas canelas delgadas de gazela. Tenho muitos jogos inteiros de Sócrates, em DVD. Paliativos tão meros.

Chorar ele já me fez e muito ao ir embora em dezembro de 2011. Sócrates faz falta. Traz saudades e esquecimentos convenientes. Alguns aplicaram-lhe punhais covardes ao chamá-lo de bêbado, depois de morto. Sócrates é um sessentão que não foi. Sessentão de saudade.

 

Curió, a atração

O clássico de amanhã tem uma referência: o artilheiro Lúcio Curió. Ele motiva a torcida do ABC e causa temor na do América, onde foi ídolo.

 

O goleiro

Clássicos já destruíram reputações consolidadas e consagraram duvidosos. Andrey, machucado, não estará no gol do América, certo, mas nem por isso é justo crucificar por antecipação o reserva Rafael Roballo.

 

Segurança

Serão 600 PMs no time armado pelo Comandante Araújo. Segurança privada não mete medo em marginal e na hora do sapeca-iaiá, é o bastão e mais a farda que botam a malandragem nos trilhos.

 

O primeiro

O primeiro ABC x América da Arena das Dunas será bem diferente do primeiro ABC x América do Castelão, quando compareceram 40 mil pessoas de todas as classes sociais. Pobre em arena precisa ser detectado por radares da Nasa.

 

Editores de Moda

O pessoal da área de moda no jornalismo chique poderia conferir o desfile de roupas e adereços caros no clássico VIP.

 

Wallyson

Rádio Globo do Rio de Janeiro começou a queimar Wallyson.

 

Sábado

Vontade danada de escutar Clara Nunes, cantando Morena de Angola. Com seus chocalhos charmosos tropicais. Clara, você foi tão cedo.

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