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Sexo nada frágil

Data: 15 janeiro 2013 - Hora: 17:07 - Por: Conrado Carlos

Todos os dias, ao sair de casa, em Candelária, Bethe Correia tem um adversário mais forte, resistente e escorregadio que os companheiros de treino de MMA, na academia Pitbull Brothers, no conjunto Pirangi: o preconceito contra uma mulher que pratica um esporte cujo objetivo é ver quem domina a (o) outra (o) fisicamente com o auxílio de chutes, socos, quedas, chaves de braço e estrangulamentos. Com o fenômeno UFC, uma geração de apaixonados por artes marciais lota bares, restaurantes e casas de amigos para acompanhar combates que extrapolam a emoção esportiva com sua produção hollywoodiana e carga dramática de espetáculo. Ex-praticante de kung fu, a paraibana de Campina Grande, radicada em Natal há quatro anos, abandonou o trabalho no setor contábil da empresa de engenharia do marido para se dedicar de forma exclusiva aos treinamentos.

“Sofro preconceito todo dia. As meninas acham que sou violenta e resolvo tudo na porrada, acham que vou bater em alguém. Mas isso não existe. Sou profissional. Escuto aquele tipo de piadinha sobre chamar a Bethe quando a coisa esquenta, como se eu fosse resolver o problema por ser lutadora”. Aos 28 anos, ela treina MMA desde 2010, como uma espécie de primeira infância da modalidade. “A mudança [do kung fu para o Mix de Artes Marciais] foi muito rápida. A maioria dos atletas treina há muito tempo, alguns desde menino. Como já comecei tarde, tenho que correr contra o tempo e me dedico de corpo e alma”. O marido, tenista amador sem ligação com lutas, incentiva. “Ele me dá muita força. Não tenho do que reclamar. Nunca interferiu na minha escolha e até me cobra quando falto um treino”.

Por outro lado, pais e irmãos pensam diferente. Ver a filha machucada, em um ambiente de predominância masculina, com a agressividade de matéria-prima, foge do conceito do que é razoável para os progenitores. “Queira ou não, é violento. Contusões acontecem tanto nos treinos, como nas lutas. Minha família é toda contra. Mas isso já melhorou. Hoje eles aceitam minha escolha, e as vitórias têm ajudado”. Foram três, em três confrontos. A última delas, em outubro passado, no ginásio Nélio Dias, na zona Norte. Após três rounds de cinco minutos, os árbitros decidiram em favor de Bethe, para lamento de sua oponente, Elaine Albuquerque. “Meu forte é trocação”, que na gíria do meio significa lutar em pé, olho no olho, sem agarrar, feito Anderson Silva em um dia inspirado.

A preocupação da família ganhou um novo elemento com a cirurgia no nariz, realizada ano passado. Ela fraturou em um treino, aguardou poucos dias pela melhora e aceitou lutar ainda debilitada. Logo nos primeiros movimentos do combate, foi acertada no ponto vulnerável, o que causou um sangramento preocupante. “Nesse dia, eu lutei com a alma. Pensava que não ia estancar nunca”.

Como todo esporte tem sua malandragem, gases e algodão entraram na mágica do treinador, e Bethe viu a narina transbordante ser contida ao final de cada round. “Amadores se machucam mais. As pessoas veem sangue e ficam logo desesperadas. Mas nós somos treinados para isso. Sabemos bater e apanhar também”. São, em média, cinco horas por dia de treinamentos, que misturam jiu jitsu, wrestling [algo entre a luta livre e a greco-romana], muay thai e musculação.

Com 57 kg, distribuídos em 1,65m, Bethe Correia recebeu vários contatos de promotores em busca de seus serviços neste primeiro semestre de 2013. A escolha sairá de conversas com professores e análises das propostas, que englobam adversários, nível do evento e possível retorno para a carreira. “Só sei que quero lutar no mês que vem”. A troca do sertão paraibano pelo litoral potiguar manteve uma barreira que emperra o desenvolvimento do esporte na região: o patrocínio. “É a parte mais complicada. Aqui não apoiam muito. Ainda existe aquela ideia de que MMA é briga de rua”. Do próprio bolso ou com a ajuda do marido, sai o dinheiro para arcar com alimentação, suplementos e material para sustentar uma rotina puxada, interrompida com breves incursões pela praia, cinema ou restaurantes. “Quando tenho uma folguinha”.

Outra mulher que aposta no MMA como fonte de renda em 2013 é a jovem Maria Larissa Ribeiro. A natalense de 18 anos terminou o Ensino Médio e pretende cursar educação física, como plano B de sua vida para as próximas temporadas, pois sua prioridade já está definida: “Meu plano A, agora, é o MMA. Quero lutar muito para pagar minha faculdade com meu suor. Ou eu passo a viver disso, ou me dedico quatro anos em uma nova profissão. Como já estou três anos treinando direto, não quero perder esse investimento que fiz”. Com a faixa azul de jiu jitsu da academia Kimura Nova União aguarda pela estreia oficial, depois de uma luta de apresentação em um evento fechado e promocional.  Segundo seu professor, Jair Lourenço, “ela tem muito potencial”.

A academia tem em torno de cinquenta mulheres que pisam no tatame todos os dias em busca de conhecimentos de defesa pessoal, condicionamento físico ou sonhos profissionais. Caso de Larissa. “Elas, apesar da musculatura mais frágil, o que aumenta o risco de lesões, são mais competitivas. Mulher tem mais energia e se doa mais nos treinos”, confirma Jair. Fã da lutadora Cris Cyborg e também de vários colegas de Kimura, como o campeão do UFC, Renan Barão, e também atleta do evento norte-americano, Rony Marques, e os tarimbados Jussier ‘Formiga’ e Jorge Rodrigues, Larissa está pronta para o desafio.

Entre visitas ao salão de beleza de uma amiga, “mas não sou bonita”, onde ajuda no papel de manicure e cabeleireira, e rápidos mergulhos no mar da praia do Forte, por ser perto de sua casa (Ribeira), Larissa reflete sobre o passado e a condição de recém-saída da adolescência. “Eu não bebo, não fumo e não saio para festa. Sou evangélica, mas não vivo na igreja. Vou quando sinto necessidade. Eu morava em Cidade Nova e lá todas as minhas amigas saiam muito. A maioria engravidou e nenhuma estuda mais. Não tive uma adolescência como elas. No réveillon, por exemplo, eu treinei e fiquei com a família. No Carnaval será do mesmo jeito”.

Como jogadoras de futebol, décadas atrás, ela briga para estabelecer um tipo de esporte que caiu no gosto do brasileiro – o contrato de quase R$1 bilhão assinado pelo UFC com a Rede Globo foi a prova dos noves, mas que engatinha quanto ao profissionalismo na região Nordeste. Outrora tratada como ‘a luta bizarra da noite’, o choque entre mulheres em cima de um ringue ou octógono conquista a simpatia de quem largou valores culturais obsoletos para apreciar as gladiadoras da Era Moderna, como ato final da revolução feminina iniciada nos anos 1960.

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