Show de Simone em Natal: Se você ficar em casa vai se arrepender, pode apostar

Poucos artistas do mainstream se divertem tanto em cena como ela. São 41 discos e infinitos palcos, em 64 anos de uma vida intensa e cheia de momentos marcantes

conr8

Conrado Carlos

Editor de Cultura

Simone é daquelas artistas brasileiras que parcela expressiva de minha geração, quando adolescente, aprendeu a odiar com a intensidade de todos os decibéis que o Iron Maiden, o Metallica e o Slayer puderam nos fornecer – assim como quase tudo da MPB. Doutrinados pelo cinema e pela televisão, a coisa do patropi, da tropicália, do banquinho e violão virou inimigo mortal para quem vivia com a mente na Califórnia ou nas cidades industriais da Europa e dos Estados Unidos. Aí veio a desaceleração dos trinta, quarenta anos, e fomos levados, naturalmente, em direção ao sossego auditivo proposto por gente na ativa durante o mesmo tempo que tínhamos de vida – de Assis Valente à Frank Sinatra, de Novos Baianos à Talking Heads, ficar preso ao thrash e ao death metal condenou muita gente à ignorância perpétua. Hoje, o brega, o samba e até Djavan merecem minutos de atenção.

E também Simone. “Peraí, né, grande, você tá exagerando!!!”. A baiana com mais de 40 anos de carreira é respeitada por público e crítica sem fazer esforço, sem usar a sexualidade como atrativo, como boa leva das cantores do momento. Então por que manter a recusa por um dos grandes nomes do mercado nacional sem o mínimo contato? Sugiro uma breve passada pelo homônimo álbum de estreia da ex-jogadora de basquete, antes de cravar alguma definição depreciativa. Ou melhor: vá ao Teatro Riachuelo, depois de amanhã (25) e veja seu novo show, que tem feito barulho por onde passa. “É melhor ser” estreou ano passado no Rio de Janeiro e desde então tem enchido casas de espetáculos Brasil afora. É o mesmo título de seu último disco, agora à disposição dos natalenses às 21 horas de uma quinta-feira cujo maior atrativo é a semifinal da Liga Europa entre Benfica e Juventus, em Lisboa.

Com canções de compositoras importantes em sua carreira, como Rita Lee, Joyce, Dona Ivone Lara, Fátima Guedes, Joanna, Marina Lima e Sueli Costa, o repertório do show agrada iniciantes e iniciados na trajetória iniciada em 1973. À época, “Morena”, de Dalto e “Tudo o que você podia ser”, de Lô e Márcio Borges, também gravada com sucesso por Milton Nascimento, com metais suingados, caribenhos, ao gosto de Simone, que fez em Cuba, em 2011, já mostravam o que aquela jovem de 24 anos tinha para apresentar. Passadas quatro décadas, ela corrobora o que disse Fernanda Montenegro: “Uma pessoa é o que sua voz é”. Para quem estreou com Ivan Lins na lista de temas interpretados, nada mais tranquilo que cantar o que cantou algumas das mulheres mais significativas da música brasileira – números de cânones femininos é o que ela oferecerá para curiosos que gastarem R$ 120,00.

Tão distante das capitais, Natal tem vivido um fluxo interessante de shows, nos últimos meses. Reclamar do isolamento geográfico, que costumava limitar atrações, destoa da oferta de atrações que nas principais casas de espetáculos. Goste ou não de Simone, ela se insere no contexto histórico da MPB. Caso o leitor discorde desta nota com cara de convite, restam as resenhas cervejeiras e as notas apressadas abaixo. Se concordar com minha opinião, antecipe o lazer do final de semana e aposte na vocalização festiva e emocionada que Simone empresta a todo tema que interpreta. Poucos artistas do mainstream se divertem tanto em cena como ela. São 41 discos e infinitos palcos, em 64 anos de uma vida intensa e cheia de momentos marcantes, ora dançantes, ora melancólicos. Depois de amanhã, você tem a oportunidade de pagar para ver e julgar sem amarras.

Compartilhar: