Síndrome do Tabu

Os jogadores do Santos parecem hienas em coro. Estão rindo, rindo alto, enquanto deixam o gramado do Estádio do Pacaembu…

Os jogadores do Santos parecem hienas em coro. Estão rindo, rindo alto, enquanto deixam o gramado do Estádio do Pacaembu ao fim da noite de 6 de março de 1968. Junto ao alambrado, pulando, histéricos, torcedores do Corinthians gritam sem parar, olhos arregalados e a fúria dos ensandecidos: “Um, dois, três, o Santos é freguês, um, dois, três, o Santos é freguês.”

Vestindo as camisas brancas que assombravam o mundo, os santistas custavam a acreditar no cenário grotesco. Os torcedores, trêmulos, provocavam após a vitória de 2×0 do Timão, gols dos atacantes Paulo Borges e Flávio Minuano. Repetindo: “Um, dois, três, o Santos é freguês”.

Pelé, Toninho, Carlos Alberto Torres, Edu e Lima, os principais astros do time pararam para escutar e acreditar no teatro hilário. Sim, os corintianos tripudiavam por ter ganho uma partida do Campeonato Paulista depois de 11 anos e 22 confrontos.

“Ganhávamos tudo e os fregueses éramos nós. Até estávamos tristes com o resultado, mas depois caímos na gargalhada”, afirma Pelé no documentário sobre as principais conquistas do clube. Pelé ri muito também no filme.

Apanhar demais, quando não acostuma, gera o ridículo. No caso do Corinthians, vítima de gozações ferinas, de passeios homéricos na grama e de traumas notórios, como as neuroses do seu craque Roberto Rivelino, a tragicomédia acabou sendo a reação.

No jogo seguinte, um mês e doze dias depois, a Fiel torcida do Corinthians voltou a gritar após a partida da volta, realizada no Morumbi. O Santos, sem o menor esforço, ganhou de 2×0, gols do centroavante Douglas Franklin e de Pelé, numa cabeçada dentro da pequena área, mostrada em crueldade detalhada pelas lentes do Canal 100, o resumo dos jogos nos cinemas do passado.

Pelé deu socos no ar, comemorou com seus companheiros e voltou a ficar pasmo, como se um malandro espetacular de 28 anos e no clímax da forma, pudesse estranhar algo naquela altura de sua carreira, com um bicampeonato mundial pela seleção e outro pelo Santos.

É que a torcida do Corinthians gritava da arquibancada, algemada pelo resultado anterior: “É Paulo Borges! é Flávio! cadê o tabu? cadê o tabu?” Deve ter sido muito difícil torcer contra o Santos nos anos 1960. Era preciso apelar ao ridículo para sobreviver. Ainda houve outro jogo em 1968, pelo Roberto Gomes Pedrosa, o Brasileirão da época.

Os santistas mantiveram a naturalidade dos campeões entediados enquanto os rivais forçavam a barra, na cegueira redundante da paixão: “É tira-teima, é tira-teima! Vamos ver quem é o melhor!” Deu Santos, outra vez, Toninho marcou o primeiro e Pelé desempatou, só por perversidade, no finalzinho. A Fiel chorou e na segunda-feira, nas cantinas do Brás, voltava a falar nos 2×0 de março.

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Tabu é parecido com a Síndrome de Estocolmo (aquela em que a vítima fragilizada pelo sequestro se afeiçoa ao bandido), quando o refém não é teimoso feito os corintianos.

Na década de 1970, eles devolveram em menor escala e impuseram sete anos de supremacia sobre o Santos, com Totonho vestindo a camisa 10 do Rei. O Corinthians, não é um time com torcedores e sim uma torcida movendo 11 jogadores onde estiverem.

Os caras tiveram paciência heroica para suportar 23 anos sem ganhar um Campeonato Paulista. O tabu do Santos correu no meio do sofrimento, encerrado apenas em 1977, no gol sofrido do meia Basílio contra a Ponte Preta (1×0).

Aquele gol expulsou sapos e bruxas de perto do Timão que voltaria a ser um clube normal, ganhando quando deveria e perdendo partidas e títulos em circunstâncias normais do esporte. Mas aqui e acolá leio, escuto ou vejo um fanático lembrar do “petardo do Paulo Borges nos 2×0 do tabu”.

Minha adoração pelo futebol de Zico tem muito de respeito pelo seu talento e uma parcela inconsciente de dor pelos fracassos impostos por ele e sua turma ao Vasco da Gama. A pecha de vice nasceu sofrida nos anos 1970.

Recordo com precisão calculista as vitórias escassas e fundamentais, como a dos 4×2 de 1979, comandados por Roberto Dinamite e uma caravela de náufragos, entre os quais o ponta-direita Catinha, que naquela tarde deu um baile no fantástico Júnior Capacete.

Papai, muito mais passional, pediu Catinha na seleção e praguejou o técnico Cláudio Coutinho, a quem já odiava por questões ideológicas. De Catinhas, Zandonaides, Marquinhos Cariocas e Dudus, surgiam os lances de resultados improváveis contra uma máquina rubro-negra ajudada gentil e frequentemente pela arbitragem.

Tabus inflamam na hora da provocação do ganhador. O América está consolidando superioridade impiedosa sobre o ABC desde 2012. Não, a vitória por 1×0 num torneio tapa-buraco no ano passado não vale. O torcedor de verdade sabe que foi inexpressiva.

O torcedor autêntico admite que é duro perder clássico quando se é mais fraco do que o rival e no finalzinho. E sofre ao perceber, em sua convicção emocional, que o seu time parece estar se deixando acostumar. Como o sequestrado que se apaixona pelo raptor.

 

Contas

Pelas contas em jogos oficiais, de Brasileiro e do Estadual, o América mantém invencibilidade de 12 jogos no clássico. A vitória alegada pelo ABC é o 1×0 durante torneio realizado em meio à Copa das Confederações no ano passado.

Pé no chão

O América está bem, o técnico Oliveira Canindé arrumou o time, é superior ao ABC, mas o futebol gira como a roda da fortuna. Encarar com alegria e sem arrogância. Empáfia joga contra quem a exibe.

Culpado da hora

Como sempre vem ocorrendo, o ex-técnico Roberto Fernandes parece o culpado da vez escolhido no ABC. E ele reagiu com palavras duras em rede social, chamando um desafeto de “escroque” e insinuando forra. Deveria apenas ter citado nome.

Já foi

Culpar Roberto Fernandes na ausência é atrevimento e comodismo. Ele falhou, mas não agiu sem respaldo superior nas contratações feitas. E, no ano passado, livrou o ABC do rebaixamento.

Coincidência

O desabafo do ex-técnico, hoje no Remo, coincide com as palavras do sucessor, Zé Teodoro, que afirmou não contratar ninguém com base em “DVD” para justificar a falta de aproveitamento do lateral Xaro. Trazido quando Fernandes ainda estava no ABC.

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