Sorteio e lembranças

Quando o jornal for às ruas, os catedráticos de televisão estarão concentrados em entrevistas e análises profundas baseadas em fundamentação…

Quando o jornal for às ruas, os catedráticos de televisão estarão concentrados em entrevistas e análises profundas baseadas em fundamentação lógica na definição dos grupos da Copa do Mundo do próximo ano, em sorteio num luxuoso resort na Costa do Sauípe na Bahia. Lógica em futebol é palpite em casamento.

A Fifa, antes, tratou de expulsar hóspedes, proibir água de coco – possivelmente por considerá-la parecida com um artefato terrorista e de limitar o consumo de cerveja à da marca patrocinadora. Joseph Blatter veio assumir o país na prática enquanto Dilma Rousseff cuida dos preparativos para a campanha. Um é trampolim da outra.

À exceção do veterano Alberto Helena Júnior, no SporTv, e da turma experiente comandada por Juca Kfouri e José Trajano na ESPN Brasil, estejamos preparados para um festival de besteiras. A velha guarda privilegia a discussão do jogo no sentido amplo, da técnica reivindicada. A moçada é o resultado aos trancos, barrancos e vernáculo de técnico de prancheta.

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Há um jovem de bom texto perdido para o deslumbramento na telinha por assinatura da Globosat: André Rizek, revelado na Revista Placar, no começo da fase coloridona e parecida com a Contigo, aquela das fofocas dos artistas das telenovelas.

Rizek consegue dizer bobagens como achar qualquer leão de chácara de chuteiras incapaz de um passe de 10 metros “um baita jogador”. Chama o velho e bom passe de “assistência”, cópia do basquetebol norte-americano que não imita nada de país algum e se mantém invencível conservando sua cultura.

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Aguentem simulações gráficas e virtuais de esquemas táticos semelhantes a jogos de videogames. No futebol eletrônico, me parece, há mais jogadores habilidosos que no de carne e osso atual, de apenas uma estrela: Lionel Messi.

Há poucos de ótimo nível, como Cristiano Ronaldo, os espanhóis Iniesta, Xavi e Fábregas, o francês Ribery, os alemães Muller e Schweinsteiger, o holandês Robben e – com boa vontade pela recaída de cai-cai – Neymar e seus parcos quatro gols pelo Barcelona.

O festival incandescente de mídia é de provocar gaitada de risada comparado aos preparativos para a primeira Copa realizada por aqui, em 1950 e ganha pelo Uruguai, claro, por azar do Brasil e nunca por mérito dos vencedores. Brasileiros não perdem, os outros é que levam sorte. É da nossa humildade de farofa no futebol.

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O Brasil fez a festa em torno do Maracanã e praticamente implorou para que houvesse participantes. Completavam-se doze anos sem Copa por causa da Segunda Guerra Mundial que tirou de cena, de cara, potências como a Alemanha.

A Itália, a bicampeã de 1934 e 38 e parceira no nazi-fascismo, varrido do mapa pelos aliados, veio destroçada. Sua base, o Torino, morreu num desastre de avião dois anos antes. A FIFA teve que bancar a vinda da Azzurra, desmotivada e desclassificada na primeira fase.

No futebol, os efeitos foram devastadores no Brasil. A colônia italiana sofreu perseguição e seus vestígios foram arbitrariamente apagados na base do revanchismo. O Palmeiras, em São Paulo, e o Cruzeiro, em Minas Gerais, chamavam-se Palestra e acabaram rebatizados por ordens oficiais.

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A Ditadura do Estado Novo ficou com os Estados Unidos, mas tinha notórios simpatizantes do Eixo, como o chefe de Polícia e futuro senador Filinto Muller, morto no famoso acidente aéreo de Orly, na França, em 1973.

Não havia pote. Se o Brasil quisesse fazer espetáculo no sorteio, sacaria as bolinhas de dentro de uma caixa de fósforos.  Eram apenas 13 seleções e casos cômicos.  O Uruguai enfrentou apenas a Bolívia para chegar ao quadrangular final com Brasil, Suécia e Espanha.

A Celeste venceu por 8×0 e assim mesmo porque os bolivianos, que se não jogam nada hoje, imagine 63 anos atrás, entraram em campo somente quando lhes garantiram o pagamento do hotel. A dor do Maracanazzo poderia ser ainda mais aguda se o Uruguai tivesse chegado às finais por Wx0.

A Copa de 1950 foi um torneio. Só houve mesmo disputa no tal quadrangular. Antes dele, o Brasil, ainda sem o Mestre Zizinho, o maior antes de Pelé, goleou sem problemas o México e empatou com a Suíça no Pacaembu. Havia craques, mas os trapalhões eram parecidos com os atuais, porém muito menos espertos e distantes dos submundos financeiros.

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O Brasil jogou em São Paulo e, para evitar vaias no Pacaembu, o técnico e mandão Flávio Costa trocou quase o time todo, escalando uma seleção paulista que sofreu para não perder para o chamado “ferrolho”, esquema fechado dos adversários. O resto da história foi, está e será repetido até terminar a próxima Copa.

Em 1950, a vitória foi cantada antes, os brasileiros empurraram ônibus antes de chegar ao estádio, ouviram discurso de candidatos a presidente (Getúlio Vargas voltaria pelo voto), governador, deputado e vereador, fizeram 1×0, o Uruguai virou e a Taça Jules Rimet ficou com o capitão deles, Obdúlio Varella.

O triunfo saiu como noivo fujão para comprar cigarros e nunca voltou. Detesto nicotina, mas não sei se na época havia o tal do Derby, que dizem ser péssimo como o luto que ficou.

 

Flamengo desdenha Estadual
Flamengo vai disputar o Carioca com time de Juniores. Toda atenção para Libertadores. Certo.

Enquanto Timbó não vem
Roberto Fernandes deve estar pensando num nome de criação para o lugar de Júnior Timbó, que será operado e volta em seis meses no ABC.
 
Gols
Com Max, o Homem de Pedra, o América não tem motivos para se preocupar com a grande área como no começo de 2013.

Ponte Preta
A sina de Vasco paulista parece que vai prosseguir e o time campineiro caminha para vice da Sul-Americana.

Alecrim
O Conselho Deliberativo do Alecrim conta com a reeleição do presidente Anthony Armstrong na próxima segunda-feira. O time sub-20 campeão poderia ser a base no Estadual. Prestigiar a garotada.

Sapé
Lembram Jardson Sapé, aquele que veio mas não veio para o ABC? Está no Treze de Campina Grande com Leandro Campos.

Teto Salarial
Se o Bom Senso Futebol Clube não discute um teto salarial para evitar a falência geral dos clubes, deveria ao menos brigar por um piso mínimo decente para os jogadores anônimos do interior do Brasil. Os “Sem Série”.

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