Sucesso na Coréia do Sul e na Europa, “Por Favor, Cuide da Mamãe” emociona

Trata-se da história de mulher analfabeta e devotada que se perde da família no metrô de Seul; busca desesperada é carregada de culpa e arrependimento dos entes por frieza do passado

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

É difícil segurar as lágrimas com o best-seller da coreana Kyung-Sook Shin. Traduzido em vinte e três idiomas, “Por Favor, Cuide da Mamãe” vai além do remorso que todo filho adulto sente ao se distanciar dos pais. Por trabalho, casamento ou falta de afinidade, para muita gente, uma hora os encontros escasseiam, tornam-se impessoais, assépticos, frios.

O livro, que transformou Kyung-Sook na primeira mulher vencedora do Man Asian Literary Prize, conta a história de Park So-Nyo, dona de casa com 69 anos, portadora de uma doença degenerativa, desconhecida de todos – ela esconde um derrame, para não incomodar. Sua vida no campo é de pura devoção aos cinco filhos e ao marido infiel.

Para tanto, tem dedicação exclusiva à cozinha, ao arrozal e aos afazeres domésticos, tudo para manter a harmonia e a possibilidade de ascensão social da prole. Emancipados, Hyong-chol, o mais velho e preferido, e Chin-hon, a caçula que vira escritora de sucesso, mudam-se para a capital, o que aumenta o enfado na rotina da mãe – que nunca reclama.

Quando, enfim, resolve visitar os filhos na metrópole, anos depois, a tragédia aparece em forma de déjà vu: abandonada moralmente pelo marido, ela vê a porta do metrô fechar, enquanto ele segue rumo ao infinito. É o estopim para o pesadelo familiar. A confecção de um panfleto com foto e informações gera andanças pelas ruas de Seul.

Reminiscências acusatórias surgem em capítulos narrados pelos irmãos. A frieza da intelectual Chin-hon (como uma escritora tem uma mãe que não lê?) e do imperativo Hyong-chol (recebia, desde a infância, tratamento diferenciado, mas foi incapaz de ir recebê-la na estação) está no centro das lamentações – são os dois personagens de destaque.

Uma breve passagem ilustra o altruísmo e a recusa da individualidade da Mamãe (como é chamada na história). Todos os anos, por economia, ela antecipa seu aniversário para comemorar junto com o do marido (o mesmo que leva outra mulher para dentro de casa, durante alguns meses). Logo, vê sua data esquecida pela folia em torno do patriarca.

Para explicar a inexistência de Deus, em O Futuro de Uma Ilusão, Freud destacou a primazia da figura paterna – vigorosa, imponente, mais estimada pelos filhos, se participativa. Longe da infância, perdemos a proteção física e emotiva onipresente. Daí a invenção de um Pai Maior, guardião de nosso destino. À mãe sobra a coadjuvação, o trabalho de formiguinha.

Ao traçar um painel da Coréia arcaica ante a sociedade moderna, ultratecnológica atual, Kyung-Sook Shin esgarça o choque de tradições em um relato triste, delicado e intimista, e sublinha, ainda que sob a ótica oriental, a negligência que mulheres abnegadas sofrem de seus descendentes. Só após a morte chega a saudade e o arrependimento.

 

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