Talentos perdidos

Revi Adalberto, o Neguinho do Passo da Pátria, margem escura do Rio Potengi por onde passam os trens embalados iguais…

Revi Adalberto, o Neguinho do Passo da Pátria, margem escura do Rio Potengi por onde passam os trens embalados iguais ao pontas de antigamente. Adalberto está bem e se recuperando. Está trabalhando e com dignidade, conversamos dez minutos e voltei a agradecê-lo pelas alegrias que me deu.

O Novo Adílio, em comparação ao companheiro desconcertante de Zico no Flamengo, surgiu nas escolinhas da Fenat, descoberto pelo antigo craque uruguaio Danilo Menezes. Nos Jogos Escolares, uma pequena multidão se formava para ver jogar o crioulo driblador e inteligente desmoralizando defesas e fazendo gols artesanais. Adalberto era levado ao ABC pelo professor Armando Viana, seu futuro técnico.

Campeão juvenil e de juniores, integrou uma geração promissora com o zagueiro Luís Oliveira, depois Santa Cruz e times de Portugal, o volante Alciney, ídolo em Santa Catarina e com passagens pelo Cruzeiro, hoje auxiliar técnico de Paulo Bonamigo nos Emirados Árabes.

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Ainda havia o lateral-direito Tiê, das Rocas, bairro fornecedor das categorias de base quando habitadas por talentos natos e prontos para lapidação. Tiê nunca foi uma flor de técnica, batia mais do que alisava, mas chegou a jogar de titular no Ceará no Brasileiro de 1986 com média 6 da Bola de Prata da Placar. O hoje repórter policial Genésio Pitanga de zagueiro, o meia-atacante Tião Medonho e o ponta-esquerda Beto Cara de Cão formavam o núcleo habitual do time.

Todos em função da estrela a encher os olhos da Frasqueira. Adalberto, aos 19 anos, estreava nos profissionais com a camisa 10 alvinegra. No primeiro clássico, em frente à torcida alvinegra no Estádio Castelão (Machadão), joga o corpo à frente do veterano volante Baltasar que pende o tronco.

Adalberto aponta para Sandoval, na extrema direita e anuncia o lançamento. Baltasar abre as pernas e leva a primeira de uma série de canetas que a memória repete em slow motion. Baltasar, respeitado camisa 5, caçando um saci sorridente pelos quatro cantos do campo. Nascia não um craque. O sucessor de Alberi, Danilo Menezes e Marinho Apolônio como ídolo negro da massa.

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Adalberto faz gols em clássicos, vira manchete, atrai olhares externos, vai parar onde todo menino sonhador gostaria de estar na época: no São Paulo de Cilinho, dos Menudos Silas e Muller , dos monstros Careca, Oscar, Pita e Dario Pereyra.

Jogou (bem), no Expressinho, estava na boca do caixa para ser relacionado entre os 15. O ABC encheu os olhos de ganância e o tricolor paulista, de arrogância. Achava, como sempre pensam os ditos grandes, que estava fazendo um favor ao meia clássico e irreverente. Adalberto voltou e seu futebol definhou em depressão escancarada. Perambulou por vários clubes, jogou em times de várzea, entregou-se ao alcoolismo, está em processo de reconstrução pessoal. O futebol perdeu sem ele.
Seu rival na época era mais velho cinco anos. Valério fazia o que queria com uma bola de futebol. Era o xodó da torcida do América e um dos maiores dribladores nascidos no Rio Grande do Norte. Cortava como um tecelão o marcador em fintas de tesoura, lampejos geniais na pisada com o calcanhar que fazia o otário no encalço inútil cair de bunda no chão para riso coletivo no estádio.

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Valério jogava demais de volante, não de cabeça de área. Marcava e distribuía o jogo. Valério jogava ainda mais de meia-armador. Recebia e conduzia a bola aninhada ao pé direito, ultrapassando a fronteira do campo e tentando diálogos com os colegas menos favorecidos no intelecto ludopédico. Valério jogava mais do que demais de meia-atacante, o ponta de lança de minha época, chegando próximo ao centroavante para tabelinhas curtas e chutes fortes. Era completo, Valério.

Não, não era. Por um detalhe. Valério jogava tanto quanto consumia álcool. Seu futebol maravilhoso fez um presidente desautorizar um técnico que o cortara da delegação para um jogo decisivo em nome da disciplina. O presidente gostava era de futebol e mandou devolver Valério, bafejando cerveja, ao ônibus da delegação. Dizendo mais:

– Vai de titular!

Ressacado, Valério extrapolou, quem sabe por vingança. Armou todos os três gols da vitória e da classificação. Um deles em linha de passe com o atacante Baíca.

Valério foi ao Clube do Remo e conquistou o respeito de todos em Belém, até dos sinos das igrejas. Comeria todo o estoque de tucupi, de graça, se quisesse. O vício já o marcava de maneira implacável. Foi acabando fisicamente e hoje é uma sombra irreconhecível do que foi. Valério para sempre ainda é. Craque de bola.

A história tratou de perpetuar o duelo ABC x América. Mas, com sinceridade absoluta, quem viu Valério e Adalberto em campo, no esplendor da criação, não enxergará nenhum dos dois nos bons jogadores de meia-cancha nos futuros clássicos da Arena das Dunas. Valério e Adalberto foram joias perdidas do futebol.

 

Reforços
Os clubes de Natal sempre enfrentam uma concorrência bruta em primeiro semestre. É o Campeonato Paulista com a força da grana dos clubes do interior, ricos e bancados pela fartura econômica das cidades de porte médio e suas indústrias ou o agronegócio.

Cautela
É correta a cautela adotada pelo técnico do ABC, Roberto Fernandes, ao calar sobre os jogadores que estão sendo negociados para vir ao clube disputar o Campeonato Estadual. Quem ficou e está vindo está na conta do prestígio pessoal do treinador.

Ranking
Entre os primeiros 90 clubes do Brasil, o ABC ficou à frente do América Pelo terceiro andar do prédio. O Rio Grande do Norte pode subir mais em 2014 diante do nivelamento por baixo do Campeonato Brasileiro.

Paulo Baier
O Atlético Paranaense dispensou Paulo Baier. Aos 39 anos, Paulo Baier vinha se destacando como se virtuoso fosse. Começou no Vasco da Gama, quando o Vasco da Gama ainda existia, jogando (mal), de lateral-direito. E ainda reclamam quando se diz que o futebol brasileiro parou de revelar gente boa. Depois de Neymar, ninguém acima do convencional.

Patrocínio
Por falar em ex-Vasco, a montadora Nissan encontrou a desculpa que precisava para deixar de patrocinar o timeco de Dinamite: estrago de imagem por conta da briga em Joinville.

Quatro times
Sou do tempo em que amigos escalavam quatro seleções brasileiras fortes numa mesa de bar. Sobrava craque.

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