Tarzan faz um século
Cem anos envelhecem qualquer um, Senhor Redator. Principalmente no caso de um herói com uma vida cheia de atropelos, como Tarzan. No entanto, nunca pareceu tão jovem como agora quando faz um século. Nosso primeiro encontro foi nos começos de 1960, no primeiro andar da sede social do ABC, ali na esquina da Potengi com Afonso Pensa, onde hoje é o centro comercial Aluizio Bezerra. De lá prá cá, se visto na tela, Johnny Weissmuller é o mesmo de quando nasceu na Los Angeles de 1912.
Foi meu tio Domingos que abriu as portas do clube para o menino de Macau assistir ao seu primeiro filme. Não lembro qual. Só sei que dias depois, numa noite que parecia calma, de uma Natal de horas compridas, Tarzan apareceu na tela em preto-e-branco, enfrentando tigres perigosíssimos, voando em cipós, de galho em galho, dobrando a força dos leões. Fiquei impressionado. Muito tempo depois descobri o seu nome, e soube que antes de ser de carne e osso, fora personagem de folhetins.
Devo confessar que nunca, apesar de todas as suas proezas, Tarzan foi um ídolo com a mesma força do Fantasma, o espírito-que-anda, criação de Lee Falk. É bem mais moço que Tarzan, nasceu em 1936, um herói misterioso a combater o mal que ele confiou ao desenhista Phil Davis a tarefa de encarnar a partir das suas descrições. Um herói entre o real e o mágico, filho de um ancestral e único a sobreviver de um ataque de navios piratas nas costas africanas daí adotar como símbolo uma caveira.
Aliás, é bom registrar: são dois os símbolos do Fantasma nos anéis que usa nos dedos anelares de suas mãos, numa apropriação do velho e sempre instigante maniqueísmo: na direita, para combater o mal esmurrando os bandidos e deixando impresso no rosto a caveira; na esquerda com as suas armas, num sinal de proteção não só na Floresta Negra, onde vive na sua Caverna da Caveira, como em toda parte onde for chamado. O Fantasma ouve quem grita por socorro perto ou longe dos seus ouvidos.
Nem por isso, Senhor Redator, deixo de render a Tarzan a homenagem de uma infância sem heróis que só num tempo tardio, já depois dos nove anos, foi possível descobri-los. Até aí, colecionei moinhos de vento e neles projetei, como um Quixote aprendiz, os gigantes de uma infância comum e sem novidades. Se viajei nas barcaças que iam e vinham nas marés do meu rio e neles embarquei todos os sonhos, nem por isso sai de lá até hoje, perdido que fiquei no silêncio espantado de suas gamboas.
Tarzan nasceu como ‘O Filho das Selvas’, em 1912, nas páginas de uma revista. Dizem os que sabem de sua história que hoje o herói acumula mais de 100 milhões de edições em tiras, revistas e quadrinhos, além de grande sucesso no cinema. Ninguém superaria o carisma de Johnny Weissmuller. Lex Baker ou Gordon Scoth. Mesmo mais musculosos, perderam para ele, seu grito inconfundível, sua Jane tão bonita e a macaca Chita naquela casa no alto das árvores onde nasceu e viveu o menino Boy.
Edgar Rice Burroughs é o criador de Tarzan, um jornalista que antes de se tornar escritor foi correspondente no front da Segunda Guerra. Seu herói é tão forte como ícone que ao lado de sua fazenda nasceu uma pequena cidade como nome de Tarzana, encravada no estado da Califórnia, nos EUA. São 22 romances escritos com Tarzan como personagem central. Agora, no centenário, vem sendo planejado um novo filme, tridimensional, uma produção alemã com direção de Reinhard Klooss.
Os heróis, Senhor Redator, também envelhecem. Basta dizer que este ano Superman completa 75 anos. É, pois, um herói provecto e respeitável que não mais se confunde com pássaro ou avião. Foi Joe Shuster, ao ver do rosto quadrado do jovem Stanley Weiss quando descansava de umas férias, sua inspiração para a figura do herói. O sucesso se mantém até hoje. Como alguns admitem, uma alegoria moderna de Moisés, o menino abandonado nas águas do rio Nilo que um dia volta como o salvador.
MODELO
Aumento para magistrados e promotores pode. É justo, claro. Para os defensores públicos que atendem aos réus pobres, para esses não. Ora, o governo é fraco contra os fortes, mas é forte contra os fracos.
RAMPA
A Fundação Rampa vai expor um bom acervo quando da abertura do Museu da Rampa prevista para 2014, no mínimo. Seus pesquisadores contam com fotografias, peças históricas e motores de aviões.
NEURA – I
Tem secretário no governo já neurótico com essa história de que o gabinete civil tem olhos e ouvidos nas paredes, mesas e debaixo de tapetes das secretarias. Qualquer desconhecido é visto como suspeito.
ALIÁS – II
Dia desses, num restaurante da cidade, um secretário bem humorado dizia que a única saída seria cada auxiliar ter uma ajuda de Hercule Poirot, o cerebral e entediado detetive criado por Agatha Christie.
PECHINCHA
Para o jet natalense: ainda é tempo de arrematar um dos lotes do leilão de vinhos da adega do Il Bulli, o restaurante de Ferran Adriá que fechou. Três garrafas de Romanée Conti safra 1990: $47 mil dólares.
ESPERANÇA – I
A secretária Isaura Rosado, da Cultura, confirmou em Brasília a provação da papelada para a liberação dos recursos para a restauração da Biblioteca Câmara Cascudo. Ainda há, pelo menos uma esperança.
FALHA – II
O governo poderia ter evitado a biblioteca ser submetida essa espera sem fim pela grana federal. Bastava ter liberado 10% da despesa de R$ 34 milhões que desperdiçou duplicando a estrada Mossoró-Tibau.
PIXINGUINHA
Quatro atores vão interpretar as quatro fases da vida de Alfredo da Rocha Viana Filho, Pixinguinha, no filme que vai ser rodado este ano, com direção de Denise Saraceni. Desde os velhos cabarés da Lapa.
VARGAS
O Governo de Getúlio Vagas acaba de merecer o maior conjunto de estudos políticos já publicados até hoje: A Era Vargas. Edição é da Unesp/Unicamp reunindo treze ensaios em quase quinhentas páginas.
POESIA
De Mariana Ianelli em O Amor e Depois: ‘Como se o tempo não devolvesse / também o desconsolo, / e dele fizesse exsudar um leve perfume, / como se não arrastasse / cada corpo uma penumbra, / como se fosse possível /em vida a paz dos mortos.


