Taxistas com dias contados para perder emprego no Augusto Severo

Quase 150 profissionais do volante estão desesperados e não sabem como conseguirão sobreviver e manter a família

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Marcelo Hollanda

hollandajornalista@gmail.com

São 74 carros com idade média de dois anos, totalmente caracterizados, quase todos financiados, cada um deles dirigido por dois condutores – o dono de dia e um segundo entrando pela madrugada. Ao todo, 148 trabalhadores, com idade média de 50 anos, muito em breve, iniciarão um novo e penoso desafio em suas vidas: conseguir trabalho para manter a família e as mensalidades do carro alienado ao Banco em dia. Isso sem falar nos terceirizados da Infraero, responsáveis pela manutenção do terminal, e dos funcionários e comerciantes das várias lojas instaladas no local, que também perderão seus sustentos.

É uma das consequências, entre muitas, da desativação do aeroporto Augusto Severo, um baluarte da aviação nacional, conhecido como o Trampolim da Vitória por sua posição estratégica durante a Segunda Grande Guerra. A expectativa é que isso aconteça já no próximo dia 22, mas há muitas dúvidas a respeito, por conta dos acessos e da impossibilidade de instalação no prazo das companhias aéreas. Nesta quarta-feira (14), o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves disse pelo seu twitter pessoal que a inauguração seria realizada dia 6 de junho, com a presença da presidente Dilma Rousseff.

Às vésperas da transferência dos pousos e decolagens para São Gonçalo, os taxistas de Parnamirim estão seguramente entre os mais atingidos por uma decisão que a maioria deles atribui mais aos políticos do que propriamente a necessidade. “Eles (os políticos) mandam e desmandam neste país”, diz o vice-presidente da cooperativa de taxis do Augusto Severo, Francisco Canindé da Costa.

Ele lembra que só nos últimos dois anos descartaram São Gonçalo como um terminal de cargas. E, mesmo depois da mudança de formato, o Augusto Severo não deixou de ser beneficiado com dinheiro para reformas, sendo considerado recentemente o melhor aeroporto do país. “Onde há lógica nisso?” – quer saber Canindé.

Quando o desenho do novo aeroporto foi concluído (e a ficha caiu) o taxista lembra que teve início uma peregrinação para se tentar os profissionais para São Gonçalo, inutilmente. Uma audiência convocada pela vereadora Kátia Pires, de Parnamirim, para examinar alternativas de utilização do Augusto Severo não deu em nada.

“Nós (os taxistas) nunca fomos recebidos pelo pessoal do consórcio Inframérica para nos candidatarmos ao novo emprego”, lembra.

Desde que o processo de mudança entrou em contagem regressiva, a preocupação dos taxistas do Augusto Severo, que só tem permissão para trabalhar ali, cedeu lugar a um estado de depressão.

“Não se fala em outra coisa nas conversas, muita gente se queixa que não consegue mais dormir, pensando no que vai fazer da vida quando o desemprego chegar”, diz Canindé.

Há mais de 20 anos no terminal, motorista profissional desde que se entende por gente, aos 50 anos Canindé confessa o desânimo. “Eu te pergunto: com essa idade como vamos competir no mercado de trabalho?”

Em média, cada taxista do Augusto Severo faz quatro corridas por dia, faturando R$ 43,00 por corrida, mais de R$ 5 mil por mês bruto. Além da taxa de manutenção da cooperativa, que por operar num único ponto não usa sistema de rádio, a maior obrigação profissional desses trabalhadores é a prestação do carro, que pode chegar a R$ 900,00 por mês.

Indignação geral marca audiência pública

A desativação do Aeroporto Augusto Severo foi tema de uma audiência pública realizada ontem pela Assembleia Legislativa. Na oportunidade, nenhum representante da Infraero compareceu, causando irritação entre os envolvidos. “Lamentamos a ausência da Infraero.Vamos comunicar o fato à presidência desta Casa, manifestando nossa indignação”, declarou o deputado Antônio Jácome. Em virtude da ausência da Infraero, informações sobre a data exata da desativação civil do aeroporto Augusto Severo e o destino das pessoas que trabalham no equipamento não foram apresentadas.

O representante da Cooperativa de Táxis, Altamir Bezerra, estava indignado. “Nosso aeroporto tem uma representatividade histórica mundial e estamos perdendo com o fechamento dele. Temos cerca de 240 mil habitantes em Parnamirim e essas pessoas estão perdendo algo muito valioso para a cidade. No campo econômico, são mais de R$ 5 milhões que são adquiridos pelos trabalhos feito no aeroporto e essa renda é distribuída dentro de Parnamirim. O comércio vai sofrer um abalo. Estamos perdendo o nosso emprego. Somos 74 taxistas que dependem daquele trabalho”, desabafou.

O presidente da Associação dos Concessionários do aeroporto Augusto Severo, Pio Morquecho, também se queixou da falta de atenção com os trabalhadores do terminal. “Durante a fase da licitação pública de São Gonçalo, perguntei aos vencedores se havia alguma preocupação da Anac com os comerciantes, com os taxistas e as demais pessoas que trabalham no aeroporto Augusto Severo. E foi dito que não. Fizemos consultas a advogados, pedimos o cancelamento dessa licitação do Aeroporto de São Gonçalo, pois lá não prevista o destino de concessionários, lojistas, empregados”, afirmou.

Pio foi taxativo ao lembrar que o Direito Trabalhista prevê, por ocasião de deslocamento da atividade comercial, que a atividade sucessora é responsável por todo o patrimônio comercial que foi deslocado. “Fico até hoje inconformado como é que deixaram isso acontecer. Houve um vazio da classe política, dos lojistas, da população. Ficaram esperando apenas o dia da morte do aeroporto”, afirmou.

Até o representante do Governo do Estado, Otomar Lopes Cardoso, reconheceu que trata-se de um problema de difícil solução. “O aeroporto de São Gonçalo traz benefícios para o Estado e dentro dessa proposta econômica, certamente é um ganho para o RN. O problema dessa mudança é o prejuízo para o município de Parnamirim. Ficamos numa solução complicada em termos de Governo de Estado, pois o espaço do aeroporto Augusto Severo não pertence ao Estado. Não há como reverter juridicamente essa situação”, declarou.

O representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RN), Evandro Borges, não deixou por menos ao afirmar que o Governo do Estado tem responsabilidade sobre as consequências geradas pela mudança no Augusto Severo e para o município de Parnamirim. “É preciso fazer uma audiência com o Procurador e o Consultor Geral do Estado para buscar uma solução de imediato, especialmente para essa questão dos trabalhadores”, disse.

A vice-prefeita de Parnamirim, Lucinha Thiago lamentou a situação dos taxistas e disse que o município não pode sair perdendo. “Nossas lideranças politicas no âmbito federal ouviram cobranças, inclusive de minha parte. É muito difícil deitar a cabeça num travesseiro e não saber o que vai acontecer com seu emprego amanhã. Não podemos perder. Além da questão dos trabalhadores tem também a situação de insegurança que vamos viver, pois o trajeto de Parnamirim para São Gonçalo não é fácil e os taxistas de lá não podem impedir que os taxistas de Parnamirim entrem lá”, declarou.

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