Técnicas e materiais simples ajudam a pessoas com limitações físicas

Trabalho é realizado na rede estadual de Saúde, mas não tem total apoio do governo

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Marcelo Lima

Repórter

Não é preciso reinventar a roda para mudar a vida de centenas de pessoas. Para uma dupla de Lorenas (Lorena Pimental e Lorena Lopes) bastou criatividade, simplicidade e vontade. Elas ensinam cuidadores de pessoas com limitações físicas a produzirem adaptações físicas que dão mais autonomia aos pacientes.

A principal invenção das terapeutas ocupacionais é um cabo universal. Esse instrumento pode servir tanto de talher (garfo, colher ou faca), quando de escova de dentes. “Em um só o paciente pode acoplar talheres, barbeador, caneta, tem adaptação de copo também”, explicou. Esse cabo universal é feito com um material encontrado em papelarias chamado de EVA, também chamado de emborrachado.

Diversas empresas já produziam adaptações da chamada “tecnologia assistiva”. O problema é o preço. “Essa tecnologia começou nos Estados Unidos e a maioria dos dispositivos é de alto custo”, disse. Além disso, o paciente tem que fazer o pedido por meio de sites americanos para produtos como um talher.

Segundo ela, um talher industrializado pode chegar até R$ 120 nesses portais de tecnologia assistiva. Esse tipo de dispositivo adaptado é usado para pessoas que, por exemplo, tiveram um acidente vascular cerebral e que ficaram com sequelas nos movimentos. Com a adaptação, o paciente tem mais autonomia para realizar atividades como se alimentar sem ajuda de outra pessoa.

“Às vezes a gente chega na casa do paciente, ele não tem o que comer. A nossa realidade é essa. A gente vai na casa dele e não tem onde sentar para preencher um prontuário”, destacou. Além disso, ela afirma que os pedidos dos aparelhos desse tipo de tecnologia demoravam muito quando eram feito ao Estado. “Hoje o paciente precisa de uma bengala, passa um ano pra receber e quando a gente vê, ele já faleceu”, criticou.

A alternativa foi usar a criatividade. O preço para comprar o material e confeccionar um cabo universal chega a R$ 2. As bengalas produzidas pelas Lorenas não custam mais de R$ 10. “A gente faz com cano de PVC, a gente forra com EVA para ela ficar confortável e na ponta a gente coloca borracha de pneu para ela não derrapar”, explicou Lorena Pimentel. Por outro lado, no mercado as bengalas custam entre R$ 60 e R$ 70.

Mas elas não vendem os produtos. As terapeutas, servidores do Estado, passam o seu conhecimento por meio de oficinas para cuidadores de pessoas com limitações de movimentos. “O Rio Grande do Norte é o único Estado do Brasil que tem essa oficina junto com o curso de cuidador”, disse.

Segundo Lorena Pimentel, a iniciativa é custeada por uma premiação realizada ainda em 2009. Com o dinheiro que ganhou da premiação nacional de um banco em 2009, elas compram o material até hoje. Foram R$ 140 mil parcelados em dois anos. Segundo Lorena Pimentel, o dinheiro rende numa conta da qual elas tiram os recursos para as oficinas e a produção de materiais até hoje. Conforme a terapeuta, a Secretaria Estadual de Saúde Pública financia apenas o lanche das oficinas.

Elas dão, no mínimo, oito oficinas no ano. Já fizeram as oficinas em Mossoró, Juiz de Fora (MG), e Porto Alegre (RS). A estimativa da terapeuta ocupacional é que mais de 4 mil pessoas tenham participado das oficinas de tecnologia assistiva.

 

Novas possibilidades

As terapeutas são servidores da Saúde Estadual e fazem o atendimento no Serviço de Atendimento à Domicílio (SAD). Lorena Pimentel trabalha no Hospital José Pedro Bezerra (Santa Catarina) e atende pacientes da região Norte de Natal. Um deles vai ser o irmão de Doralice Silva da Cruz. “Ele teve uma queda de um pé de siriguela e ficou tetraplégico”, disse a irmã e cuidadora.

O acidente aconteceu há dois meses, mas Jonas já consegue mexer os membros superiores. “O prognóstico dele provavelmente não foi uma lesão total”, disse a terapeuta ocupacional. Dessa forma, ele pode receber as adaptações para ter mais autonomia em pouco tempo.

Outro paciente tetraplégico, com problemas respiratórios, também ganhou mais liberdade. “Uma das adaptações foi o cabo universal. Ele não conseguia pegar o talher, mas conseguia levar a mão até a cabeça. Com a adaptação, ele voltou a escovar os dentes sozinho, tomar água sozinho, pentear o cabelo só”.

Segundo ela, este paciente conseguiu até realizar um sonho. “Ele tinha o sonho de tocar bateria, mas não conseguia segurar as baquetas que ele tocava antes. Então fiz dois cabos universais, acoplei adaptado a baquetas e fica meio que amarrado na mão dele e ele voltou a tocar bateria”, contou a profissional de saúde.

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