Tempos bailarinos
Edu, do Santos, merece a condecoração de Pai da Ponta-Esquerda. Edu representou, pela canhota, o encanto do drible repetido a cada façanha inédita de Mané Garrincha e Julinho Botelho pelo lado direito.
Incrível se falar nas Eliminatórias de 1969, permitidas a mim em DVDS de todos os jogos, em Pelé ou Tostão como senhores absolutos. Sem blasfêmia, Edu foi, aos 19 anos, o melhor jogador do Brasil na visão dos meus humildes olhos.
Seus dribles curtos indomáveis desmontaram todos os esquemas armados pelos técnicos do continente. Um toque curto para dentro, outro para fora e o lateral girando feito um Ioiô vertical, patético.
Edu não errou uma e foi gigante nos 3×0 sobre o Paraguai lá em Assunção e na decisiva no Maracanã, aquela do famoso chute rebatido pelo goleiro Aguilera nos pés de Pelé a desferir um petardo classificatório ao México.
O Brasil foi tricampeão sem Edu no time e Zagallo acertou ao juntar tantos craques sem função determinada. Jairzinho no Botafogo, Gerson no São Paulo, Tostão no Cruzeiro, Pelé no Santos e Rivelino no Corinthians jogavam pelo mesmo setor. O mais avançado era Tostão. Todos fantásticos, se entenderam no olhar e na sintonia ludopédica.
Ocorre que Zagallo tem birra de ponta-esquerda autêntico desde quando jogava, ele mesmo, o primeiro falso extrema do Brasil. Zagallo recuava ao meio-campo para dar combate por lhe sobrar fôlego e raça, mas lhe faltar o charme da habilidade instintiva e natural. Zagallo jamais driblou um poste da Light, companhia elétrica do Rio de Janeiro nos seus tempos de boleiro.
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Bom jogador, Zagallo sabia que os pontas naturais em 1958 seriam Pepe, do Santos e Canhoteiro, genial e conformado do São Paulo. Deu sorte e jogou bem nas partidas preparatórias, impondo a tal disciplina tática, nada mais do que o esforço do limitado diante da virtuose do craque.
Em 1962, Zagallo contava com dois rivais: Pepe, no auge da forma, campeão mundial pelo Santos e inscrito com a camisa 11, e Germano, do Flamengo, irmão de Fio Maravilha. Mas Germano apaixonou-se por uma condessa e esqueceu de jogar bola. Pepe, no último amistoso, se machucou e lá foi o Mário Lobo engolir o lugar de titular.
Quando técnico, Edu sofreu com Zagallo. Em 1970 entrou em alguns minutos protocolares, para constar no memorial do futebol. Quatro anos depois, ficou fora da lista inicial de 22 e foi chamado para o lugar do atacante Enéas, mal nos treinamentos.
Zagallo estava maravilhado por Dirceuzinho, do Botafogo. Dirceuzinho era Zagallo e Edu, o driblador, o Pepe moderno. Desmotivado, Edu começou de titular nos amistosos e perdeu a vaga de vez para Dirceu, exemplar desempenho na Copa do Mundo, mas a xérox do Zagallo de antes: Um corredor, um aplicado, um componente, jamais o solista.
Depois da Copa de 1974, Zagallo saiu da seleção, mas ficou o espírito de imitação europeia. Os pontas foram sendo sacrificados em nome da marcação no meio-campo, da predileção pelos empates e pela transformação do 1×0 em goleada.
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O futebol é subversivo a normas idiotas. A minha geração viu, pela ponta-esquerda, peladeiros inesquecíveis, bailarinos irreverentes. Vascaíno, fazia figa quando Júlio César, o Uri Geller, apelido em referência ao ilusionista israelense que dobrava facas e colheres, corria para cima de Orlando Lelé.
Júlio César partia como um carro de Fórmula 1. Pela lateral do campo disparava e puxava o freio diante de Orlando. Parava no famoso “breque”, bordão dos narradores da época. Dava um toque de calcanhar e enfiava a bola por entre as pernas do violento e falecido lateral cruzmaltino.
Dos cruzamentos de Júlio César, em 1979, o Flamengo fez muitos, dos seus gols dos dois títulos estaduais conquistados num ano só: O Carioca e o Especial. Cláudio Coutinho, técnico do Flamengo, jamais levou Júlio César à seleção e o seu futebol definhou, também de tanto apanhar. Orlando Lelé fez cirurgias, ao vivo e a cores, nos seus joelhos.
No São Paulo havia Zé Sérgio, o Curió, primo de Rivelino, uma pintura de ponta-esquerda, que chutava com a direita e driblava em diagonal. Zé Sérgio enfileirava zagueiros como Cauby Peixoto cantava “Conceição”. Foi reserva para a Copa do Mundo de 1978.
No Santos, João Paulo, da primeira leva dos Meninos da Vila, com Pita, Nilton Batata e Juary, campeão paulista em 1978. João Paulo dava um toque, o lateral jogava o corpo, ele passava o pé por cima da bola e saía pela esquerda até a linha de fundo.
No Cruzeiro, a molecagem de Joãozinho, que vi dançar e levar o pânico à defesa do ABC no Castelão(Machadão). Joãozinho metia medo no Atlético(MG) de Reinaldo. Bateu sem autorização uma falta contra o River Plate e fez o gol do título da Libertadores de 1976.
O Brasil jogou bonito pela ponta-esquerda. Sem ela, apagada das pranchetas, o futebol ficou feio. Edu, esquecido, fez herdeiros banidos pela violência e a burrice dos técnicos.
Ruy Cabeção
Ninguém se engane: Ruy Cabeção, aos 34 anos, ainda sabe muito de futebol. O Alecrim acertou. Jogando no meio-campo.
Ofensivo
O América vai para cima do Vitória: Cascata, Netinho, Rico e Tatu. Ao ataque, ordena o técnico Roberto Fernandes.
ABC
O meio-campo do ABC, ainda sem Júnior Xuxa, deverá ser formado por Hamilton, o melhor reforço até agora, Márcio Maraba, Raul e Walter Minhoca. O ataque, Canga e Rodrigo Silva não deve ser o titular depois do jogo contra o Ceará.
Cuidado
O ABC deve ter cuidado no camisa 10 Ricardinho do Ceará. Vindo da Ponte Preta, ele é o novo xodó da torcida do Vozão. Já foi definido cobrador de faltas e, no popular, é o dono do time.
Ofuscar
Já estava previsto. O início da Copa do Nordeste, naturalmente, ofuscaria o já opaco Estadual. O nível das primeiras partidas foi bem fraco, mesmo com as opiniões distantes léguas da isenção jornalística e profissional.
Caiçara
Treinador campeão pelo Ceará, Caiçara, falecido na quinta-feira da semana passada, voltou a Natal na abertura do Campeonato Brasileiro da Série A, a Taça de Ouro., dia 17 de janeiro de 1982. No Castelão (Machadão) com 8.830 pagantes, Marciano e Nicácio marcaram para o Ceará e Baltasar diminuiu para o América:2×1.


