Ter um jornal em mãos é prazer que laptop ou smartphone não supera

Observando a crise por que passam veículos impressos de comunicação, faço a pergunta: Será que veremos os jornais virarem cult entre os jovens, em um futuro próximo?

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Conrado Carlos

Editor de Cultura

Como produto da Revolução Industrial, o jornalismo não está imune aos ciclos econômicos e tecnológicos que apagam ou iluminam a sociedade. Do mesmo jeito que a moda, as artes e as ideologias, ele sacoleja entre pretérito e futuro com resultados catastróficos ou extasiantes, de acordo com decisões de seus controladores.

Músicos e estilistas, por exemplo, bebem na fonte dos 60s e 70s com frequência, para produzirem discos e coleções modernosas. Cabeleireiros, arquitetos e designers idem – perceba quantos prédios têm nomes de pintores e poetas; quantas madeixas sugerem uma Swinging London dos trópicos. O que hoje é ‘in’, amanhã é ‘out’.

Por isso, observando a crise por que passam veículos impressos de comunicação, faço a pergunta: Será que veremos os jornais virarem cult entre os jovens, em um futuro próximo? A gangorra estética faz parte do conceito político-econômico vencedor da peleja entre (1) Estado/Socialismo versus (2) Iniciativa privada/Capitalismo.

A suspeita aumenta quando essa turma usa cabelo a la Beatles, veste calças apertas como os setentistas, promove o retorno do vinil como fetiche e assiste filmes do neorrealismo italiano ou da nouvelle vague. Outrora soberanos no quesito informação, os jornais ainda mantêm primazia em relação à qualidade do conteúdo ofertado.

Um New York Times ou mesmo O Estado de São Paulo apenas virtual, sem papel e diagramações elaboradas que aguçam o interesse pelas notícias, é asséptico, impessoal e soturno. A diferença entre fazer o login e pegar a papelada embaixo da porta é grande – o cheiro resultante da mistura de café e papel jornal é inigualável.

No entanto, levará tempo para que a geração internet aceite pagar para consumir informação. A guerra será vencida por quem evitar a concorrência da instantaneidade virtual com uma mescla de boa escrita, precisão jornalística e entretenimento. O velho lead é o formato perfeito para a efemeridade da internet – e para cabeças standartizadas.

Mais que quantidade, inovação e estilo devem ser estimulados, sob o risco de ofertar mais do mesmo para um público com opções variadas. A saída não é simplesmente rasgar o papel e investir tudo em um site. Pesquisas com leitores do ‘antigo’ formato atestam que a mesmice é a principal causa da redução de assinantes.

Apostas em coberturas fora de sua área de abrangência (segundo análise dos maiores jornais do mundo, a editoria internacional é das mais prestigiosas); especializações dos profissionais por editorias, bem como reciclagens dos mesmos; redução do número de pautas, em benefício de matérias aprofundadas; e por aí vai. Como reza a cartilha das principais teorias econômicas, produzir mais e melhor com o que já existe.

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