A terceira utopia – Alex Medeiros

Por Demétrio Magnoli   Assustados, PSDB e PT espalham a lenda de que a ascensão de Marina Silva deriva da…

Por Demétrio Magnoli

 

Assustados, PSDB e PT espalham a lenda de que a ascensão de Marina Silva deriva da comoção gerada pela morte trágica de Eduardo Campos. Eles sabem que é outra coisa. No Brasil, os eleitores procuram administradores, gerentes, quando se trata de disputas municipais e estaduais. Nas eleições presidenciais, contudo, buscam a personificação de uma utopia possível. FHC e Lula chegaram ao Planalto nas asas de grandes ambições. Hoje, é Marina quem aparece como a representação de uma ruptura profunda.

A utopia associada a FHC pode ser sintetizada pelas ideias de estabilização e modernização. Desde o segundo mandato tucano, porém, o PSDB abandonou a trilha das reformas e, sob o fogo da crítica petista, borrou o horizonte utópico com as cores cinzentas da “capacidade gerencial”. As candidaturas de Alckmin (2006) e Serra (2010) não foram previsíveis fracassos eleitorais, mas inegáveis desastres políticos. Aécio Neves é um herdeiro da perda de rumo e, mesmo que tateie na direção correta, jamais conseguiu atravessar a fronteira do eleitorado tucano para seduzir a maioria desencantada com o lulopetismo.

A utopia associada a Lula pode ser sintetizada pelas ideias de igualdade e justiça social. Inflado pelos ventos de popa da economia mundial, o potencial utópico do lulopetismo durou um mandato mais que o dos tucanos, mas encerrou-se no quadriênio de Dilma Rousseff. As suas reformas sociais praticamente esgotaram-se nas políticas de crédito e transferência de renda que ajudaram a estimular o boom de consumo popular. Hoje, num sentido fundamental, o PT converteu-se na nova Arena: o partido cuja força emana do controle da máquina pública. O mapa das intenções de voto na candidata-presidente evidencia a regressão política do partido que traçou seu caminho para o poder entre os eleitores de alta e média escolaridade dos grandes centros urbanos.

Marina aparece como representação da terceira utopia, tão nitidamente expressa nas Jornadas de Junho de 2013. O mapa do voto “marinista”, bastante inclinado na direção do Centro-Sul e das maiores cidades, revela que a vontade majoritária de mudança tende a se coagular em torno dela. A “nova política”, dístico um tanto misterioso da candidata, traduz a ambição de recuperação do Estado como coisa pública, isto é, como instrumento dos cidadãos para a geração de bens públicos.

A ruptura proposta por Marina aninha-se na palha de um paradoxo. De um lado, a candidata investe contra o PT e o PSDB, apresentando-os como facetas polares da mesma “velha ordem” que deve ser superada. De outro, ensaia um estranho convite para que os dois partidos rivais ocupem lugares no seu hipotético governo. FHC e Lula juntos, sob o guarda-chuva de Marina, como sugeriu Eduardo Giannetti, um conselheiro do círculo interno do “marinismo”, significaria a repentina abolição, por um mero ato de vontade, das divergências de fundo sobre o Estado, a economia e a sociedade que marcam o debate brasileiro desde o fim da ditadura militar.

O discurso da “terceira via” é, sempre, tão atraente quanto perigoso. Defini-la como a união dos polos políticos tradicionais equivale a dissolver a ideia de mudança no caldo ralo de um falso consenso. As palavras de Giannetti obedeceram, talvez, à finalidade utilitária de rebater a crítica que aponta as carências de uma estrutura partidária sólida e de quadros administrativos experimentados no movimento “marinista”. Contudo, atrás delas, divisa-se o espectro do governo de unidade nacional, recurso ao qual as democracias apelam somente em casos de guerra ou colapso social.

Em princípio, eleições são sobre verossimilhança, não sobre verdade. Uma boa campanha eleitoral é aquela capaz de reduzir a distância entre uma e outra. Por enquanto, a utopia mudancista personificada em Marina circula na esfera da verossimilhança. (DM)

 

Agora já era

Não é no empate, nem na claríssima tendência de virada, que Marina Silva consolida sua vitória contra Dilma Rousseff, mas nos índices de rejeição. Com 35% da petista e apenas 15% da pessebista, é tecnicamente improvável a reeleição da presidente.

Segundo turno

A vantagem de dez pontos num suposto confronto entre Marina e Dilma representa uma enxurrada de votos, a maioria obviamente oriunda do eleitorado de Aécio Neves (PSDB). É quase impossível a migração de votos tucanos para a candidata do PT.

O Estado

O programa de governo de Marina Silva, apresentado ontem em São Paulo, não deixa de ser um sinal de progresso para quem tem formação socialista. Ela quer diminuir a presença do Estado nas coisas inerentes ao mercado, hoje um monstro invasivo.

O Mercado

Até então, o candidato Aécio Neves era o único entre todos os 11 candidatos à Presidência do Brasil a defender abertamente a diminuição do Estado na economia de mercado. Marina adotou a proposta para atrair apoios importantes no setor privado.

Ataque

Não vai ser fácil ao PT encontrar uma forma de bater em Marina sem o risco do bumerangue. O currículo da candidata está recheado de elementos que se confundem com o de Lula, evidentemente sem contar o lado venal dos acordos e do mensalão.

Mudança

Aumentou o índice do desejo de mudança do eleitorado, segundo apurou o Datafolha, subindo de 76% para 79%. Nesse universo é onde melhor se configura a subida de Marina, que até na pesquisa espontânea já ameaça Dilma, com 22% contra 27%.

Recessão

Os dados do IBGE divulgados ontem, registrando perdas de 0,6% na economia no segundo trimestre, configuram o quadro de recessão técnica que vinha sendo projetado há meses por economistas e executivos do mercado financeiro. Eis o legado da Copa.

Religião

Marina Silva coloca grande vantagem sobre Dilma Rousseff entre cristãos pentecostais e não pentecostais com 41% x 30% e 44% x 29%, respectivamente. E entre os católicos, a petista permanece na frente com oito pontos de vantagem, 38% a 30%.

Terrorismo

O primeiro-ministro da Inglaterra, David Cameron, declarou ontem que o país é um dos alvos do terrorismo islâmico, e determinou ações imediatas de segurança interna, com fiscalização rígida nos aeroportos e fronteiras e com aumento de policiamento nas ruas.

Roubos

Não são poucos os agentes federais com experiência de combate direto ao crime que suspeitam de ações com fins políticos em boa parte dos arrombamentos de bancos e máquinas de saque 24 horas. Ações iguais ocorrem no Brasil, Bolívia e Venezuela.

Satélite hermano

A Argentina entrou hoje no seleto clube dos 8 países que não dependem de satélites norte-americanos e têm sua própria tecnologia aeroespacial. O satélite Arsat-1, construído pela empresa Invap na cidade de Bariloche, foi levado até a Guiana Francesa, onde será lançado ao espaço em outubro. A viagem da estrovenga foi transmitida ao vivo pela TV Pública, sintonizada em Natal pelo canal 706 da Cabo TV.

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