Texto, fotos, verdades – Rubens Lemos

Confesso. É o texto que gostaria de ter escrito mesmo sendo impossível, pela crueza do tempo e a diferença abissal…

Confesso. É o texto que gostaria de ter escrito mesmo sendo impossível, pela crueza do tempo e a diferença abissal de talento. É a narrativa tensa e emocionada do jornalista Ney Bianchi, célebre nos anos dourados, sobre os primeiros minutos de Brasil x União Soviética em 1958.

O primor de Garrincha triturando a dribles o esquema assombroso e científico do fantasma vermelho está no esplendor da peça de reportagem merecedora da área nobre do memorial da comunicação brasileira. É a síntese da supremacia do craque sobre teorias, conspirações e esquemas.

Acompanhem comigo a descrição do indescritível pelo homem dominando a imparcialidade diante de um gênio em flor e fúria. Na Revista Manchete Esportiva: “Monsier Guigue, gendarme (guarda civil) nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: são 20 segundos.

“Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetsov cai e fica sendo o primeiro joão da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetsov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro, Todo o estádio levanta-se. Kusnetsov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kustetsov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos.

Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados pela grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos.”

Lá vai Mané e Ney Bianchi nem pisca: “Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A plateia delira. Garrincha volta para o meio de campo, todo desengonçado. Agora é aplaudido.”

Prossegue Ney Bianchi, sublime: “A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kusnetsov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. ”

O arremate emocionado e seguro na descrição perfeita: “O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol de Vavá, aos 3 minutos.”

Ney Bianchi é raro na maestria de um traço perdido e fundamental no jogo: o detalhe. O detalhe morreu no futebol. O detalhe da sensibilidade, o detalhe da ginga, do gestual da plasticidade.

Nenhuma locução coberta por imagens impecáveis digitais será igual ao relato que o mítico jornalista, testemunha de duelos heróicos no Ex-Maracanã, ofereceu aos seus leitores, de alucinar o ritmo do coração acompanhando os olhos e o cérebro processando a exuberância do espetáculo. Ney Bianchi ganhou três prêmios Esso de Jornalismo.

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Pedi ao meu filho, jovem publicitário, que reunisse numa só, cinco fotografias marcantes para mim sobre Copas do Mundo. Caio Henrique – elogio de pai vale porque o pai é rigoroso -, fez um trabalho impecável, ele que é torcedor de quatro em quatro anos.

Juntou uma foto representando o texto de Ney Bianchi, no momento em que Garrincha dispara na trave do goleiro Yashin (grafado por Biachi como Iashin), o maior do século passado e outras quatro de posteridade. De lendas. De verdade.

Tem Pelé sendo abraçado e tietado pelo zagueiro Julie Gustavsson, por ele chapelado na grande área antes do chute no gol mais bonito da final contra os suecos em 1958. Gustavsson, no reencontro com Pelé em 2012, disse que não lembrava bem do lance”, mas parece abrir a porta do seu quartel para a entrada célebre do Menino-Rei.

Tem Maradona enfileirando ingleses em 1986. Maradona começou driblando em seu campo, cortando dois súditos chamados à contradança. Humilhou o terceiro, o quarto, fintou o goleiro e empurrou para as redes. Maradona em estado puro e limpo. Tudo durou 1 minuto e 19 segundos que parecem intermináveis tantas vezes são repetidos na tela do computador.

Dois meses antes de completar 16 anos, joguei os pudores e patriotismos no ralo e saí berrando ao portão da casa de minha mãe-avó, como a proclamar a independência do futebol de encantamento e a esperar pela confirmação da liberdade colorida no azul da camisa e no preto do calção de Diego, o Armando da obra-prima.

A taça deveria ter sido entregue a ele ali, antes de a Inglaterra dar a saída. Acabara a Copa de 1986 ou Maradona acabara com ela. O individualismo do quadrado Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, que me fora negado em título ao time de 1982, era compensado pelo rival depois tragado por si mesmo.

Na edição feita pelo meu filho, tem Romário enfrentando o zagueiro norte-americano Alex Lalas. Em pleno 4 de julho de 1994, um mulato atarracado, abusado e maravilhoso superava a maior potência do planeta. A imagem personifica o malandro de gafieira aplicando um “sapeca”no Tio Sam.

Também tem Zidane na sequência de lençóis em Ronaldo Fenômeno nas quartas de 1998, Zidane imperativo na sutileza, Ronaldo vencido e observado pelo dentuço, espantado e igualmente perdido xará gaúcho, os dois puxando a geração mascarada e desmoralizada em bis pela finesse descendente argelina de Zizou. Zidane dizia, no bailado hipnótico, quem era, na prática, o melhor jogador daqueles tempos.

Cinco épicos do futebol, cinco pedaços, cinco detalhes, cinco provas definitivas de que a doce soberba do artista supera qualquer teorema. O sorumbático César Luiz Menotti, treinador argentino ortodoxo pela habilidade dizia: “Um craque de futebol pode ser transformado num atleta. Um simples atleta, um bruto, nunca será sequer um jogador de futebol”. Verdades da tarde de Brasil x Chile sem perspectivas reais de imitação.

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