Toda notícia tem um quê de ficção, desde o momento em que é pautada

Gabriel Garcia Márquez ria de quem acreditava no poder de sua mente para criar aquela miríade de personagens em “Cem anos de solidão”

HRTHRTHRTHRTW

Conrado Carlos

Editor de Cultura

O filme coreano “Old Boy” é um transtorno cinematográfico lançado em 2003 que virou Cult por misturar romance, suspense e vingança. Uma breve sinopse diria que um homem é aprisionado em um quarto por quinze anos, com apenas uma televisão para interagir. Ele desconhece o motivo de estar ali.

Ao ser libertado, parte em uma investigação em busca de respostas para o absurdo. Sei que narrativas investigativas, cujos personagens ganham a liberdade de uma hora para outra, são antigas. Mas o que “Old Boy” tem de diferente é exatamente o óbvio que aparece na origem do filme: o fato de ser uma produção oriental, sensivelmente brutal para nós outros ocidentais.

A vingança de Oh Dae-su esbarra em dois problemas: ele é o principal suspeito de ter matado a própria mulher (estava embriagado, na noite em que foi sequestrado) e não consegue se adaptar facilmente à vida em sociedade. Spike Lee lançou um remake no ano passado, sem o mesmo brilho de um dos dez melhores filmes asiáticos de todos os tempos.

A analogia do tempo preso em um quarto pode ser transferida para qualquer situação vivida pelo expectador. Seja um recomeço de vida amorosa, profissional ou a separação de uma grave doença. Quem passou anos em um casamento ou emprego claustrofóbico sabe o quanto é amedrontadora a perspectiva de pisar em território desconhecido, após anos de comodismo.

É o ex-conjuge que já está com outra, o vizinho que ganha muita grana. Ninguém gosta de sucumbir nos conflitos cotidianos. E a vingança, unha e carne com a inveja, aparece alguma hora. Até no desdém (sempre a melhor solução). Nada mais sofrido para um provocador do que ser ignorado. Ele fará de tudo para rever a tática de agressão e atingir o oponente – baixarias inclusas.

E, muitas vezes, falseamos experiências para nosso deleite (ou, no mínimo, alívio). A literatura é o exemplo. Quem escreve tem ‘direito’ de se apossar de histórias alheias – brigas, traições, diálogos de amigos são narrados pelo dono do teclado. Pois, como preza o jornalismo literário, a mentira atrativa tem predominância sobre a verdade insossa. Ou alguém duvida?

Gabriel Garcia Márquez ria de quem acreditava no poder de sua mente para criar aquela miríade de personagens em “Cem anos de solidão”. Afirmava ter apenas juntado o que ouvia por aí. Dizem que em jornal não se faz literatura. Pode ser. Mas toda notícia tem um quê de ficção, desde o momento em que é pautada.

Compartilhar: