Traficante mais procurado do mundo despertava ‘medo e admiração’

Joaquín "El Chapo" Guzmán, lendário traficante mexicano e chefe do cartel de drogas de Sinaloa, foi preso no último sábado, 22, no México, após 13 anos de evasão

Joaquin "El Chapo" Guzmán é escoltado até um helicóptero no hangar das Forças Armadas mexicanas, na Cidade do México, em 22 de fevereiro. Foto:Divulgação
Joaquin “El Chapo” Guzmán é escoltado até um helicóptero no hangar das Forças Armadas mexicanas, na Cidade do México, em 22 de fevereiro. Foto:Divulgação

“Dos pés à cabeça ele é baixo, mas de sua cabeça ao céu eu diria que ele é o maior de todos, quem duvidaria?”. As palavras são de um “narco-corrido”, músicas típicas que evocam a rotina do narcotráfico mexicano. Neste caso específico, trata-se de uma homenagem musical a Joaquín “El Chapo” Guzmán, bilionário traficante que foi detido no último sábado.

Cantada em festas locais no oeste do estado de Sinaloa, onde ele nasceu, a letra resume a estranha mistura de admiração, medo e respeito da região perante o homem que escapou da Justiça durante mais de dez anos.

Com uma fortuna estimada em US$ 1 bilhão (quase R$ 2,4 bilhões), ele figurava tanto no ranking da revista Forbes quanto liderava a lista dos narcotraficantes mais procurados do mundo – até ser preso, em Sinaloa.

Em um país onde nasceram alguns dos mais notórios líderes de cartéis de que se tem notícia, “El Chapo” se destacava.

“Acho que ele se tornou o mais icônico traficante dos tempos modernos”, opina Ioan Grillo, autor de El Narco, livro que analisa os cartéis mexicanos. “Até mais do que o maior traficante dos anos 1980, Miguel Ángel Felix Gallardo, para quem trabalhou. ‘El Chapo’ foi além, tornando-se nos últimos seis ou sete anos o mais conhecido traficante do mundo, o senhor da guerra de mais alto escalão no atual conflito.”

Ascensão

Mas como o filho de um vaqueiro que não teve acesso à educação especializou-se em controlar o fluxo ilícito de cocaína, heroína e maconha para os EUA?

A respeitada revista mexicana Proceso recentemente descreveu Guzmán como “o capo que tirou a maior vantagem da dinâmica globalizada do tráfico de drogas”.

Ele entrou no negócio no final dos anos 1970 e rapidamente ascendeu na hierarquia do cartel de Guadalajara, supostamente por convencer seus chefes de que era capaz de lidar com o fluxo de grandes volumes de drogas.

Hoje, sua esfera de influência é ampla: seu cartel de Sinaloa tem tentáculos na Europa, Ásia e América Latina.

“O tráfico de drogas é uma empreitada coletiva”, explica Ioan Grillo. “Há centenas, até milhares de indivíduos no cartel de Sinaloa, que tem sido hábil em fornecer ao mercado americano, baixando o preço da cocaína colombiana, entrando na metanfetamina e estimulando o comércio de heroína e maconha”. Para Grillo, “El Chapo” se destaca por seu pragmatismo.

“Sua habilidade de ascender ao topo fazendo uso seletivo da violência, para sobreviver (às ameaças) de violência contra ele e ao mesmo tempo criar uma mitologia ao seu redor – tudo isso fez dele uma figura cultuada e reconhecida pela América Latina.”

Tanto que outros cartéis tentaram se aliar ao dele, sabendo que sobrenomes conhecidos – como Guzmán – têm forte peso no submundo do crime.

“El Chapo” também exigia grande lealdade, tanto entre seus “soldados” quanto entre a comunidade de estados como Sinaloa, Durango e Chihuahua.

Dimensão política

Mas Grillo argumenta que algumas histórias sobre Guzmán muitas vezes foram exageradas

“Às vezes o mito se sobrepõe, e a verdade é que ele não era todo-poderoso como costuma ser retratado. Por exemplo, ele nunca conseguiu controlar (o estado de) Tamaulipas, no nordeste do México, e enfrenta batalhas constantes com seus rivais ao redor do país.”

Claro que há uma importante dimensão política em sua prisão, buscada desde 2001: trata-se de um enorme trunfo para o presidente Enrique Peña Nieto, com grande repercussão no México e nos EUA.

Mas muitos temem que isso desencadeie uma onda ainda maior de derramamento de sangue no México, pelo menos no curto prazo.

“Sua prisão provocará uma instabilidade”, afirma Grillo. “O padrão é que, quando os líderes (de cartéis) são detidos, gera-se violência. Os subalternos brigam entre si para controlar (o vácuo de poder). Será como um terremoto na indústria do tráfico no noroeste do país e na costa do Pacífico.”

Fonte:Terra

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