Tráfico de drogas e crime organizado – Newton Mousinho de Albuquerque, oficial-general (Ref.) do Exército Brasileiro e ex-integrante da Senad/PR (newtonmousinho@uol.com.br)
Sucedem-se no nosso Estado as apreensões de drogas em escala cada vez maior. O cidadão aplaude! Agir nesse sentido é tática absolutamente correta. Mas é preciso cuidar da estratégia, isto é, tratar o problema do tráfico em seu mais alto nível; enfim, chegar ao topo da cadeia de fornecimento das drogas, pois é ilusão imaginar que o narcotráfico e as poderosas organizações criminosas que o exploram venham a se reduzir a níveis ao menos aceitáveis, apenas pela sua repressão nas barreiras de estrada e batidas policiais nas favelas e bairros da periferia da Grande Natal e de outras grandes cidades do Estado. A evidente estratégia para conter em nível mínimo o narcotráfico é procurar estrangular a economia da droga em seu nascedouro, o que exige atitude política afirmativa, coordenação policial entre os estados e a Federação em todas as instâncias de segurança pública para um combate sistêmico, usar a legislação de forma adequada e priorizar a inteligência policial. Em suma, conjugação de esforços das polícias envolvidas, sem deixar de lado as diligências para prender o varejista da droga – insistimos, apenas a ponta do iceberg – e aplicando o esforço maior de inteligência policial na neutralização dos donos do crime organizado.
Um grande fator complicador para uma repressão bem sucedida é a nossa malha rodoviária estadual, de difícil policiamento por ser bastante ramificada e extensa, o que facilita muito a ação do traficante em função do grande número de conexões internas e interestaduais que oferece. Quem duvida desse quadro, basta lembrar os bem sucedidos assaltos a agências bancárias do interior e a facilidade com que os bandidos encontram excelentes rotas de fuga.
Por outro lado, mesmo aumentados significativamente os flagrantes do tráfico de cocaína, maconha e crack, ainda não há notícia de prisão de atacadistas dessas drogas que operam no Estado. E a intensa luz vermelha do aumento da quantidade de apreensões de crack sinaliza também a questão de solução inadiável da saúde dos jovens viciados da população de baixa renda, as vítimas preferenciais dessa droga maldita, de baixo preço e altíssimo risco de adicção para o usuário já nas primeiras experiências, de recuperação muito difícil, até pelas próprias condições sociais do drogado.
A ação contra os “feudos” do narcotráfico passa necessariamente pela conquista de sua “base social”, montada nas inúmeras favelas e comunidades carentes da Grande Natal, assim como na periferia das cidades mais populosas do interior do Estado. Nunca será demais insistir que antes da repressão policial é impositivo calçar e ampliar ruas, fazer esgotos, regularizar posses, iluminar, dar saúde, escolas, investir na relação polícia-comunidade, criar oportunidades para a juventude em risco social nos esportes, na educação e nas artes, estimular nas áreas mais carentes as associações e cooperativas com propostas sociais sérias e, por fim, mas não por último, integrar escolas, governos estadual e municipais, igrejas de qualquer credo e famílias no esforço de buscar a reinserção social dos mais carentes.
A próxima Copa do Mundo vai aumentar em muito o trabalho da Polícia Federal e das polícias do Estado no controle do narcotráfico atraído pelo turismo decorrente, atividade que, infelizmente, ao trazer inúmeros benefícios para Natal, também emula a prostituição, o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. As polícias estaduais, se bem preparadas e equipadas, poderiam coadjuvar a ação federal de repressão às drogas no Estado. Mas isto significa integrar, verbo de ainda difícil conjugação por parte das autoridades de todos os níveis responsáveis pela segurança pública.


