Tragicômico

Enquanto a torcida aquecia no verão para os campeonatos nacionais ou estaduais, dependendo do humor dos cartolas, a Copa São…

Enquanto a torcida aquecia no verão para os campeonatos nacionais ou estaduais, dependendo do humor dos cartolas, a Copa São Paulo de Juvenis enchia o Brasil de esperança e charme. No máximo 20 clubes, a nata do futuro em explosão, disputava um torneio limpo em que o objetivo significava revelar craques, despertar precocidades nas manhãs domingueiras do Esporte Espetacular da Rede Globo.

Ninguém falava em empresário. Havia olheiros, tarimbados e malandros ex-jogadores com visão clínica para enxergar no driblador atrevido o potencial titular dos anos seguintes. No meio-campista de passes precisos, o sucessor do ídolo de então. No zagueiro duro e capaz de se antecipar ao atacante, o líder desabrochando.

Da Copa São Paulo, escala-se uma senhora seleção, assim, por baixo, na consulta da memória, somente a ela, sem papel por perto, nem computador.

Todos os que menciono, vi jogar, brotando: Dida; Cafu, Lúcio, Edinho e Mazinho (toda defesa de Copa do Mundo); Cerezo, Falcão, Djalminha e Denner; Romário(participou, sim, em 1984) e João Paulo do Santos.

Faltou citar Carlos Germano, Polozzi, Torres, Pedrinho, Silas, Delei, Arthurzinho, Carlos Alberto Pintinho, Paulo César Capeta(ponta direita  bicampeão paulista pelo São Paulo), Casagrande, Nélio, Marcelinho Carioca, Valdir Bigode, Leandro Ávila, Paulo Henrique Ganso, Diego, Robinho quando queria ser jogador de futebol e Neymar que era reserva de Ganso. E dezenas se o acervo mofado for aberto.

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Em dezembro de qualquer ano terminando, um jogador mostrado pela Copa São Paulo acabava titular e como revelação em clube grande. Pelos nomes citados, dá pra imaginar que o nível passava bem acima do mediano.

Jogava-se bola bem redondinha. Certa vez o Flamengo fez o Corinthians de bobo no Pacaembu enfiando-lhe 8×0 numa final e em outra, Valdir Bigode saiu da  final  direto para a concentração dos profissionais do Vasco.

Um estudioso metido a besta e com tempo para se dedicar a temas sem o menor futuro dirá se um assunto está relacionado a outro, mas a decadência da Copa São Paulo, depois chamada de Futebol Júnior, coincidiu com a breve exibição, pela Rede Globo, de uma programação de fim de tarde para entreter a criançada.

Era a Sessão Comédia, a exibição de filmes enlatados de baixo nível,  como O Poderoso Benson,  As Super Gatas, Primo Cruzado, Super Vicky e o campeão dos campeões de nerdismo: Caras e Caretas.

Nunca ri nem vi ninguém esboçar um mugido de contentamento com alguma piada contada por qualquer ator. Claro, a abjeta dublagem contribuía civicamente para tornar ainda mais patética a exploração dos nossos olhos e ouvidos. Durou pouco a palhaçada.

A Copa São Paulo, coitada, foi tornada, creio que à força, a Sessão Tragicomédia do futebol brasileiro, a exposição cadavérica da falta de pudor com que são tratadas as divisões de base dos clubes, sejam os ditos grandes e os miseráveis, que se submetem a viagens degradantes de ônibus, do Norte ou do Extremo Sul, para tomar goleadas vexatórias em jogos que até o Super Vicky acharia horrorosos.

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Chegou-se ao cúmulo, este ano, de 104 clubes disputando uma competição claramente dirigida aos negócios. Qualquer menino com razoável condição é imediatamente entregue a um agente que se torna o seu tutor e seu dono, à base de procuração assinada – muitas vezes em branco – pelos pais ou responsáveis.

A Justiça da Infância e da Juventude precisa investigar este verdadeiro tráfico de jovens,  impune aos quatro cantos do país. São meninos paupérrimos, alguns em estado de desnutrição, mas com rasgo de potencial capaz de iludir um time de quarta divisão na Ásia, no Uzbequistão, nos cafundós da Groelândia.

Os atravessadores – chamados de “empresários” despacham a garotada para esses países ou os vendem para outros colegas com trânsito e tráfico de influência mais forte e ninguém sabe nem se interessa pelo que acontece depois.

Esta é a parte policial da Copa São Paulo que já foi um oásis. Paulo Roberto Falcão novo, irrompendo do meio-campo. Denner Augusto, o poeta que deveria ter  Anjos no sobrenome, driblando em bamboleio, Djalminha em seus toques debochados e  Paulo Henrique Ganso marcando o gol de uma vitória suada do Santos sobre o ABC(2×1), de virada.

O ABC apresentou, há uns cinco anos,  um exemplo de mercadoria perdida: Patané, jogador do Alecrim que viajou emprestado, marcou um golaço contra o Santos repetido duzentas vezes  pela televisão.
Virou cobiçado, era um rapaz  humilde e despreparado e hoje é apenas miragem do sonho que aparentou driblando em série. A Copa São Paulo agora a gente  assiste para rir da ruindade em campo. E para lamentar das serpentes agindo fora.

 

Junta Governativa
De fato, na prática, o ABC tenta reinventar, na chegada de Rogério Marinho,  o modelo de Junta Governativa que deu certo e muito certo no início dos anos 1970, com o tetracampeonato potiguar e a expansão do clube fora dos limites das meras camisas dentro de campo.

Outra época, outros homens
Há que se entender, porém, que eram e são outros tempos e – sem qualquer juízo de valor negativo sobre quem está assumindo o clube agora – eram e são outros homens. A Junta Governativa de Aluizio Bezerra, Bira Rocha e Zeca Passos foi quase um meio-campo do Santos de cartolas afiados.

Chapa de alpendre
Chapa eleitoral de alpendre já foi feita em diversos verões e levada na enxurrada das convenções. Montar chapa pronta em veraneio é esquecer de combinar com quem decide, o eleitor que está na seca, enfrentando todo tipo de problema, nem aí para conchavos.
 
Coletivo
Expectativa no América para o primeiro coletivo do ano, marcado para às 15h30 de sexta-feira no Estádio Nazarenão em Goianinha. Preparação para o amistoso contra o Botafogo de João Pessoa, campeão da Série D, no domingo.

Placar incentiva baderneiros
A revista Placar presta uma “homenagem” aos baderneiros das torcidas organizadas mostrando  líderes mascarados e exibindo suas tatuagens. Todos hostis, cheios de pose e sem querer dar entrevista. O caso é tratado como “furo” de reportagem quando deveria ser apologia à bandidagem. Alguns respondendo a crimes e com pedido de prisão.
 
Ego de bandido
Com base em estudos psicossociais, a Globo não divulga nome de facções criminosas nem dos seus chefes. Eles se sentem célebres, mais fortes.

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