Traições e cascavéis – Rubens Lemos

Um par de chifres fez a Polícia Civil descobrir uma trama macabra dos nocivos Black Blocs: incendiar a Câmara de…

Um par de chifres fez a Polícia Civil descobrir uma trama macabra dos nocivos Black Blocs: incendiar a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. A vergonhosamente famosa baderneira Sininho, megera usurpadora de nome de fada, estava de namoro com um dos líderes das arruaças. A mulher do pilantra, outra militante do terror, resolveu dedurar o esquema, mordida de ciúme e despeito. Foram todos para a cadeia, mas já estão livres para aprontar de novo.

A história me fez lembrar um caso sem violência sempre ouvido nas rodas de birita e MPB, nas quais me intrometia, menino curioso. Papai participou da presepada pelos idos de 1975. Ele e sua patota estavam revoltados, na ira do machismo Jece Valadão, o ator e símbolo da masculinidade das chanchadas. Eram as traições olímpicas sofridas por um crédulo amigo, casado e apaixonado pela jovem de corpo curvilíneo na proporção dos desvios do passado nas madrugadas do bairro da Ribeira, onde resistiam, asfixiados, os puteiros ancestrais da cidade.

Os dribles da louraça no ingênuo rapaz em prosperidade comercial sassaricavam pela cidade inteira e menos ele – o iludido – atestava e dava fé. Na testa, podia-se observar, em olhar atencioso, o par de antenas apontando para onde o infeliz desviasse a vista. A malta, reunida, decidiu convocar o ludibriado e lhe exigiu uma postura de macho. Reação de virilidade e de honra, à época, ainda lavada com sangue riscado no chumbo ou no corte arregaçado do facão rabo de galo.

Manso como um cordeirinho de desenho animado, reagiu indignado, defendeu a digníssima, criticou a maldade daqueles que considerava “amigos” e exigiu provas. Punha a mão na churrasqueira da piscina pela dignidade da amada e imaculada companheira. “Com a churrasqueira desligada não é?”, zombou um dos boêmios, hoje domiciliado no cemitério Morada da Paz.

Uísque, cachaça, cerveja, cigarro e o líder do grupo, ares de Maigret, o inspetor sensacional dos romances policiais de Simenon, sugeriu providências práticas. Na sexta-feira, à noite, dariam o flagrante. A mulher devassada costumava sair para jogar “buraco” um tipo de carteado bem próprio daqueles anos. Sempre na casa de uma amiga.

O Maigret provincial, acompanhado por um experiente policial civil, integrante da confraria, seguiu-lhe os passos, registrou o itinerário de final inevitável: o Motel Tahiti, o primeiro de alto padrão de Natal, mágica invencão de um dos personagens mais irreverentes, alegres e criativos da cidade: Alcione Dowsley. O Tahiti merece um livro. Difícil é aparecer quem escreva e sobreviva uma semana depois de relembrar episódios e atores.

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Comprovado – em fotografias – o golpe sobre o otário entre os malandros, foi feita outra reunião. Exibiram as imagens do possante carro Maverick do pé de lã bem acompanhado adentrando o bucólico paraíso de Alcione Dowsley. “Isso não quer dizer nada. Pode ser outra mulher, fotografia não é sentença!”, berrou o chifrudo renitente.

Esperaram a sexta-feira seguinte e aplicaram-lhe um porre descomunal. Antes, haviam deixado um espião no motel para dar o serviço do quarto onde rolaria o carteado entre lençois.

Confirmado o lugar certo, a gangue reservou o espaço vizinho. Nunca vi, mas a Velha Guarda contou que algumas suítes lembravam casarios aconchegantes do interior. Eram separadas por meia-parede, não havia teto de uma a outra e as refregas e gemidos podiam ser compartilhados. Não sei se é lenda urbano-sexual.

Pé ante pé, sem alarme nem alarde, o quarteto recambiou a vítima. Os cinco se aboletaram e o mais alto colocou o relutante sofredor no cangote. Um esforço e ele ficou equilibrado, os outros segurando suas pernas. Ele olhando para a cena que fecharia em clímax tragicômico a longa novela. O jovem e quase próspero negociante viu a mulher de calcinha e sutiã, e o parceiro de cueca Zorba, em aquecimento para o clássico de alcova.

Desceu sem alteração alguma. Os amigos esperaram a explosão de fúria e a queda da máscara da vigarista. Então, tomando uma dose de uísque em miniatura, o traído sorriu aliviado e quase matando os outros de raiva: “Vocês são cascavéis de maldade. Não está acontecendo nada. Estão apenas conversando.”

Papai me contou que o primeira tapa na orelha do cidadão conformado ele fez questão de dar. Queriam afogá-lo na piscina, mas seria um escândalo. O ingênuo continuou o casamento, orgulhoso e sorridente em colunas sociais ao lado da musa. E ela “no baralho”, às sextas, no Tahiti.

Uma tarde, ele esqueceu documentos importantes e voltou para casa. A loura praticava hipismo com o jardineiro. Ambos, nus. Pediu o desquite. Chorava e uivava por ela. Papai ficava puto cada vez que lembrava. O Tahiti fechou antes que eu pudesse conhecê-lo. Só pra passear pelo lugar e entrevistar o saudoso Alcione. Sério. O motivo era somente esse. Vocês são umas cascavéis maliciosas.

A excursão

O ABC começa hoje uma verdadeira excursão em busca de pontos importantes na Série B e pela classificação na Copa do Brasil. Hoje, contra o Paraná Clube, jogo que pode fazer o alvinegro disparar entre os primeiros colocados. O Paraná é perigoso, mas nem sombra do assombro dos anos 1990. Seu camisa 10 é matreiro. Lúcio Flávio, veterano e habilidoso.

Depois

Nos 10 dias longe de Natal, o ABC pega o Novo Hamburgo no Rio Grande do Sul. Tem a vantagem do empate. Se fizer um gol, o Novo Hamburgo vai precisar marcar três. Depois, na sequência, o América Mineiro em Belo Horizonte. Voltar com seis ou sete pontos está na medida prudencial.

Zé Teodoro

Fui radicalmente contra a vinda de Zé Teodoro depois que ele acertou e deixou o ABC na mão. Mas reconheço o valor das pessoas e corrijo meus equívocos de análise. Zé Teodoro está conseguindo transmitir segurança à torcida, mesmo que o time não seja tão bom quanto o que terminou a Série B de 2013.

Acerto

O retorno discreto do ex-presidente Jussier Santos ao futebol do América é um gol da atual diretoria. Jussier está atuando como formiga, sem barulho, agregando e cultivando sempre o amor vermelho do seu sangue emocional.

Minha opinião

Na minha opinião, que é minha e ninguém tasca, Jussier Santos é o mais vitorioso cartola do América. Plantou semente, fez história.

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