A triste realidade de Maria, 11 anos: exposta às drogas e aos abusos

Menina nasceu no Carandiru, onde a mãe, viciada em crack, cumpria pena por roubo

Maria brinca com quebra-cabeça na sala de espera do Seavidas: criança fica na rua (foto: Lucas Mamede / Especial)
Maria brinca com quebra-cabeça na sala de espera do Seavidas: criança fica na rua (foto: Lucas Mamede / Especial)

O trágico destino da menina Maria, 11 anos, foi traçado bem antes da maternidade. O ambiente em que foi gerada já prenunciava que a vida da pequena de cabelos cacheados não seria um mar de rosas.

Maria, nome fictício, foi concebida durante visita íntima na prisão do complexo penitenciário mais violento do país, o Carandiru. Em 2001, no mesmo período em que o Primeiro Comando da Capital (PCC) promovia uma série de rebeliões nas prisões do Estado, a mãe dela conheceu e se entregou para o visitante de uma colega de cela.

No dia 13 de agosto do ano seguinte, nascia Maria, na maternidade da Penitenciária Feminina do Carandiru. Uma bela criança de pele morena e físico perfeito, mas com distúrbios mentais provocados pelo uso contumaz de crack pela mãe.

Com 8 dias de vida, foi entregue à avó Zilda, com quem vive até hoje – já que a mãe sumiu depois que saiu da prisão. Mas a convivência entre as duas não é harmônica: agressiva, a menina não pensa duas vezes em jogar pedra e pau em quem a contraria – e isso inclui, principalmente, Zilda, que revida as agressões.

Aos 7 anos, a criança descobriu que podia conseguir dinheiro por conta própria e foi se distanciando da escola e das brincadeiras da infância. Chegou a ser matriculada numa escola da rede pública, mas, devido à hiperatividade, não se adaptou. Em vez de ficar na sala de aula, corria para o pátio, ligava a mangueira e esguichava água nos professores e nos colegas de sala.

Hoje, aos 11 anos, só sabe escrever o primeiro nome e com letra de forma, não lê nada, mas já é uma expert na rua. Passa o dia inteiro perambulando pelas vias e praças tomadas por usuários de droga e traficantes, exposta a todo tipo de risco, o que atiça ainda mais a fúria de Zilda. Percorre da zona Sul à Norte a pé, de ônibus ou mesmo de carona.

“Eu gosto de ficar na rua. Peço moedas para comprar as coisas que eu quero comer. Me viro”, conta.

A criança nega, mas há fortes indícios de que esteja sendo vítima de abuso sexual consentido em troca de dinheiro.

 

Dinheiro de idoso causa suspeita

Maria já foi vista várias vezes por pessoas do bairro saindo de uma construção, onde pedreiros e serventes trabalham. Mas a principal preocupação da avó é a ligação de Maria com um idoso do bairro, que vive dando dinheiro para a menina.

“Já viu homem velho dar dinheiro para criança sem intenção? Ele já deu R$ 40, R$ 50 e vai aumentando. Outro dia, viram ela e a irmã mais velha, de 15 anos, cochichando com ele no escuro. O que você acha que está acontecendo?”, indaga.

No ano passado, Maria saiu de casa de manhã e desapareceu. Foi achada andando nua pelas ruas de Barrinha dois dias depois – acabou apreendida por agentes do Conselho Tutelar. “Quando fui buscá-la, a encontrei imunda e sem calcinha. Me contou que havia ido para lá de carona com um motorista de ônibus”, conta a avó.

Para a delegada Luciana Camargo Renesto, titular da Delegacia de Defesa da Mulher, as evidências de que Maria esteja se prostituindo são grandes.

 

Avó de Maria avisa: quer que juiz interne a menina e a irmã

A vida desenfreada de Maria é resultado da desestrutura familiar. Ela não é a única que sai de casa sem rumo e passa dias na rua. Uma das irmãs mais velhas, Viviane, 15 anos, também sai sem dar satisfação para a avó, que chamam de mãe, e passa dias fora de casa.

“Quando eu chego, ela [a avó Zilda] me expulsa. Ela me xinga de muitos nomes feios e eu não gosto.

Sou obrigada a sair sem dizer nada porque, se falo, ela não me deixa sair”, diz Viviane.

Por ficarem muito tempo na rua, o juiz da Vara da Infãncia e Juventude, Paulo César Gentile, já chegou a determinar o abrigamento das duas irmãs por medida protetiva.

Viviane e Maria já ficaram seis meses internadas no Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes Cacav, mas retornaram a viver com a avó. Questionada sobre os motivos de ter permitido a intenação, Zilda é curta e clara:

“Não quero elas aqui. Não dou conta, dão muito trabalho. Só ficam na rua. Depois que o pior acontecer, a culpa ainda será minha”, diz a avó.

No próximo dia 16, Zilda e as netas terão audiência com o juiz Paulo César Gentile, da Vara da Infância. “Vou pedir para ele interná-las”, avisa a avó.

 

 

Fonte: Jornal A Cidade

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