Tudo por um corpo sarado
Chega o verão e parte de seus amigos e familiares troca a cidade pela praia. O movimento começa no final de dezembro e ganha força em janeiro, com férias, recessos e eventos em parceria com a estação que doura os 420 km do litoral potiguar. Mesmos os avessos à cultura solar recebem convites para dias ou finais de semana na casa de conhecidos. Para um número considerável de pessoas, momento de desespero com o sedentarismo retrospectivo. A ideia de expor-se ‘in natura’, à plena luz, é pesadelo dos mais traumatizantes. Logo a cerveja, a calabresa e o sofá são amaldiçoados, e frutas, caminhadas e o abandono dos excessos viram obsessão. Até livros sobre como definir o abdômen entram no pacote Consciência Limpa. Só que agora é tarde. Quilos de tecido adiposo acumulam-se nos pontos vulneráveis. E o encontro com a turma é daqui a três dias. No máximo, dá tempo de passar aquela camisa folgada na extremidade, que camufla a rotundidade central.
Isso se for mulher. Para os homens, é short, camiseta e “vamos falar de outro assunto”. Foi em uma encruzilhada parecida que Henrique Andrade se encontrava cinco verões atrás. Então com 38 anos, ele vislumbrava um feriadão, quinze dias à frente, como um tribunal conduzido por juízes implacáveis e pré-determinados a condená-lo: a namorada doze anos mais nova e suas amigas, de RG semelhante. Apenas um casal com idade compatível a sua dividiria o constrangimento (colegas de trabalho estrategicamente convidados por Henrique). Quatro dias em que ficou acabrunhado, temeroso quanto à imagem que transmitia. Sem saber que aquela relação terminaria meses depois, ele tomara uma decisão: inflaria músculos e a epiderme até o limite com o uso de esteroides anabolizantes, em ciclos programados a cada 120 dias, de modo que seria outro homem na próxima estação. Tinha meios e recursos. A coragem veio com o ferimento na masculinidade adquirido em Barra de Maxaranguape.
Levou menos de duas semanas para ter a certeza de que poderia tocar no assunto com o professor da academia onde se matriculara dias antes. Tinha ouvido uma conversa sobre “bombas” e pensou ter achado os cúmplices que tanto precisava. Localizada em uma das principais avenidas de Cidade Satélite, o lugar é ponto de encontro de marombeiros da região. O que, naquele caso, significava que existia um mercado negro da estética masculina. De impulso, Henrique acatou a sugestão do educador físico e trocou três notas de cem reais por uma caixa com ampolas sortidas de Durateston, testosterona pura e Equipoise, cujo principio ativo, o Undecilenato de Boldenona, promete aumentar a força e o volume muscular de cavalos – puro sangue ou não. O complemento seria uma injeção localizada de ADE que, como sugere o nome, é um óleo com as vitaminas citadas para tratar de infecções em bovinos, equinos, suínos, caprinos e até coelhos. Sobretudo em músculos de tamanho médio, como bíceps e panturrilhas, ele faz a mágica de anabolizar uma área em 48 horas.
Ao término da primeira semana, Henrique se sentia diferente. A densidade e a rigidez tinham voltado. A disposição para levantar anilhas, restabelecida. A expansão do deltoide e a diminuição da cintura trouxeram de volta algumas roupas para o uso cotidiano. Sua aposta era de que tinha feito a escolha certa. Entre a quarta e a sexta semana, “parecia que eu tinha tirado na Mega Sena, de tão feliz que eu estava com meu novo corpo. A autoestima voltou. Quando terminei o primeiro ciclo, que durou oito semanas, eu tinha ganhado cinco centímetros de braço e aumentado seis quilos”. De compleição frágil, o representante comercial tinha 1,72m e 70 kg. Pequenos sinais de que a coisa não ia tão bem, como taquicardia e vômitos com traços de sangue, foram desprezados. Em busca de um objetivo maior, tudo tinha seu preço, pensava.
“Só quanto comecei o segundo ciclo, três meses depois que terminei o primeiro, é que vieram os problemas com maior intensidade. Qualquer tipo de álcool que eu ingerisse, dava uma ressaca violenta. Eu vomitava muito. Até que meu braço começou a doer”. A ADE, além de emprestar confiança para um homem comum de baixa autoestima, pode demonstrar seu lado macabro através da paralisia dos membros, abscessos e, não raro, necroses. Enquanto o corpo era esculpido feito um prédio robusto de pedra, o braço direito de Henrique ganhou uma textura brilhosa e distendida, como se fosse explodir a qualquer momento. Ele suspendeu a substância, apesar de manter aplicações dos outros anabolizantes. Setembro de 2008 seria o período de maior sofrimento. A quantidade de pus e a gravidade da infecção chegaram ao extremo, e a amputação do membro foi cogitada pela equipe médica que o acompanhava.
Cinco verões depois, refeito da experiência suicida de querer brigar contra a genética, Henrique está solteiro. “Mas estou vivo e feliz. Aquilo foi uma besteira que não farei nunca mais. É uma coisa falsa, fingida, querer ser fortão sem ser. O cara vê na televisão os caras saradões, fortões, e pensa que pode ficar igual só tomando bomba. Tem que fazer dieta, malhar muito e ter paciência, não tomar bomba. Quase perdi um braço para quê? Era mais porque a galera da namorada que eu tinha malhava muito. Isso mexeu comigo. Cai na besteira de achar que ela só me queria se eu ficasse forte”. As medidas anteriores, 1,72m e 70 kg, estão de volta. Uma cicatriz tatua o braço de Henrique, como sobras de um plano abortado às pressas. Virou adepto de caminhadas e de uma alimentação saudável.
Quem costuma ouvir histórias parecidas é Nilton Bruno, proprietário da Village Vitaminas, empresa mais antiga da cidade no ramo de suplementos alimentares. Seja através de um professor, ou diretamente no balcão de uma farmácia, é corriqueira a procura de jovens por anabolizantes. “Eles usam também o telefone”. O pedido para aumentar a massa muscular com rapidez gera a confusão entre suplementos e anabolizantes. “Até mesmo para evitar esse tipo de confusão, tão ruim para nosso segmento, optamos por focar em pessoas com mais de 35 anos. São clientes maduros, que estão preocupados com a saúde, em manter o corpo sadio, não sarado. A boa forma é apenas consequência da boa saúde”. Bruno explica que, no verão, muda o tipo de produto procurado. “Na verdade, isso já começa em dezembro, quando as pessoas compram emagrecedores e termogênicos”.
Henrique Andrade não quis esperar o efeito homeopático, mas saudável, das proteínas, dos BCAA’s, das glutaminas, orientadas por um médico ou por um nutricionista. O imediatismo iluminou a importante decisão de injetar uma química incompatível com seu organismo. O resultado poderia ter sido trágico. “Sem contar que passei também um tempo sem querer nada com a mulher. Dizem que bomba não causa impotência, mas isso não é verdade. Causa, sim. Ainda mais depois dos 30. O que acontece é que tem gente que reage de outro jeito. Mas todos correm um sério risco de algo de ruim acontecer. Naquele tempo eu fui besta de pensar como um menino para ficar todo bombadão na praia. Hoje eu acho feio um cara forte demais”.
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