Túmulo – Rubens Lemos

O cemitério continental que abriga os revoltados pela surra alemã de 7×1 estava inaugurado bem antes da eliminação na Copa…

O cemitério continental que abriga os revoltados pela surra alemã de 7×1 estava inaugurado bem antes da eliminação na Copa do Mundo. Ficou pronto primeiro do que o jamais inaugurado campo cômico de Sucupira do Odorico Paraguassu novelesco de Dias Gomes. Faltava ao povo respirar sufocado o mau cheiro do defunto. Glória e desgraça nascem na instalação de cada tijolo. Pedra de construir e trator de eliminar.

Havia no rosto familiar do poste ou do meio-fio a expressão abismada do patético vexame. Nas pessoas, a tristeza enlutada do surpreendente. Ora, é muito mais fundamental do que cobrar um novo futebol brasileiro, renascido na sua própria natureza de beleza e arte, a sensatez de reconhecer que tudo começou bem antes do jogo contra a Alemanha.

A derrota brasileira recebeu seu primeiro prego de caixão assim que se jogou no lixo da história a essência do futebol praticado aqui desde a primeira bola dominada. Não chutada, dominada, equilibrada no pé, no peito, na cabeça e tocada de primeira, no passe e linha melódica do samba da finta, do jogo de corpo, do drible em escala industrial.

A derrota brasileira está em Felipão e não só nele. Está em nós, os crédulos, os seduzidos pelas palavras e ações falsas de quadriênio copeiro. Copas do Mundo nasceram para passar e o jogo é de vitória e de derrota. A filosofia do Brasil domado pelos brutos de beira de campo é que se transformou na cópia malfeita do faroeste caboclo e urbano: Empatar primeiro e perguntar depois. Nas ruas, atira-se primeiro e nem se pergunta em quem ou se diz o porquê.

Assassinaram o futebol do Brasil muito antes dos alucinantes minutos em que a Alemanha transformou a grande área de milionários mendigos de talento em uma Oktoberfest de linha de passe e gols de sentença humilhante. Mataram nosso jeito e a nossa ginga nas escolinhas dos ricos e na teimosia dos toscos e seus patrões de instinto capo.

A Europa, dizimada por Hitler – que não significa o alemão, mas a podridão moral e racista de um sádico -, recomeçou das pedras jogadas às ruas em bombardeiros noturnos. A Europa renasceu em Winston Churchill, em Montgomery, na coligação aliada de um beque central libertador chamado George Patton, o varredor de nazistas e personificação da infantaria brutal e corajosa.

Desde 1982, por absoluta falta de amor próprio, criou-se nas cabeças ocas de microfone, máquina de escrever quando existia e depois de teclado de computador, a mentira ilusória de que vencer jogando feio valia a abolição de um estilo consagrado.

A derrota para a Itália provocou o esquartejamento dos nossos times, a profanação da criatividade e o aplauso subalterno à marcação, ao combate, ao antijogo feito de pretexto para justificar vitória de pirro.

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Depois de Telê Santana, em 1983 chamaram Carlos Alberto Parreira, demitido depois de uma Copa América perdida para o Uruguai e de classificação à final decidida pelo cara ou coroa, brincadeira que nós, meninos amantes de futebol malicioso, abusávamos antes da obrigação deplorável de estudar para fazer prova no colégio.

Não foram os alemães nem seus canhões eficientes os responsáveis pelo fracasso que impõe sombra e tristeza aos inocentes de utilidade. O Brasil merecia perder a Copa do Mundo sem o esforço de entrar em campo.

Jogou mal contra a Croácia, pior ainda contra o México, fez o básico para bater uma seleção caricaturesca, com a camisa de Camarões. O Chile deu um olé, a Colômbia amarelou da blusa à cueca e a Alemanha é bem além do que o traje igual ao do Oeste de Itápolis (SP).

O placar de 7×1 foi apropriado ao esqueleto de time sem comando, chefiado por um ultrapassado, pedante e incapaz de aceitar aposentadoria desde que, comandando Portugal, fez os lusos perderem uma Eurocopa jogando feio e com medo para a inexpressiva Grécia, dentro de Lisboa.

Ninguém lembra, ou não quer, por preferir o imediatismo da goleada inexplicável. Felipão é Segundona, para onde levou o Palmeiras, ou foi primeiro para o inferno, ao qual enviou, transtornado, jornalistas que o incomodaram com perguntas sem adulação.

Quem é o futebol brasileiro de agora para chorar tragédia? Ninguem. É teatro de fantoches, boleiros medíocres e cartolas comprometidos com falcatruas, ou é calúnia tudo o que foi investigado e comprovado sobre a CBF e a Fifa, matronas e madrastas.

Esse jogo não pode ser 1×1, cantaria em balanço o grande Jackson do Pandeiro, somando mais seis na cachola de Júlio César, o goleiro que ficou nas falhas de 2010. Revoluções dependem de atitudes firmes.

O Brasil só será de novo quando a vassoura corretiva expulsar a sujeira em forma de gente e atitude torpe. O Brasil que não é melhor do mundo faz décadas, só será outra vez quando os gramados forem reabertos aos negros e as arquibancadas aos pobres. Futebol no Brasil era diversão, cultura e show. A Alemanha apenas cimentou o mausoléu aberto pelos coveiros impunes.

Final

Ninguém é favorito domingo. Em final de Copa do Mundo, o mais forte certas vezes é vítima da própria teoria de superioridade.

Grandes

Dois grandes fecham o Mundial. Alemanha e Argentina vão tirar a teima. Em 1986, ganhou Maradona. Em 1990, ele chorou na vitória de Matthaus.

No Hospital

Vítima de crise de hipertensão e forte enxaqueca, perdi Argentina x Holanda. Tarde e boca de noite hospitalizado. Preciso cuidar do meu time. Do time de minha saúde. Grato ao neurologista Fábio Melo em nome de todos os que me assistiram na Casa de Saúde São Lucas.

Hipismo

Esporte adequado para a Holanda, cavalo paraguaio de Copa do Mundo.

Bernard

O pequenino de estatura e de futebol resolveu cornetar Felipão depois de tudo perdido. Feio. No tempo de malandro sábio, dava-se a atitude o nome de trairagem.

Tite

Falam que Tite será o substituto de Felipão. Confirmada a troca de um beque de pancada por um volante de contenção, o Brasil vai mudar 0,0005% no futebol. Não temos técnicos brasileiros por aqui. Falta coragem para convidar quem sonha silencioso em comandar a seleção que um dia lhe inspirou: Pep Guardiola, espanhol fã do escrete de 1982.

Marin

Renunciar. Desaparecer. Ser abduzido.

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