Uísque falsificado

Homens de paletó protegidos por sobretudo. Mulheres em roupas conservadoras. Clima ameno em Glasgow, Escócia: 7 graus abaixo de zero,…

Homens de paletó protegidos por sobretudo. Mulheres em roupas conservadoras. Clima ameno em Glasgow, Escócia: 7 graus abaixo de zero, um tropicalismo para qualquer nortista britânico. Gaitas sincronizadas pela fila de marmanjos vestindo saias.

Explodem aplausos e berros delirantes quando é anunciada a escalação: Glen Glarioch no gol; Glenfiddich, Auchentoshan, Glenrothes e Balblair; Hart Brothers, Classic Cask, Glen Elgin e o veterano North Porth; Invergordon e Glenfarcias.

A torcida delira em frenesi de show de Beatles nos anos 1960. A cada nome pronunciado com solenidade pelo locutor, entra um garçom cumprindo cerimonial luxuoso e aparece com uma bandeja e uma garrafa, representando o craque em forma de uísque. É a nata do malte, segundo estudos, ensaios, boçalidade e palpites dos entendidos no assunto.

Caso tenha de encarar um brutamontes de segurança em boate ou de puteiro original e por sinal, legítimo sem destilação, apanhe resignado e pedindo mais como uma amante escroque de malandro.

Será menos irritante do que suportar um entendido, um pitaqueiro, um chato de opinião jamais solicitada. Esganar um entendido deveria corresponder a prêmio, não a podridão de uma cela. O entendido é o arrogante esférico.

Na Escócia – e nenhum consultor metido ensinou –, o uísque sempre foi muito melhor do que o futebol, saboroso como um café da manhã de vinagre lavando um sanduíche de cebola com alho. A Escócia sempre nutriu um ciúme doentio da Inglaterra. Quando se encontram, nem os Mariners americanos evitam o quebra-quebra.

Escocês é freguês encadernado do Brasil. Não ganha. Nunca. Nem nos tempos de preparação para a Copa de 1966, eles tiraram uma casca. Conseguiram empatar em 1974(0x0), no jogo em que Rivelino desferiu uma patada atômica manual nocauteando o capitão deles, baixinho invocado, Billy Bremner.

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De 1966 a 2011, em dez partidas oficiais, o Brasil ganhou oito. Os empates foram no primeiro jogo e em 74. Quando a Escócia caía em grupo brasileiro de Copa do Mundo, apostadores gostavam por conta e o bicho era pago antecipadamente aos boleiros.

Em 1982, um passeio. Eles até começaram na frente (1×0) e rezaram para perder por 4×1. Até a seleção de 1990 venceu a Escócia. Quem perde para o grotesco Sebastião Lazaroni é digno de um quadro humorístico. Levaram gol de Cafu. De Cafu! Em 1998.

Foi demais? Não foi. Tome um nacional fuleiro ou apele para uma dose de pinga. Escoceses perderam para um Brasil com Geraldão do Cruzeiro de capitão, Nelsinho, do São Paulo, de lateral-esquerdo, Edu Marangon da Portuguesa de Desportos com a camisa 10(Ah! a inquisição) e o deletério Mirandinha, do Palmeiras, de centroavante.

Há quem tenha, por pirraça ou masoquismo, a capacidade de clonar a mediocridade. Não bastasse a raiva crônica causada pelo Mirandinha de 1974, inventaram outro, em 1987. Pelas atuações surpreendentes em Wembley na Taça Stanley Rous, tornou-se o primeiro brasileiro a jogar no futebol inglês. Abusado, abandonou a seleção na Copa América, após ser posto na reserva de Careca e… Romário.

Tantas palavras vãs pelo futebol escocês. Rubinho só pode estar de porre. Detesto uísque, confissão de deselegância etílica. Vagando pela internet, descubro uma lista dos 40 clubes “mais legendários” da história. Legendário quer dizer fantástico, extraordinário, excepcional.

A Revista alemã Kicke, escalou o Celtic e o Rangers, ambos da Escócia, em 23o e 24o. O Santos, de Pelé, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe, Edu, Toninho e Mané Maria, escondido numa 29a colocação de coma alcoólico. O Flamengo dos anos 1980 em 30o. O Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes nem entrou. O Al Ahly, do Egito, está lá. O computador, não quebrei. Nem você vá rasgar a coluna, ou na bebida buscar esquecer. Esmurre o colchão. Assim fiz.

Cervejinha

A globalização desvairada afasta do futebol hábitos naturais. A cervejinha sempre foi um legítimo gole do verdadeiro torcedor. O rádio de pilha também. Hoje substituído pela impessoalidade dos smartphones, fundamentais no cotidiano, na vida desequilibrada pelo estresse.

Tradição

A cervejinha tradicional, tomada nos bares ou botequins de arquibancada, sempre foi consumida pelo prazer, para aliviar a tensão, o nervosismo nos tempos de clássicos de estádio lotado. Emoção pendurada em marquises.

Injustiçada

A cervejinha terminou proibida e a ela a hipocrisia geral atribuiu grande parcela de culpa pela violência de carnificina no futebol. Como se bandido, para brigar ou matar, precisasse beber. Ou se a venda dentro do local do jogo, impedisse o consumo nas imediações.

Lei

Aprovada a lei do deputado estadual José Adécio (DEM) liberando o consumo do álcool nos jogos dentro do Rio Grande do Norte. Faz-se Justiça, corrige-se uma bobagem burocrática dos engravatados com horror à massa uivante.

Nada de vandalismo

A bebida, quando consumida na paz e pela alegria, não faz mal. O exagero causa crimes, acidentes de carro e até serve de pretexto para o vandalismo, turbinado muito mais pelo uso da maconha e na degradação do crack. Salve a cervejinha, bálsamo tão brasileiro quanto uma partida épica.

Placa

Arthur Maia, do América, merece uma placa pelo gol de domingo. Uma varredura na memória e poucos lances foram tão estupendos quanto o dele diante do Globo. Há tempo para a homenagem.

Esquecer

Arthur Maia está fazendo a torcida esquecer o meia Régis, destaque americano da Série B. Arthur é criativo e finalizador, raridade.

Baixa

O ABC entrou em zona perigosa. Degringolou em campo e nos bastidores, o clima oscila entre o marasmo e a guerrilha. O ABC sobrevive pela tradição.

Série A

O ABC pode subir para a Série A este ano. Falar sobre o assunto agora é como jogar gasolina para apagar incêndio. Penúltimo no segundo turno. Quinto na colocação geral do campeonato.

Título ao Alecrim

Ao empatar em 0x0 no dia 25/03/1979, no Castelão, ABC e América deram o título da Taça Cidade do Natal invicto ao Alecrim, à época com Alberi de camisa 10. O clássico teve público pagante de 7.177 torcedores e arbitragem de César Virgílio, hoje comentarista da Rádio Globo.

Times

ABC: Carlos Augusto; Geraílton, Domício, Cláudio Oliveira e Noronha; Baltasar, Arié e Danilo Menezes; William, Maia e Noé Macunaíma (Jorginho). América: Zé Luiz; Ivã Silva, Joel Santana, Ronaldo Alves e Sérgio Poti (Valmir); Ubirani, Davi e Marinho Apolônio; Ronaldinho, Mário (Luisinho) e Sandoval.

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