Um ano sem Deífilo Gurgel – Severino Vicente, escritor e folclorista, presidente da Comissão Norte-rio-grandense de Folclore (severino_vicente@yahoo.com.br)
Ser folclorista sempre foi, e continuará sendo, trilhar por caminhos difíceis, experimentar incompreensões, porque o ritmo da modernidade é vertiginoso, febril, desnorteante, nos deixa às vezes até confusos, meio tontos. No entanto, indiferentes aos ruídos, as ninharias, a avalancha constante de informações equivocadas que nos assediam, continuamos. Nas mãos régua e compasso. Filtrar ruídos, livres para sermos o que disse Antônio Nóbrega: madeira que cupim ruim não rói.
Meu querido amigo e mestre Deífilo Gurgel, professor, escritor, historiador, poeta e folclorista, soube trilhar com maestria os caminhos, trilhados por Luis da Câmara Cascudo, seu mestre, o mestre de todos nós. Fez o que tinha de fazer: pesquisou, estudou, documentou e defendeu com respeito, mestres e brincantes da rica e bela cultura popular do nosso Estado.
Sabia Deífilo, por isto seus olhos brilhavam quando o assunto era folclore do Rio Grande do Norte: temos um Estado que sem exagero algum, mantêm um dos mais ricos, variados e seletos repertórios da cultura popular brasileira. Isto o encantava.
Estudou romances velhos, históricos, religiosos, fronteiriços e outras temáticas, anotando cantos que o povo guarda, conta e reconta, na dinâmica das suas relações intrínsecas.
Mas, seu grande mérito como estudioso do folclore foi o de respeitar o bônus e o habitat da cultura do povo e foi em nome dessa coerência que registrou as impressões contidas no folclore potiguar, deixando para os seus discípulos a tarefa da continuidade, com o mesmo respeito, a mesma coerência.
A visão “deifiliana” não definia cultura popular como a festa esperançosa dos figurais de rua, cantado e evoluindo na coreografia das danças. Nem tão pouco o lúdico, restrito, equivocado, para ornar o ambientes. O folclore e a cultura popular para ele era um completo, original e permanente documento, funcionando como armadura coletiva a proteger os feitos e as ações do povo, as expressões folclóricas, a extremidade social com suas vivências, carregando o poder estandardizado de comunicar-se, com suas “sabenças”, arte e magia, linguagens universalizadas que só o mestre Cascudo foi capaz de identificar.
Como não sou poeta, recorri ao grande Paulo de Tarso Correia de Melo, para homenageá-lo: “Seu nome é estrada secreta/ aquela que poucos sabem/ e que poucos seguem/ É boa e aprazível/ e onde alguém está em perigo/ Conhecida como sítio seguro/ é um lugar difícil/ Tomo a estrada secreta/ Eu a sigo (…)”
Realmente seu nome é sinônimo de estrada, estradeiro da sabedoria popular que buscou a identidade de seu povo, procurando emblemas, símbolos para a decodificação dos repertórios, das sobrevivências tradicionais, orais, dos trajes, gestuais, expressas em manifestações variadas de criação, recriação, ou uso repetitivo, próprios das vivências memoriais.


